Braga acolhe um caleidoscópio de religiões até amanhã

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As casas são todas iguais, mas é no seu interior que estão as diferenças: do grande crucifixo aos ícones ortodoxos Fotos:

Iniciativa da Capital Europeia da Juventude reúne 32 confissões numa aldeia para promover o diálogo inter-religioso. É a segunda vez que se faz uma experiência destas, a primeira foi no Brasil em 1992

Quando não há uma oração comum, a melhor linguagem é a do silêncio. Antes de os balões brancos serem lançados ao céu, os representantes de mais de três dezenas de confissões religiosas mantiveram-se calados durante um minuto. Permaneceram assim, lado a lado, em frente às 11 casas que compõem a Aldeia das Religiões, durante a cerimónia de abertura da iniciativa que aconteceu na quinta-feira. Até amanhã, estarão em Braga a participar numa iniciativa rara de diálogo inter-religioso.

Num terreno agrícola da aldeia de Priscos, a poucos quilómetros da cidade bracarense, as casas prefabricadas estão alinhadas em duas filas. São amarelas e contrastam com o verde da paisagem minhota. As casas são todas iguais, mas é no seu interior que estão as principais diferenças: do grande crucifixo que domina o espaço da Igreja Católica Romana aos ícones ortodoxos pendurados na parede.

Os quatro dias de contacto entre representantes de diversas religiões pretendem criar "uma trajectória alternativa ao fundamentalismo e às chamadas guerras santas", explica João Torres, pároco de Priscos e um dos grandes impulsionadores do encontro. "Esperamos poder construir uma plataforma de paz e entendimento", antecipa.

Para a Aldeia das Religiões foram convidadas todas as confissões religiosas reconhecidas em Portugal, mas João Torres reconhece a dificuldade em "explicar a cada um qual era o objectivo de juntar todas as confissões religiosas no mesmo espaço". Um ano e meio e "centenas de telefonemas" depois, Priscos reúne, até domingo, representantes de 32 confissões. Desde dois dos grandes monoteísmos, a Igreja Católica Romana e a Comunidade Islâmica, à multiplicidade de cultos cristãos, mas também religiões minoritárias. É o caso da Comunidade Portuguesa de Candomblé Yorúbá, que tem cerca de 600 a 1000 seguidores no país, sobretudo na zona da Grande Lisboa.

Diálogo pela diferença

A fé nascida no Brasil a partir das tradições dos escravos africanos levados para a América durante a colonização chegou a Portugal nos anos 80 do século passado, explica João Ferreira Dias, um jovem crente, que enverga uma túnica verde. É filho de uma sacerdotisa. "O diálogo inter-religioso constrói-se acima de tudo pela diferença, não pela igualdade. Não podemos pensar as religiões como todas iguais, porque nem todas falam de Deus, por exemplo", defende. Espera, por isso, que a Aldeia das Religiões seja de "diálogo na diferença" e não de tolerância. "Esse conceito pressupõe uma superioridade", explica.

As dificuldades em conciliar discursos encontram-se rapidamente. "O que importa não é colocar o cunho sobre as diferenças entre as religiões, mas sim sobre os valores comuns aos quais a sociedade tem vindo a soçobrar", discorda, pouco depois, o arcebispo Teodoro. O crucifixo ornamentado que leva ao peito e a cabeça coberta por uma "skufia" bordeaux mostram-nos que estamos perante o representante máximo da Igreja Católica Ortodoxa de Portugal. Uma visão semelhante tem Domingos Oliveira, que preside à Comissão Ecuménica do Porto. Para este padre católico, na Aldeia das Religiões é preciso "distinguir o que é diálogo religioso e o que é ecumenismo". A instituição que dirige - a que pertencem sete confissões cristãs - tem vindo a privilegiar o trabalho "pela unidade das várias igrejas".

A Aldeia das Religiões é uma iniciativa da Capital Europeia da Juventude com o objectivo de "dar oportunidade de os jovens perceberem o que representa cada uma das confissões, podendo contactar directamente com elas", explica Hugo Pires, que lidera a organização do evento europeu que Braga recebe este ano.

Quem por ali passar pode conhecer as diferenças e semelhanças entre as várias confissões, passando pelas casas atribuídas a cada líder religioso. Mas há também uma tenda de encontro, onde cada fé poderá falar da sua matriz ou lançar propostas.

Esta é a segunda vez que um encontro deste tipo se realiza. A primeira experiência aconteceu no Brasil em 1992, mas apenas por uma noite. Em Braga, até amanhã, a aldeia recebe os visitantes entre as 10 e as 22 horas.

Outra das particularidades desta Aldeia das Religiões tem a ver com o espaço em que serão servidas as refeições. Numa segunda tenda existente no espaço do encontro inter-religioso foi instalado um refeitório comum. A ementa teve em conta as particularidades das opções alimentares de cada culto. Por isso, não há carne de porco nem de vaca na ementa. E a base dos almoços e jantares ali servidos será sempre vegetariana, ainda que haja sempre uma opção de carne ou peixe.

"É a primeira vez" que líderes religiosos se podem "sentar à mesma mesa" e "comer a mesma comida", valoriza João Torres. Satisfeito com a solução, espera que, também pela boca, se cumpra o objectivo da iniciativa: "Deixamos de ser estrangeiros e vamo-nos tornando irmãos".