Casa de Chá da Boa Nova está ao abandono, vandalizada, e já é "uma vergonha mundial"

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Presidente da Câmara de Matosinhos diz que autarquia vai contrair um empréstimo para fazer as obras PAULO PIMENTA

Eleitos nas listas de Narciso Miranda visitaram edifício desenhado por Álvaro Siza e denunciaram a situação deste monumento nacional

Lista breve de coisas que podem ser vistas quando se visita um edifício classificado como Monumento Nacional: vidros partidos ou sujos, excrementos, telhas levantadas, caleiras roubadas e calcinhas de senhora; dois cartazes anunciando a "remodelação" do imóvel e aconselhando os visitantes a visitarem, em alternativa, a Piscina das Marés; e os imponentes rochedos irrompendo da água, o céu azul e os riscos traçados por Álvaro Siza ainda encarnados no cimento - até quando?

O Salão de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, está transformado num espaço muito pouco aprazível pouco mais de um ano depois da sua inclusão na lista restrita dos monumentos nacionais, em Março de 2011. O termo, no final do ano passado, do contrato de concessão do edifício desenhado por Álvaro Siza deixou-o entregue aos elementos e, pior do que isso, à mercê de vandalismo. "Está votado ao abandono pela Câmara de Matosinhos. É uma vergonha para a cidade de Matosinhos, já que isto tem sido publicado em várias revistas internacionais. É uma vergonha mundial", declarou ontem, durante uma visita ao local, a vereadora Alexandra Gavina, eleita pela lista Narciso Miranda/Matosinhos Sempre.

"Isto é um mau presságio. Fazem-se passadiços para o turista ver, mas não se trata do que já está feito", criticou a vereadora Ana Fernandes, que defendeu uma solução para o edifício que não acarrete custos para a autarquia. Com o ex-presidente da câmara presente, mas remetido ao silêncio, coube a esta vereadora puxar dos galões de Narciso Miranda e recordar como, em 1991, a remodelação do imóvel de 1958 foi feita graças a um concurso que obrigava o concessionário a pagar as obras.

"É urgente lançar um concurso para encontrar uma solução desse género", defendeu Ana Fernandes, segundo a qual, quando questionado na última sessão da assembleia municipal, o actual presidente, Guilherme Pinto, informou que a reabilitação do edifício está dependente de razões financeiras. "Disse-nos que o arquitecto Siza Vieira pediu meio milhão de euros", contou. "Mas, a cada dia que passa, são maiores os custos da recuperação", notou a vereadora.

"A crise não pode justificar tudo", acrescentou Ana Fernandes, apontando ainda, ali ao lado, na zona de protecção do imóvel, o esqueleto de uma esplanada que a autarquia licenciou há dois anos, mas que foi embargada pelo Igespar, que não tinha sido consultado.

Tão discreto quanto possível, Narciso Miranda falou apenas para criticar a falta de estratégia do executivo socialista, já que teria feito mais sentido, disse, negociar com o anterior concessionário do salão de chá a sua continuação no imóvel até ao início das obras.

Ontem contactado pelo PÚBLICO, Guilherme Pinto explicou que a câmara espera ter ainda esta semana propostas para um empréstimo que a autarquia pretende contrair para avançar com as obras, mas não adiantou quando poderão começar. "Depende do gabinete do arquitecto Álvaro Siza. Ele entendeu que devíamos aproveitar a oportunidade para fazer obras mais profundas", explicou o autarca, segundo o qual o município tem tomado providências para evitar a vandalização da casa de chá. "O edifício tem tido segurança, mas só se consegue que esteja seguro quando estiver a ser utilizado", reconheceu.