Comentário

Vítor Gaspar e a sua circunstância

Vítor Gaspar, o entrevistado, não é muito diferente de Vítor Gaspar, o ministro. É um speech act, um acto de linguagem, e é isso que liga o economista que é e o político que foi.

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O livro “Vítor Gaspar por Maria João Avillez” é lançado nesta terça-feira Nuno Ferreira Santos

Vítor Gaspar por Maria João Avillez é um livro sobre um homem e a sua circunstância – uma entrevista de vida que nos situa quanto à circunstância de quem Vítor Gaspar foi, antes de ser Vítor Gaspar, o ministro das Finanças. Mas o que procuramos neste livro é o homem para além dessa circunstância, para tentar compreender o que o torna diferente e o que fica dele após ter sido ministro das Finanças na pior altura possível.

Vítor Gaspar, o entrevistado de Maria João Avillez, não é muito diferente de Vítor Gaspar o ministro. A maneira de falar, lenta e pausada, a densidade argumentativa, a racionalização absoluta que funciona ao mesmo tempo como uma defesa e uma forma de controlo. Gaspar é um speech act, um acto de linguagem, e é isso, essa postura, que liga o economista que é e o político que foi.

E Gaspar, o entrevistado, é um pouco o espelho de Gaspar, o ministro. A um não se lhe arranca uma palavra a mais, tal como ao outro não se arrancava um cêntimo. Gaspar, o ministro, apresenta-se no livro como aquele que tinha por missão aplicar à risca o memorando da troika. Como se fosse um ser desprovido de ideias próprias que no Terreiro do Paço prolongaria a postura do funcionário zeloso que fora em Frankfurt e em Bruxelas. Naturalmente, o livro quer dizer-nos outra coisa. Na longa revisitação ao seu pouco conhecido passado de negociador europeu, nos anos de Maastricht, Gaspar explana longamente o seu pensamento económico sobre a Europa e sobre o país.

Mas afinal quem é aqui Gaspar, o político? Falamos de um homem de uma geração que vê a revolução de 1974 acontecer mas que nunca se deixará seduzir pela política. Escolhe a vida académica e é sempre com sobranceria académica que percorrerá os corredores do poder. Define-se como “um espectador da política”. Um tipo da geração que viveu Abril mas era demasiado jovem para se deixar cativar pela militância. Sinal particular: foi uma vez à Festa do Avante!, ouvir Chico Buarque cantar.

De Ernâni Lopes a Sousa Franco, todos os grandes ministros das Finanças portugueses foram homens que tinham o poder (e o apoio de um primeiro-ministro) para dizer não às fantasias que crescem como cerejas na cabeça de quem vive à volta da mesa do orçamento. Se é esse o primeiro critério para definir um ministro das Finanças, Gaspar foi exemplar nessa resiliência.

Fala da política como um fenómeno impossível de domesticar, mas do qual a teoria económica, racional e precisa, não pode alhear-se. Gaspar, o economista, é um pouco um economista imaterial; responde como um filósofo racionalista, sem impulsos e procurando argumentações racionais perfeitas e irrefutáveis. Do alto desse edifício, seguro por convicções inabaláveis, o que mais teme é o imprevisível. Como um kantiano, sabe que pensar implica saber onde estão os limites do conhecimento. O que receia é o que está para lá dessa fronteira. O imprevisível era, por exemplo, como impedir o Estado de gastar dinheiro caoticamente. Eram os números do desemprego que desafiavam a lógica do modelo do ajustamento – e seria o desajustamento dos números que invocaria como razão para sair.

E imprevisível era também a política que no discurso de Gaspar é um pouco como a boa e a má moeda de um célebre artigo de Cavaco Silva. Não, Gaspar não despreza a política. A Europa é uma construção política, a liderança política de um primeiro-ministro, Passos Coelho, foi decisiva para enfrentar o ajustamento. E depois, claro, há o político paradigmático, que se move por interesses de curto prazo e que pode ser analisado como se fosse uma espécie biológica específica. Esse político paradigmático é Paulo Portas, a Némesis de Vítor Gaspar.

Portas irrevogavelmente ficou, Gaspar irrevogavelmente saiu. Mas se há algo que Gaspar quer deixar irrevogavelmente impresso na mente do leitor (sem nunca o dizer) é que ele ganhou e Portas perdeu. Porque Maria Luís Albuquerque ficou e as políticas que ele defendeu continuaram e as políticas que o Portas que ficou no Governo queria não vingaram. O título de vice-primeiro-ministro é uma vitória de Pirro, o caso de um homem despojado do seu poder e a quem foi entregue um espelho e um palácio onde ele, paradoxalmente, aparece investido de grande poder.

E o que fica finalmente para a posteridade de Gaspar, o que fica dele para além da sua circunstância, na circunstância futura? Agora que o ar do tempo mudou, parece que queremos esquecer o homem das más notícias porque ele marcou de mais os anos mais negros do ajustamento. Com os seus modos e o seu desassombro, Gaspar foi durante dois anos um mito da política portuguesa. Mas é como se esse mito morasse no passado e este livro que o constrói esbarrasse nessa evidência de que aquele foi um tempo que passou. Há circunstâncias que não se repetem e apesar de tudo estamos ainda demasiado próximos desta para a compreendermos de facto. Há neste livro sobretudo um relato de um combate que ficará na história, nas palavras de um dos seus principais protagonistas, mas sobre o qual tudo está longe de estar dito.