Farage, o antieuropeu que leva o sistema político britânico a reboque

Tiradas racistas, ataques dos opositores e polémicas não travam o crescimento dos populistas do UKIP. Farage, a cara e o estratega do partido, é um político que escapa a classificações simples.

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Nigel Farage gosta de se apresentar como um inglês comum, apesar de não o ser ADRIAN DENNIS/AFP

Farage não é, mas gosta de se apresentar como um inglês comum. As conversas com os jornalistas acontecem quase sempre em pubs locais. De cerveja numa mão e cigarro na outra, o antigo corretor de mercadorias na bolsa de Londres transforma-se num franco-atirador, disparando contra a “euroditadura” de Bruxelas, os “políticos de cartão” que enchem o Parlamento, todos iguais da direita à esquerda, ou a “política de fronteiras abertas” que permitiu a entrada no Reino Unido de centenas de milhares de europeus de Leste.

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Farage não é, mas gosta de se apresentar como um inglês comum. As conversas com os jornalistas acontecem quase sempre em pubs locais. De cerveja numa mão e cigarro na outra, o antigo corretor de mercadorias na bolsa de Londres transforma-se num franco-atirador, disparando contra a “euroditadura” de Bruxelas, os “políticos de cartão” que enchem o Parlamento, todos iguais da direita à esquerda, ou a “política de fronteiras abertas” que permitiu a entrada no Reino Unido de centenas de milhares de europeus de Leste.

As suas armas? A linguagem directa que os partidos desaprenderam – e que raia muitas vezes os limites do insulto – e um sentido de humor, auto-depreciativo e politicamente incorrecto, que usa tanto para cativar a audiência como para fintar as questões mais incómodas. “Recebo dinheiro do diabo para fazer o trabalho do Senhor”, disse quando lhe perguntaram sobre o generoso salário que há 15 anos recebe como deputado no Parlamento Europeu.

É em Bruxelas, aliás, que Farage, 50 anos feitos, mais facilmente abandona a imagem de gentleman que os fatos de bom corte que invariavelmente usa ajudam a criar. Em 2010, escandalizou o hemiciclo ao acusar o presidente do Conselho Europeu, o belga Herman von Rompuy, de ter “o carisma de um trapo velho” e a “aparência de um bancário”, “sem qualquer legitimidade para o cargo”. Numa entrevista ao jornal El Mundo, um ano antes, acusara a compatriota Catherine Ashton, de ser “uma inútil” que só conseguira ser nomeada chefe da diplomacia da UE “porque o marido é um dos principais financiadores do Partido Trabalhista”. E nas entrevistas à RT, a televisão em língua inglesa financiada pelo Governo russo, insiste que Bruxelas é governada “pelas piores pessoas que a Europa viu desde 1945”.

Do eurocepticismo à imigração
Foi esta aversão visceral ao projecto europeu que, no início dos anos de 1990, arrastou para a política o jovem Nigel, corretor, filho e irmão de correctores da City. Militante dos tories, rompeu com o partido depois de o primeiro-ministro John Major ter assinado, em 1992, o Tratado de Maastricht que instituiu a União Europeia e abriu caminho à moeda única. “No Reino Unido o debate inicial foi sobre a entrada no mercado único. Ninguém falou numa união política, na supremacia da lei europeia sobre a lei britânica”, recordava na entrevista de 2009 ao El Mundo.

Farage esteve na fundação do UKIP, mas era não só mais jovem do que a maioria dos seus correligionários, mas também mais traçado para a ribalta política. Em 1999, beneficiando da introdução do sistema proporcional, o partido elegeu três eurodeputados e Farage estava entre eles. Cinco anos depois, eram já 12 e nas eleições de 2009, na senda da crise financeira internacional, tornaram-se o segundo partido mais votado, à frente dos trabalhistas e dos liberais-democratas. Farage, eleito líder do UKIP três anos antes, assumiu a presidência do eurogrupo Europa da Liberdade e da Democracia, que inclui entre outros a Liga Norte de Umberto Bossi, os nacionalistas finlandeses e dinamarqueses.

Mas se uma parte dos britânicos já não via o UKIP como o partido dos “maluquinhos e dos racistas não assumidos”, na descrição do então jovem líder conservador David Cameron, o seu programa político resumia-se a pouco mais do que a saída britânica da UE. Sinal disso, recorda o Financial Times num perfil de Farage, quando o helicóptero em que ele viajava se despenhou no dia das legislativas de 2010, o acidente (o seu terceiro encontro com a morte depois de um atropelamento e de um cancro nos testículos, ainda na juventude) foi pouco mais do que uma nota de rodapé na imprensa. Tinha deixado a liderança do UKIP para se candidatar ao Parlamento, mas não conseguiu eleger-se e o partido conseguiu apenas 3% dos votos.

De regresso à liderança, Farage tomou em mãos uma mudança de estratégia, cavalgando a incerteza provocada pela crise na zona euro: ao eurocepticismo, juntou um discurso agressivo contra a imigração comunitária e a narrativa de que o modo de vida britânico está ameaçado pelos diktats de Bruxelas e por uma classe política urbana e formatada nas escolas de elite.

Um cocktail que, nas mãos do comunicativo Farage, é “dinamite política”, escreveu a Economist – em três anos o partido triplicou o número de militantes, ultrapassou por duas vezes os tories de Cameron em eleições intercalares para o Parlamento e nas municipais do ano passado conseguiu 25% dos votos nos círculos onde apresentou candidatos. “Quase por acaso, o UKIP descobriu o seu eleitorado – os trabalhadores brancos revoltados e profundamente pessimistas. Eles são os britânicos menos adaptados à globalização e os que se sentem menos representados pela classe política formada em Oxford e Cambridge”, explica a revista.

O efeito de arrasto
Para tentar travar a sangria de votos à direita, Cameron comprometeu que, caso seja reeleito, renegociará os termos da participação britânica na UE e organizará o referendo que o UKIP há muito exige, limitou os apoios sociais aos imigrantes e propôs restrições ao direito de livre circulação. O líder dos trabalhistas, Ed Miliband, viu-se na obrigação de admitir que o Governo anterior errou ao não adoptar cláusulas que teriam permitido estancar a entrada de centenas de milhares de europeus após o alargamento a Leste em 2004. E até o pró-europeu Nick Clegg, vice-primeiro-ministro e líder dos liberais-democratas, não resistiu a chamar o líder do UKIP para dois debates na televisão dos quais, dizem as sondagens, saiu perdedor.

A Farage poucas coisas parecem dar tanto gozo como ver os rostos do sistema seguir as suas passadas. “Eles estão a começar a jogar no nosso terreno”, disse ao Financial Times pouco depois de Cameron se ter comprometido com o referendo à UE. E a três semanas das europeias, com cada vez mais sondagens a prever que o partido eurocéptico será o mais votado, há um sentimento de quase euforia. “O UKIP pode provocar um sismo na política britânica, a partir do qual poderemos ganhar não um, mais muitos lugares no Parlamento”, disse quarta-feira.

Mas a popularidade acarreta um escrutínio mais apertado. Sobre Farage, a quem antigos colaboradores acusam de gerir o partido como um ditador, de ser machista, de abusar da bebibda e que, segundo notícias recentes, é tudo menos escrupuloso com os fundos que recebe do Parlamento Europeu – o Sunday Times revelou que apresentou como despesa a renda de um escritório que lhe foi emprestado por apoiantes. Mas também sobre UKIP, um partido que parece não existir para lá do seu líder e que ainda no manifesto eleitoral de 2010 propunha medidas tão essenciais como o uso de uniformes para os motoristas de táxi ou “vestuário apropriado” para os frequentadores do teatro.

Nenhuma acusação, porém, é tão incómoda como a de que, por trás dos sorrisos e dos slogans, se esconde uma agenda racista, de que os cartazes anti-imigração lançados no início da campanha são exemplo. Já esta semana, um dos candidatos do UKIP às eleições locais (que se vão realizar em simultâneo com as europeias numa parte do país) disse que um comediante negro que se lamentou da pouca representação das minorias nos ecrãs de televisão “deveria ir viver para um país negro”. Outro escreveu no Twitter que os jovens asiáticos “violam raparigas menores, esfaqueiam, assaltam idosos e matam à bomba brancos inocentes”.

Farage, que se afirma “um libertário”, indigna-se com as acusações. “Ninguém fez mais contra o Partido Nacional Britânico do que eu”, disse, lembrando que o UKIP não aceita militantes vindos da formação nacionalista, hoje reduzida a pouco mais do que zero nas sondagens. Farage recusou também o convite que lhe foi endereçado por Marine Le Pen para integrar um novo grupo parlamentar, dizendo-se desconfortável com o anti-semitismo na génese da Frente Nacional francesa. E assegura ainda que “adora tudo o que é europeu, com excepção da UE”, apresentando como prova o facto de ser casado, em segundas núpcias, com uma alemã.

Sombras a que os eleitores parecem indiferentes, num impulso que pode catapultar o UKIP para a sua primeira vitória real. Para Farage esta será apenas a primeira etapa e, mesmo que a eleição de um único deputado em Westminster seja uma hipótese remota (o sistema de maioria simples que vigora nas legislativas prejudica os pequenos partidos), é provável que se torne uma das figuras centrais das eleições de 2015, definindo agendas e alterando os cálculos dos outros partidos.