Opinião

Deste lado não há salvação

Pelo novo filme de Joaquim Sapinho passa uma energia plástica, visual, que vem de longe e que gerações e gerações de artistas “espirituais” - de Piero de la Francesca a Tarkovsky, de Ticiano a António Reis - vêm retomando

O filme não é deste tempo mas é deste mundo, de um mundo actual habitado por uma família órfã de pai e em desagregação, por um surfista, por adolescentes do secundário com os seus amores arrebatados e zangas e ciúmes, por ondas e pelo vento sibilante do Guincho. E o filme também não é deste mundo, como não eram deste mundo os filmes de Tarkovsky ou de António Reis, a pintura de La Tour ou de Rothko - dos quais, aliás, este filme é herdeiro directo. Deste Lado da Ressurreição, de Joaquim Sapinho, exige que nos desloquemos para um outro tempo onde se possa suspender a velocidade dos acontecimentos, onde nos possamos concentrar; é um filme sobre a meditação e que apela à meditação, à coragem de olhar o improvável e o que é de difícil visibilidade.

No início, ouvem-se pancadas sobre metais, a que se seguem imagens da iconografia católica do convento; depois, ouve-se o sino que chama para a oração diária ou para os trabalhos dos monges. Não tenhamos dúvidas de que este é um filme sobre a religiosidade, o seu mistério, os seus obstáculos, as expectativas que a mesma cria em quem se abeira do misterioso fenómeno da fé (e a meio do filme lá estará, a confirmá-lo, a Bíblia numa das prateleiras da rulote). As pancadas iniciais abrem o túmulo para darem início à ressurreição e, com ela, e na tradição bíblica, à possibilidade de os homens se salvarem. Veremos, contudo, que "deste lado da ressurreição" a salvação não é evidente, muito menos é segura.

Rafael, que tem o nome de um dos quatro arcanjos, toma a decisão - conforme ao seu atributo particular de arcanjo de Deus - de se curar a si mesmo em primeiro lugar e, depois, de curar a família e, porventura, a humanidade (missão que, ver-se-á, está condenada ao insucesso). Renunciando ao surf e à sua glória de possível campeão, inicia os votos monásticos num processo que é de auto-punição, sacrifício, auto-flagelação - exercícios que espantam, até, os seus próprios irmãos monges daquela comunidade e que o fazem enveredar por um sofrimento em tudo contrário à salvação do homem e à felicidade. Como é possível que o horror da auto-flagelação seja um modo de salvação? - eis uma das perguntas que este filme coloca.

Rafael, que aqui também pode ser Cristo ou S. João Baptista, e a mãe de Rafael (que também pode ser a mãe de Cristo, Madalena ou Isabel, mãe de S. João Baptista) constituem parte da complexidade fascinante desta obra, na medida em que esta é uma interpretação ousada do dogma da Trindade, parte fundamental do catolicismo. Ao dizer que cada um é múltiplo, o realizador faz a passagem deste mistério para o mundo de hoje em que cada um é uma multiplicidade de identidades, muitas delas em conflito, como sucede a todas estas personagens.

Outra das enormes complexidades desta obra está na evocação de artistas - digamos, por economia de termos - espirituais. Piero de la Francesca nos grandes planos dos rostos e na composição das cenas no interior das casas; o jarro com açucenas da pintura medieval; Georges de La Tour nos ambientes sombrios, no recurso às velas na iluminação das cenas; Ticiano na reinterpretação dos mitos clássicos; Tarkovsky na religiosidade; António Reis na durée dos planos, na simplicidade dos meios; Rothko na composição das cores trágicas e no ambiente de mistério de todo o filme; e muita literatura, de certeza, inominável mas metamorfoseada em som, nesse som que é um rumor permanente, como um outro personagem vigilante dentro do próprio filme. A forma subtil como as obras destes autores são evocadas constitui muito mais do que uma mera citação culta: essa evocação é o testemunho autoral de que o filme, o autor e nós, espectadores, vimos de algum lado, de um lado talvez impreciso, talvez obscuro, de certeza pleno de mistério que é não uma arca de cultura mas uma energia em forma plástica, visual, que vem de longe e que continua, ou não, por decisão do realizador.

A energia potencial, criadora, ancestral é a mensagem de fundo do filme, seja ela a da força das ondas e do mar em planos inesquecíveis, a da determinação de Rafael, ou, muito em particular, a da beleza do próprio Rafael. Se se exalta um lado da beleza, ele é, sem dúvida, o da beleza masculina - e não só a do Rafael, mas a de todos os heróis clássicos esculpidos por Miguel Ângelo, Bernini ou Borromini, evocados nas múltiplas imagens do corpo do surfista.

Esta energia ancestral que vem do princípio das águas está também presente na natureza que, aqui, é labiríntica, cheia de penumbra, às vezes assustadora. Uma natureza ameaçadora para quem nela ousar abrigar-se.

Deste lado da Ressurreição anuncia-se como um filme trágico desde o início: primeiro naquela caixa vermelha dos bombeiros na parede da escola, depois no momento em que João despe o casaco e fica com uma t-shirt vermelha encandeante, vermelho que inicia uma hemorragia que se prolongará na lambreta de Inês, irmã de Rafael, no casaco da mãe, no fato do professor surfista, até acabar por encher o ecrã com uma parede completamente vermelha que dói olhar de frente.

"Só te tenho a ti, Senhor", diz, em determinado momento, Rafael. É a expressão de uma solidão total. No fim, quando batem à porta, ninguém estará lá para a abrir, e uma parede vermelha de sangue é tudo o que temos à nossa frente, tudo o que nos resta contemplar. Resta-nos a beleza como única salvação? Porque outra não há para quem fica deste lado da ressurreição.

 

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