Crítica

Incompreender Pessoa

A verdade sobre Pessoa é aqui sacrificada às anedotas em que o biógrafo se compraz

Se deixassem este livro ser apenas aquilo que é, obra de um apaixonado coleccionador de estórias, não aceitaria o pedido do Ípsilon para o criticar. Recebi a edição brasileira há mais de um ano e nem eu nem o Álvaro de Campos nos manifestámos então. Sou militantemente cidadã da pátria língua portuguesa e gosto de gostar do que os nossos concidadãos brasileiros produzem. Mas a obra adquiriu tal difusão, oferecida até pelo autor às bibliotecas escolares deste país, que curvei-me ao dever de me manifestar.

Os que aplaudem, leram? As 710 páginas? Eu li. Quantos desses poderão silabar estas quatro letras?

Como tantos falam de Pessoa (P.) dele sabendo tão pouco, este “simples guia para não iniciados” (p. 13) arrisca-se a modelar o saber de incautos e incultos leitores. Essa a questão. Mas como explicar que a festejada “quase autobiografia” se aplique a dar do biografado este deprimente retrato do bêbado louco megalómano, aspirante ao prémio Nobel (pp. 177, 465), que ia cozer as suas bebedeiras na cave da loja do judeu russo para quem fabricou poemas a troco de uns trocos, incapaz sexualmente por ter sido mal dotado pela Natureza, mas “pretensioso”, exibindo anel de brasão, “vaidoso”, vestindo-se e calçando-se nas lojas mais caras e elegantes, quase cegueta mas não usando lentes grossas por lhe fazerem os olhos pequeninos...? Para continuar a compor o retrato do pobre diabo - de “triste figura”, diz -, o Biógrafo (B.) inventa-lhe “amigos de rua” (p. 163): bêbados, pedintes, loucos, arruaceiros. (E as provas disso?) Espanta-se que P. não tivesse “amigos importantes”, “alguém com posses; um remanescente da nobreza”, “um político republicano”, um académico, um “empresário de peso”. Só “párias”, lamenta. E afiança: “Pessoa chegou mesmo a pensar em casar” com a filha da lavadeira (p. 281)! No balanço dos “heterónimos”(p. 396), lastima, de novo, a ausência de um “membro da nobreza” (ignora o Barão de Teive e Vicente Guedes). Mesmo que tudo isso fosse verdade (e não é), eu continuaria a perguntar-me porquê essa obstinação em avacalhar a imagem do seu ídolo. É caso para expor a essa junta médica convocada para autopsiar P. que lhe permitiu anunciar triunfalmente o que, há 17 anos, Francisco Fonseca Ferreira escrevera em livro: pancreatite aguda.

A verdade é que nunca ninguém viu P. bêbado nem com delirium tremens (repare-se na firmeza da letra) nem tresloucado. O B. julga-o segundo os seus valores e dá-lhe lições de moral além-túmulo. Não entendeu a grandeza desse “doido”, desse “infeliz” (assim o trata) de quem Casais Monteiro, seu discípulo, disse que foi o homem mais livre que conheceu. Não entendeu que P. pagou toda a vida o preço dessa liberdade: permanente penúria económica, ausência do palco dos sucessos sociais, solidão irremediável porque os altos destinos cumprem-se sempre a sós.

Apetece perguntar: se o biografado é esse pobre diabo, porque não se ficou pela obra? Vendo bem, não teria sido melhor porque este livro é uma montagem de textos pescados a esmo, de P. e seus “outros”, mas sem atribuição, tudo misturado com a prosa do B., que quis - ingenuamente o declara - imitar o estilo de P. Aqui e ali introduz, sempre sem dar o seu a seu dono, afirmações alheias. Ficamos assim a braços com uma tremenda amálgama de citações - estropiando, inúmeras vezes, não só palavras mas frases inteiras. Resulta um “coquitéu” (como dizem os brasileiros) com pedaços de poemas, que cita como prosa e mistura com outras prosas que não diz de quem são. Chama-lhe, às vezes, “coleta” (p.166). Ao atribuir alguns textos, erra: por exemplo, na página 227: não são de Campos os versos da epígrafe, mas do ortónimo; página 246: o “epitáfio” é poema de Caeiro, não de Pessoa; página 652: o poema é do ortónimo, não de Campos! E até erra títulos de livros. E também as datas. Erra e baralha um pouco tudo, por todo o lado. Não cita as suas fontes por serem muitas, diz, mas compraz-se em notas quilométricas, tipo entradas de enciclopédia ou curiosidades de almanaque, que invadem também o corpo do texto.

Também não são de fiar as informações biográficas. Quanto à ascendência de “fidalgos e judeus” que P. disse ser a sua, são muito mais que dois! Interpretando como bazófia o orgulho de P. nessa ascendência, o B. nunca poderá entender a Mensagem, em particular, e o seu autor, em geral. O profundo sentimento de ter uma missão a cumprir, como “criador de civilização”, “estimulador de almas”, vem-lhe de longe, quando, em Durban, se apercebeu do que chamou a nossa “descategorização civilizacional”, e decidiu traduzir Os Lusíadas e escrever sobre Vasco da Gama. Sentir-se ligado por laços de sangue à velha cepa lusitana correspondia à sua busca de “quem sou”, antecedendo “a busca de quem somos” de Mensagem. Até o guia de Lisboa, de cuja autenticidade o B. duvida - sem fundamentos nem argumentos - foi escrito como parte de um amplo projecto para dar a conhecer ao mundo o nosso património cultural.

É insignificante o que nos diz sobre a família de Tavira, cujo contacto, reatado desde o primeiro regresso a Portugal, em 1901, foi decisivo para a assumpção da sua identidade como detractor da Igreja de Roma, carrasca dos seus antepassados judeus, e até para a sua entrada na vida adulta, em 1909,como editor da Empresa Íbis em que essa família o ajudou a lançar-se, angariando-lhe como primeiro (e único) trabalho, junto de correligionários seus, republicanos, maçons e anti-clericais, a edição de um jornal algarvio, “republicano radical”, de Loulé. O “livre pensador” que um tio avô, Jacques Cesário Pessoa, ainda hoje declara ser numa lápide do cemitério de Tavira, cedo se lhe impôs como exemplo.

Quanto à mãe: é falso que não fosse “religiosa” (p. 27), o que seria estranho numa família açoriana de tradição católica. (Será por isso que faz P. “ateu”?) Não só o baptizou como, em Durban, o inscreveu numa escola católica de freiras irlandesas, onde fez a primeira comunhão. E o seu verdadeiro primeiro poema, a ela dedicado, é uma engenhosa paráfrase da Avé-Maria. Além disso, ensinou-o a rezar: pela boca de Campos, fala, num poema, da sua “infância que rezava”.

Quanto ao pai, também não é verdade que não tenha tido verdadeiro contacto com o filho (“que poucas vezes viu”, diz na página 48). O B. reproduz a foto do maço das cartas que ele enviou à nãe, durante os meses em que se ausentou para tratar a tuberculose, mas não as leu (e até já foram publicadas). Aí teria sabido que o “Fernandinho” tinha ido para essas termas de Caneças com a avó materna e o pai, que dele fala nas cartas. Se um ano antes, com quatro anos, a criança-prodígio já lia e escrevia - como diz - guardou seguramente na memória essa relação a que só a morte pôs cobro.

Também não é verdade que a tia-avó Mª Xavier Pinheiro fosse a velha tonta “conhecida por escrever lamentáveis poemas românticos e viver cantando canções de amor” (p. 45). Como sempre, sacrifica a verdade às anedotas em que se compraz. Pelo contrário, o sobrinho-neto, com quem longamente conviveu, tinha-a em grande estima e na nota biográfica que fornece a Côrtes-Rodrigues cita mesmo, por inteiro, um poema dela. Muitas outras notícias não são verdade mas não tenho aqui espaço para as (d)enunciar. Até as biografias fictícias dos heterónimos têm erros: diz de Reis que é “judeu português”(p. 230; p. 253) , de Campos que é “pagão”, acrescentando que Pessoa é “ateu” (p. 230) - esta nem lembrava ao diabo!

A jóia da coroa do livro é o capítulo sobre os 127 “heterónimos” puro sangue, mais 75 que, embora não “considerados verdadeiros heterónimos”, entram na conta; “sem contar” - mas vai contando - “os cinco personagens reais”, “o que somaria 207 nomes”(p. 396)! Para começar, não sabe o que heterónimo quer dizer: Fernando Pessoa, Fernando António e F. Nogueira Pessoa contam na lista como três heterónimos! P. explicou que heterónimos são só três, Campos, Reis e Caeiro, os únicos com vidas e estilos próprios, interagindo uns com os outros, sendo os demais autores de textos literários, “personalidades literárias”. Na sua sôfrega caça, o B. até contabiliza assinaturas casuais em livros ou papéis soltos a que P., estudioso de grafologia, se aplicava: por exemplo, Jerome Gaveston, de que Saveston é variante, (contam ambos na lista!). Também contabiliza (n.º 108) assinaturas em livros alheios! Outro erro é listar pseudónimos ocasionais, que P. inventou às dezenas, para efeitos jornalísticos: Tagus e J.C. Henderson Carr ganharam prémios com charadas, em Durban, no jornal local. Este último, reduzido às iniciais, conta duas vezes! Pseudónimos de charadistas, ocasionais colaboradores dos jornalecos que, na sua juventude, inventou, A Palavra e O Palrador, são às dúzias (Lili, Pip, Rabanete, Pimenta, Gee...). Contabiliza também os “funcionários”: directores dos jornais e suas secções. E os pseudónimos “Um irregular do Transepto” e “Um Sonhador Nostálgico do Abatimento e da Decadência” - assinando, em 1934, um artigo para o jornal A Voz e, em 1935, sátiras contra Salazar. (O pseudónimo esconde uma identidade, o heterónimo revela-a!) Muitos são apenas nomes casuais com que o B. ou o investigador holandês Stoker toparam: 12 trazem a indicação “Apenas um nome indicado por Stoker”. Até contabiliza títulos: Serradura, poema de Sá-Carneiro! Outra prática é dar número de heterónimo a personagens de ficção, algumas só planeadas, como no projecto desse drama Ultimus Joculatorum, que lhe fornece mais seis! As personagens não escrevem, são escritas, não são autores mas assunto! Mas vão para a lista: Abílio Fernandes Quaresma, que torna a contar como Quaresma Decifrador; o Tio Porco, também personagem das novelas “policiárias”; Marcos Alves, protagonista de uma novela; Fausto e Marino, de peças homónimas - e outros. Personagens também-- de “romances do inconsciente”, expressão de P. - são esses “espíritos” que ele psicografa: rendem uns 13 lugares, sendo três deles erradas grafias do mesmo. Mais três lugares para os amigos imaginários da infância, de que não há rasto escrito. Quando alguém, num texto de P., se exprime na primeira pessoa, vira imediatamente heterónimo! E o B. caça-o e baptiza-o: o “Cego” que compõe quadras bandarristas (aparição única) é um exemplo entre outros.

Como heterónimos contam pessoas reais, como o Padre Matos que P. ataca através da “personalidade literária” Joaquim Moura Costa, nos seus jornais O Fósforo e O Iconoclasta (em 1909 - não em 1902, na Palavra, como o B. inventa). C. Pacheco também existiu (como provei no Jornal de Letras de 3.5.2011), assim como Caturra Júnior e Bi (o sobrinho Luís Roza Dias). E até M.N. Freitas - o primo Mário Nogueira de Freitas - conta na lista! No final ainda contabiliza mais cinco, nomeados - diz - por alguns “estudiosos”: António Botto, D. Sebastião, Ophelia, “anti-heterónimo” (mas conta à mesma!), aos quais acrescenta, por sua conta, Eliezer Kamenezky!

Muito ficou por dizer, mas - sorte do B.! - atingi os caracteres concedidos.