As forças com que se constrói o espaço

António Bolota (n. Angola, 1962) é um escultor a quem são convenientes palavras como grande escala, monumentalidade, peso e leveza. Também se pode dizer que a maneira como “trabalha” o espaço é não só uma forma de o interromper, prolongar ou perturbar, mas de mostrar como a espacialidade está em permanente processo de definição e percepção. Ocupar o espaço é lidar com matéria viva, é ter em conta o corpo humano e saber que todas as construções são sempre provisórias e estão sempre a ser reconstruídas. Por isso, as suas esculturas não são construções, nem complexificações, nem conceptualizações materializadas, mas são uma espécie de ressonância onde se fazem sentir os ecos dos movimentos do corpo quando ocupa e se desloca pelo espaço.

As suas esculturas inserem-se na história recente da escultura através da qual se foi perdendo a relação de necessidade entre o gesto escultórico e a figura, a história e o monumento. A escultura moderna e contemporânea já não tem obrigações de representar fielmente a história, os seus heróis ou honrar os mortos, já não existe num lugar específico deslocado, distante da vida quotidiana, mas exerce-se num qualquer lugar, dentro e fora das galerias expositivas, dentro e fora do contexto urbano e prolongando ou rasgando a arquitectura. É neste contexto que se insere Bolota.

O seu trabalho é, sobretudo, acerca das forças com que se constrói o espaço, sobre o modo como uma superfície aparentemente simples se revela como uma estrutura tecnicamente complexa em que estão em acção um conjunto impressionantes de elementos e de tensões contrárias e antagonistas. E é este é o horizonte onde este artista se inscreve sem recurso a metáforas ou à utilização de títulos mais ou menos sugestivos como forma de aumentar o campo do sentido das suas operações estéticas e materiais.

A simplicidade formal - tão extraordinária nesta exposição: duas esferas metálicas polidas, uma encastrada no chão, a outra pousada a suportar uma laje de betão com muitas toneladas - é aqui um paradoxo: mostra como a simplicidade é o mais difícil e que é uma conquista e resulta de um esforço. Não se trata famoso less is more do minimalismo (ainda que sofra a sua influência), mas de uma espécie de investigação acerca da complexidade de todas as formas, de todos os gestos, de todas as palavras. E a complexidade não é o nome de um artifício, mas descreve a singularidade de cada forma. Este é o “assunto” de Bolota. Seria fácil encaixá-lo no grupo dos artistas com preferência pelas estruturas, com um gosto especial em explorar mecanismos pedidos emprestados às engenharias e à arquitectura e com uma linguagem retirada à engenharia do betão armado, mas a sua pesquisa exerce-se no domínio da forma e explora intensamente o facto de qualquer forma ser necessariamente uma existência material no espaço. Por isso, não há arqueologia das suas peças, não há esquissos: só há experiências, acções, construções, equilíbrios. E é também por isso que o seu trabalho não é formalista. Trata-se de enfrentar e lidar com o problema das existências materiais no espaço e da existência do próprio espaço, sem recorrer a malabarismos conceptuais, mas usando a densidade e inteligência da própria matéria.

É uma exposição arriscada porque não só retoma o diálogo que o minimalismo estabeleceu com a história da escultura, mas também porque faz depender o seu sucesso de um equilíbrio precário. A sua extrema contenção é o que permite a estas obras não se transformarem em sofisticadas operações retóricas e formais, mas em constituírem gestos reais, humanos, inteligentes. A sua precaridade (dada através da instabilidade da suspensão da grande laje em betão e da impossibilidade em fixar os reflexos espelhados nas esferas ) não diz respeito à solidez da construção, nem ao carácter aparentemente inamovível das “coisas” que pela mão de Bolota agora ocupam a galeria, mas é o nome da continua e incessante procura de equilíbrios, simetrias e conjugações. Um permanente movimento de definição que, à maneira de Goethe, parece querer dizer que todas as formas são formações, isto é, elementos em processo continuo de construção e destruição e, por isso, a forma (como os reflexos e as sombras) é uma fixação sempre provisória da matéria.