Queimar o país?

Foto

1. Contaram-me que o padre Victor Melícias, quando estava ligado aos Bombeiros, perante um incêndio enorme, terá insistido numa linha de intervenção que indignou o responsável pelo comando das operações: "Cale-se, padre Melícias! O senhor pode entender muito de fogo do Inferno, mas deste não percebe nada!"

Menos sei eu, mas não estou obrigado a calar-me, quando o país está a ser todo queimado e os sacrifícios dos bombeiros só conseguem que ainda fique alguma coisa para arder no ano seguinte! É estranho que este crime, esta destruição de recursos essenciais para o presente e para o futuro, não signifique nada, absolutamente nada, no debate político actual. Nenhum compromisso com a troika nos pode obrigar a entregar o país ao abandono e às chamas. Pode-se dizer que, se tenho obrigação de saber alguma coisa de missas e religiões, estou dispensado de tocar num assunto que exige formação específica e informações rigorosas, analisadas num quadro pluridisciplinar. É verdade que não sou engenheiro florestal, nem teórico do desenvolvimento sustentável.

Acontece, porém, que é a participação na Eucaristia que obriga os católicos a não passar ao lado das questões ecológicas e sociais. É o próprio Ofertório da missa que implica o casamento do Céu e da Terra: "Bendito sejais, Senhor, Deus do Universo, pelo pão e pelo vinho que recebemos da vossa bondade, frutos da terra e do trabalho humano que hoje Vos apresentamos e que para nós se vão tornar pão da vida e vinho da salvação."

Se trairmos esta aliança do divino e do humano na relação com a natureza, comemos e bebemos a nossa condenação na Eucaristia. É nela e por ela que dizemos o sentido do cosmo, da história humana e da vida espiritual de cada participante. Sem integrar a promoção do bem comum das comunidades locais e o cuidado pelo presente e futuro da terra, casa de todos, a missa renega o Cristo cósmico.

O cristão não pode aceitar que, em nome de modelos económicos discutíveis, se apresentem crimes contra a humanidade e seu habitat, como o preço inevitável a pagar por um "progresso" mal concebido.

2. Segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a área ardida, 73.055 hectares, aumentou 81% face a 2011. Estas, por desgraça, não foram as últimas contas da temporada. Os incêndios não se desenvolvem na clandestinidade. As televisões têm nos fogos uma fonte de imagens, de beleza e de horror, cuja transmissão não tem só efeitos positivos. Se as vítimas humanas e as habitações causam arrepios, não se pode esquecer que um país é uma herança, um presente e um legado devido às gerações futuras. Um incêndio agride o país na sua totalidade. As florestas, a biodiversidade, o meio ambiente são um bem comum. Leonardo Boff tinha escrito, em 2001, uma obra que teve muitas edições chamada Saber Cuidar. Este ano surgiu com outra, O Cuidado Necessário. Cuidado a ter na vida, na saúde, na educação, na ecologia, na ética e na espiritualidade. É fácil encontrar na Internet a reflexão e as propostas deste teólogo e filósofo ecologista.

Durante um certo tempo, os incêndios eram atribuídos à ganância dos madeireiros e a certos projectos industriais de matas de crescimento rápido; falou-se também dos interesses colossais ligados às empresas dos meios de ataque aos fogos; sublinhou-se, por fim, a incúria dos proprietários dos terrenos com a sua limpeza; todos os anos é sussurrada a convicção de criminosos de fogo posto. Conhece-se a sorte dos ladrões de tabletes nos supermercados, mas sobre os incendiários reina o silêncio. Resultado: grandes faixas do país tornaram-se um deserto humano. A emigração para o estrangeiro e para o litoral, devido ao abandono e à pobreza de uma agricultura de má subsistência, tornaram o interior desinteressante, salvo para algum turismo e para quem tem dinheiro para o sustentar.

3. A Igreja Católica, apesar do envelhecimento do clero e da persistente crise do modelo para os ministérios ordenados, mantém uma presença institucional efectiva em todo o território. Até à década de 70 do século passado, a reprodução do catolicismo, no âmbito rural, fazia-se automaticamente, embora de forma diferenciada de norte a sul do país. Já não é assim. Quando se fala de Nova Evangelização, toca-se numa urgência. Mas quem sabe o que isso possa significar e como a fazer? Quanto ao espaço rural, o interior do país, o clero não precisa de se preocupar muito com o cabeção eclesiástico, mas nada o pode dispensar de uma intensa preparação para a prática efectiva da inculturação litúrgica e teológica. Ao falar de inculturação, não me estou só a referir àquilo que já corre em todos os manuais de Pastoral. Aponto para uma reelaboração situada nas comunidades locais e nas suas possibilidades. Ao se responsabilizarem pelo cuidado com o meio ambiente, estão a responsabilizar os políticos locais e nacionais. Não se pode continuar apenas a apagar fogos. Quem estará a impedir uma política de prevenção e de reorganização do território e das suas florestas? Há quem diga que a atracção pelo lucro rápido - eucaliptos e família - esgota a terra fértil e promove o pasto de novos incêndios.