Um deus popular

Em 1966, e pela primeira vez na vida dos portugueses, os feitos da selecção nacional chegavam via televisão e Eusébio seria coroado “Rei". Foi o primeiro português da aldeia global. Por António Pedro Vasconcelos.

Para Salazar, era um desporto perigoso e o Benfica, clube popular, uma ameaça — o hino, por se chamar Avante, chegou a estar proibido, assim como que a equipa fosse conhecida por “os vermelhos”. Mas para o Regime poderia também significar uma oportunidade a não desprezar. Sobretudo porque em 1966, e pela primeira vez na vida dos portugueses, os feitos da selecção nacional na Taça do Mundo em Inglaterra lhes chegavam via pequeno ecrã e Eusébio seria coroado “Rei”, algo que lisonjeava o país e o projectava muito além da nação mais atrasada da Europa. O miúdo pobre de Lourenço Marques transformava-se num ícone mundial, no primeiro português da aldeia global.

“Aqueles que por obras valorosas
se vão da lei da morte libertando” </br>Camões

Não há nenhum português que não se lembre da cena em que António Silva, o Anastácio de O Leão da Estrela, relatava a Filipinho (interpretado por Óscar Acúrcio) a forma como antevia o jogo entre o seu clube, o Sporting, e o Futebol Clube do Porto. Anastácio, um típico exemplar da classe média, tinha esgotado todos os estratagemas para conseguir um bilhete e uma boleia para ir ao Porto ver o jogo com o clube da Invicta.

Sentado ao lado de Filipinho, no sofá da sua sala-de-estar, um Anastácio excitado com a perspectiva do jogo, levanta-se e, enquanto se movimenta pela sala, vai relatando uma jogada imaginária, mas típica da forma de jogar dos “5 violinos”. “Já os estou a ver!”, diz ele, a bola, é lançada por Canário para Travassos, passa sucessivamente por Vasques, Albano e Jesus Correia, que centra para Peyroteo, para acabar no fundo da baliza de Barrigana! No entusiasmo do golo, António Silva dá um pontapé na mesa, virando-a e deitando ao chão o cinzeiro e os bibelôs que decoravam aquele cenário pequeno-burguês.

O filme, assinado por Arthur Duarte, é de 1947, e aproveitava habilmente o enorme êxito do Sporting naquela altura, servido como estava por um fantástico quinteto atacante, que Tavares da Silva, o grande jornalista e seleccionador Nacional, baptizara de “Os 5 Violinos”!

E quando, graças aos seus proverbiais truques, mentiras e artimanhas, consegue finalmente garantir a viagem ao Porto e o lugar no estádio, António Silva (na pele de Anastácio), assiste a um jogo emocionante, que se salda por um empate (um resultado estratégico, que não ofendia nenhum dos clubes, para não perder espectadores), mas do qual, no filme, apenas se vêm escassas imagens “ao vivo”, e, mesmo essas, intercaladas com a reacção do público. Os golos, da autoria de Peyroteo e de Araújo, os dois maiores marcadores e os maiores ídolos dos adeptos de ambos os clubes, ou porque não aconteceram no jogo ou porque não conseguiram ser filmados, nem sequer nos são mostrados: vemos apenas a bola a entrar na baliza, numa montagem habilidosa, mas demasiado óbvia. O filme mostra-nos ainda Pedro Moutinho a relatar o jogo, uma imagem recorrente durante a cena do estádio, que serve também para escamotear as jogadas que não vemos.

A “comédia à portuguesa” é o espelho do que foi Portugal durante o salazarismo, e este filme, como os outros de Arthur Duarte, e como antes as comédias de Cottinelli Telmo e as dos irmãos Ribeiro, serve para percebermos o que era o país daquele tempo. Os jogos de futebol (um desporto grosseiro, execrado pelo Regime, que via nele um desprezível e perigoso espectáculo de massas e uma ofensa àquilo que se devia cultivar: a “educação física”), viviam apenas do relato ao vivo, através da rádio, que entretanto se tornara popular, como se vê noutro filme de Arthur Duarte, O Costa do Castelo, quando António Silva, sempre ele, quatro anos mais cedo, oferecera uma telefonia a Luisinha, uma novidade que deixa a família dos senhorios positivamente de boca aberta.

A caixa que mudou o futebol

Era preciso esperar mais treze anos depois deste filme, para a televisão substituir a rádio e se impor a pouco e pouco em todos os lares, e é preciso esperar uns bons anos mais para termos os jogos de futebol regularmente na televisão.

É por essa altura, no início dos anos ’60, que surge Eusébio e a equipa de sonho do Benfica, que veio destronar a hegemonia do Sporting e d’ “Os 5 violinos”, que começara a declinar desde que Peyroteo, desiludido, decide retirar-se em 1949, aos 31 anos. Peyroteo foi o que se chama “uma lenda viva”, com uma média de golos marcados ao longa da carreira (1,6 por jogo, o que constitui, ainda hoje, um record mundial), mas não existe um único golo seu filmado, e a única jogada que nos faz imaginar o que este “avançado-centro” foi como jogador (para os que nunca o viram jogar) é um lance de poucos segundos, em que ele aguenta a carga de um adversário e, já na grande-área, passa a bola para trás (aparentemente para Albano), mas a imagem acaba aí.

A reputação dos grandes jogadores, para além da linguagem fria dos números, vivia então da memória dos happy few, dos que tinham estado no campo de batalha, como os companheiros de Henrique V, em Agincourt, e assistido ao vivo aos jogos que faziam deles ídolos da imaginação popular. Como no boxe ou na ópera, no atletismo ou na tourada, antes da televisão e, sobretudo, antes do directo, o registo das performances dos ídolos ficava reservado a esses privilegiados que tinham assistido, ao vivo, ao espectáculo, e que, depois, com maior ou menor justeza ou imaginação, conseguiam transmitir e ampliar o fascínio que aqueles momentos históricos representavam - em relatos muito semelhantes ao da jogada imaginada por Anastácio n’ O Leão da Estrela.

Eusébio, que foi coroado “Rei” aos olhos do mundo, na World Cup de 66, em Inglaterra, é o primeiro grande jogador português da era da televisão global; nesse ano, os portugueses puderam ver em directo, pela primeira vez nas suas vidas, os feitos da Selecção Nacional; puderam sofrer com os jogos e vibrar com as exibições e as vitórias da “equipa das Quinas”, admirar os seus “heróis”, e, numa época de opressão, de guerra, de emigração e de miséria, resgatar assim a desonra e a humilhação de sermos a nação mais atrasada da Europa.

O Mundial de ‘66 foi o primeiro Campeonato do Mundo transmitido em directo para a Europa - os brasileiros só teriam esse privilégio na próxima Copa do Mundo, que iriam ganhar, quatro anos depois, no México. A preto-e-branco, sem dispor ainda de tudo o que rodeia hoje as transmissões de futebol (cor, ecrã 16/9, mais próximo das proporções do relvado, HD, que favorece a ilusão de realidade, repetições, ralentis, estatísticas, mais de 30 câmaras, linhas que permitem fiscalizar os erros dos árbitros, etc), a equipa de Eusébio, na Selecção Nacional e no Benfica, é a primeira equipa portuguesa a ter uma projecção universal através da televisão - essa caixa que veio alterar em tudo a percepção do futebol, aumentar a sua popularidade, movimentar milhões e permitir conhecer de perto os “deuses do estádio”.

Dos ícones indiscutíveis do futebol – Di Stefano, Puskas, Pélé, Eusébio, Maradona, o que deixa de fora génios como Mazzola, Garrincha, Koksis, Kubala, Kopa, Best, Cruyf, Plattini, Bettega, Gullyt, Zidane e tantos outros – só Maradona, 20 anos mais novo que Eusébio, e 30 do que Pélé, tem a sua carreira totalmente coberta pela televisão, sendo Pélé e Eusébio os jogadores da transição, com muitos jogos filmados, mas só metade da carreira coberta em directo pelo pequeno ecrã. Mas, mesmo assim, muitos dos golos e das jogadas de Di Stefano e de Puskas, ao contrário do que aconteceu com Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano, estão documentadas em filme - e ajudam-nos a perceber a razão da sua idolatria.

A Idade da Inocência

Que concluir daqui? Que a televisão – e o vídeo, sobretudo depois da revolução digital - mudou o mundo do futebol, deu-lhe uma dimensão planetária, alterou o estatuto dos jogadores e o escrutínio do seu desempenho - para não falar da revolução nos métodos de treino e na possibilidade de analisar ao detalhe os modelos de jogo das equipas adversárias.

Mas, por ter sido uma novidade que ele não conhecia e muito menos dominava, e porque desconhecia o seu impacto, a relação de Eusébio com as câmaras era uma relação inocente. Maradona, além de um genial jogador, era exímio em gerir a relação com as câmaras (e basta lembrar a última imagem com que ele sai do Mundial dos Estados Unidos, e, com isso, da História do futebol, em que, depois de marcar o terceiro golo da sua equipa à Grécia, corre para a câmara mais próxima e grita em Grande Plano a sua révanche efémera contra Havelange e os que o queriam destruir). Mas, ao contrário do génio argentino, Eusébio, esse - que, em ’66, também foi captado pelas câmaras, que ajudaram o mundo a descobrir o seu génio –, nunca teve consciência disso. O seu jogo, o seu estilo, os seus gestos, não foram condicionados pela percepção de que estava a ser filmado, não foram gestos para o ecrã. Quando foi buscar a bola ao fundo das redes para a repor rapidamente no centro do terreno, depois de ter marcado o primeiro dos quatro golos seguidos que iria marcar à Coreia do Norte, quando cumprimenta o guarda-redes adversário depois de uma defesa que lhe tira um golo dos pés, ou quando chora agarrado à camisola de Portugal, gestos que o qualificaram como desportista exemplar, Eusébio não se deu conta, em nenhum momento, que estava a ser filmado. É esse gosto quase infantil pelo jogo, o prazer simples de jogar à bola e de ganhar, essa pureza, que se confunde com a inocência, que as câmaras captaram e que hoje se perdeu - a inocência que também tinham Di Stefano, Puskas ou Georges Best, mas que, em Eusébio, revelava, além de um ser humano excepcional, um novo estilo de jogador.

Quando vemos hoje as imagens das jogadas e dos golos de Di Stefano ou de Puskas, de Garrincha ou de Best, é o génio do drible, do oportunismo, da leitura do jogo, do controlo da bola, do remate colocado, que nos encantam e extasiam. Mas, mesmo se eram rápidos a pensar e executar, eles eram génios de um futebol mais lento e habilidoso, com defesas mais permissivas, um futebol moldado à imagem do temperamento sul-americano - e não é por acaso que, entre os cinco deuses do futebol moderno, estão dois argentinos e um brasileiro.

A novidade de Eusébio, pelo contrário, era o poder de arranque, a mudança brusca de velocidade, a finta em corrida, o remate forte e colocado, com o corpo todo lançado para frente, como uma “pantera negra”! Ele era, para os adversários, o perigo à solta!

Foi essa descoberta que encantou os portugueses, mas também a revelação de que Eusébio e os seus colegas tinham sido vistos e admirados pelo mundo inteiro, em directo ou em diferido, e que isso projectava de Portugal uma versão lisonjeira que nos engrandecia e nos resgatava da imagem de um país miserável, atrasado e oprimido, ao arrepio das democracias europeias do pós-guerra.

“A Aldeia Global”

Essa projecção que o Mundial de Inglaterra lhe dá, depois da vitória em Amsterdão e da Bola de Ouro da famosa revista France-Footbal, em ’65, é uma novidade, e ilustra o início da Idade dos Media - aquilo que MacLuhan anteviu como sendo a futura “aldeia global”. De um momento para o outro, o miúdo pobre de Lourenço Marques transforma-se num ícone mundial, a sua imagem projecta-se, da aldeia de Mafalala para o planeta Terra!

Para o regime, que sempre olhara o futebol com desprezo e depois com desconfiança, e que via num clube popular, como era o Benfica, uma ameaça para o regime, (depois de ter proibido o Hino, por se chamar Avante, e que a equipa fosse apelidada de “os vermelhos”, Coluna chegou a ser chamado à PIDE, por suspeita de relações com a FRELIMO), esta projecção internacional do futebol e, para mais, de um negro, era vista como um perigo de aproveitamento político por parte dos movimentos de libertação – mas, ao mesmo tempo, como uma oportunidade. Apesar da retórica, para o regime, os negros eram seres inferiores que precisavam de ser colonizados. Ora, o que o público via era que, no campo, Eusébio, como o gigante Coluna, era igual aos seus colegas brancos, igual a Germano, a José Augusto ou a Simões, os outros super-dotados que o “Pantera Negra” ofuscou – mas que, além disso, era melhor do que todos eles! Um negro tornara-se um deus das multidões, um herói da Nação, um exemplo de excelência.

Depois de ter assistido com apreensão às manifestações populares no aeroporto à chegada dos Campeões Europeus, os próceres do regime, que rodeavam o ditador, descobriram que podiam, pelo contrário, tirar partido do sucesso da Selecção: “Vejam como somos um país multirracial, que não discrimina os negros, que os integra e que aplaude os seus feitos!” – terão pensado. Num tempo em que a PIDE e a Censura impunham o silêncio à Oposição, Eusébio foi mesmo obrigado a cumprir o “Serviço Militar”, como um simples mortal, mas – hipocrisia suprema – para evitar que fosse chamado para a Guerra, foi criada – só para ele! – a especialidade militar de “condutor hipomóvel”, ou seja, condutor de carroças – coisa que não existia no teatro de guerra, o que permitiu que não fosse mobilizado para África e tivesse ficado a cumprir serviço militar na Região Militar de Lisboa.

Hoje, na era da comunicação global, que atrai para o futebol somas astronómicas, os jogadores com talento (e Eusébio tinha mais do que isso), são milionários, que fazem sonhar os jovens dos subúrbios de todas as grandes metrópoles do planeta. E, tal como as vedetas de cinema que, antes da televisão, eram stars que brilhavam num céu inacessível, afastadas do contacto com os mortais e protegidas da intrusão dos media, mas que hoje se exibem para os paparazzi, os jogadores da era da televisão têm que fazer inveja pelos carros e pelas top-models que coleccionam, pela exibição de villas de sonho ou de ilhas privadas, onde vivem acima das necessidades mesquinhas do cidadão comum.

Eusébio, o primeiro jogador português a beneficiar do estatuto de vedeta da “aldeia global”, não alterou o seu comportamento - nem a sua forma de jogar, nem o seu modo de ser. Modesto, impossibilitado pelo regime de sair para um clube estrangeiro, onde podia ter feito fortuna, ficou como era: ligado a um clube popular, que o ajudou a ser homem, onde conheceu o sucesso como jogador e onde continuou a ser admirado e idolatrado durante os anos que viveu fora dos estádios, manteve-se pobre, simples e modesto, um exemplo de desportivismo - tudo o que havia sido enquanto jogador: um deus popular, um rei plebeu, sem vaidade nem ostentação.