Exilados naterra onde nasceram

Somam mais de mil. Foram forçados a regressar aos Açores por terem cometido algum crime que pode nem ter sido grave ou violento. Alguns parecem párias nas ruas de São Miguel. O seu país legal é Portugal, mas o seu país psicológico é o Canadá ou os Estados Unidos

Joe não tem horas para começar a beber. "Depende do dinheiro que tenho." Se não bebe, lá vêm tremores, náuseas, insónias, irritabilidade, ataques epilépticos. Há dias, caiu. Feriu-se na testa. "Bebo, esqueço. No dia seguinte, tenho o mesmo problema à porta: estou aqui nesta merda desta ilha. It could be worse. Oh. Podia ser pior. Podia ser repatriado para a terra dos taliban."

Tatuou a data no braço esquerdo: 15-7-95. Como se fosse possível esquecer aquele dia - o dia do regresso forçado aos Açores. Não tinha qualquer memória da partida de São Miguel. Partira com 16 meses. Cantava o hino norte-americano a cada manhã, numa escola de Providence, Rhode Island. E é o hino norte-americano que canta aos 46 anos, de pé, de mão no peito.

Passa horas no Campo de São Francisco, a poucos passos das portas da cidade de Ponta Delgada. Não tem um trabalho. Faz uns "fretes" a uns taxistas. "Vou pagar a água, vou pagar a luz. Limpo os carros por fora, limpo os carros por dentro. Vou ganhando uns trocos."

Esta é a sua "pequena New York". Há sempre alguém a falar em inglês nos bancos corridos, de madeira, ou no coreto, uma construção de cimento, com um rendilhado de ferro. "Metem-se aí a pedir esmola. Estão-se drogando para esquecer. Estão tomando bebedeiras para esquecer. Muitos também estão vendendo droga. É um sobrevive deles."

Logo pela manhã, conversam alguns, entre plátanos podados, perto de um frondoso metrosídero que resiste apesar de um raio lhe ter atravessado o tronco há quatro ou cinco anos. Há outros metrosíderos, embora de menor porte, ao longo da marginal de Ponta Delgada. Quando o calor chegar, Joe e os amigos devem passar lá, para a sombra. Que ninguém lhe chama repatriado. O que é pátria? "I"m an american!" [Sou americano].

A revolta pode ser grande. A revolta pode ser maior do que um homem. A de António faz-lhe trovejar a voz: "Cinquenta anos que eu estava lá. Fui com a família toda. Tinha um permanent residency card [visto permanente de residência]. A palavra permanent means forever. Forever é para sempre. O que estou a fazer aqui? Eu saí daqui com cinco anos de idade. Não sabia o que era o mal. Se aprendi, foi lá. A América não quer ser responsável pelo que fez. Vão botar fora um gajo que tem pequenos, que é avô e tudo!"

O primeiro deportado aterrou em 1987. O número subiu após o atentado de Oklahoma City, perpetrado por Timothy McVeigh a 19 de Abril de 1995. Os EUA aprovaram uma lei que não ordena apenas a expulsão de estrangeiros indocumentados, mas também a de condenados por algum crime, ainda que cometido muito antes. Com os atentados de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e em Washington, obra da Al-Qaeda, criaram um sistema global de alerta.

Durante anos, nem passou pela cabeça de António tornar-se norte-americano. "Não contava para nada." Só por seis meses escapou à guerra do Vietname. "A diferença é que a gente não podia fazer voto. Não me preocupava com quem ia ser meu presidente. Eles fazem o que querem, anyway. Quando queria ser natural, já tinha crimes em cima de mim, so... não podia."

Qualquer coisa o chamava para o arquipélago. Em 2002, veio ver uns terrenos, averiguar a possibilidade de recuperar uma casa de família. Há cada vez mais quem viva com um pé nos Açores e outro nos Estados Unidos ou no Canadá. Chamam-lhe população transatlântica. "Eu queria retiring [reformar] aqui, mas queria ir para trás, não queria ser deportado da terra que eu conheço."

O inesperado aconteceu ao tornar a casa. António entrou no guichet para mostrar o passaporte e o cartão de residente à polícia de imigração e protecção de fronteira. Tiraram-lhe fotografias e impressões digitais, como fazem a qualquer estrangeiro. Desenterraram o seu registo criminal. "Isso foram coisas que aconteceram muitos anos para trás. Eu estava fazendo bem. Tinha um negócio. Estava amanhando coisas: roofs [telhados], isso tudo."

O que fizera, afinal? Da primeira vez, impeliu-o uma paixão. "A minha rapariga morava a uns 20 ou 30 minutos. Eu não tinha bicicleta, não tinha carro. Roubava um carro para ir, roubava outro para voltar. Isso era o primeiro namoro. Diz que é o melhor. Não sei. Tinha 16 anos." Meteu-se nas drogas. Esteve preso por elas. Livrou-se delas. "Eu estava fazendo bem. Eu vim para cá, tinha 10 mil dólares ao lado. O dinheiro que eu tinha aqui foi todo para trás para eu pagar um lawyer [advogado]."

Lutou o mais que pôde: "Eu não saí da cadeia e vim para aqui. Eu saí da minha cama e vim para aqui. Eu fiz o appeal. Vim em 2010. Tenho 57 anos. O que vou fazer com a minha idade? Estou aqui para morrer! Vim para a minha terra para morrer. Não posso ver família, não posso ver ninguém. Não tenho amigos aqui, só pessoas que conheço. A pior coisa que Portugal fez foi meter-se nessa merda. Devia dizer: "Hello! Ele fez crimes aí. Ele fez prisão pelos crimes. Fica com ele!""

O último a aterrar foi Augusto. Só trazia a roupa do corpo. Estava tão atarantado que nem viu os técnicos que o aguardavam no Aeroporto João Paulo II e que o haveriam de conduzir ao Centro de Acolhimento Temporário de Emergência, numa rua íngreme que leva a um novo bairro de classe média, abaixo da casa de Walter Oliveira da Ponte, um dos homens mais ricos dos Açores.

Está sempre de pé atrás, de sobrolho franzido. Não diz o que o trouxe aqui. É como se ainda tivesse de se reger pelos velhos códigos. Numa cadeia de alta segurança, não há partilha de informação. Qualquer pergunta pode ser encarada como uma invasão. Augusto está a adaptar-se ao mundo exterior. Augusto está a adaptar-se a um mundo exterior desconhecido.

Carlos aterrou há 20 anos e nunca se adaptou. Anda entre a Calheta e o Campo de São Francisco. Há 20 anos, não havia apoio. "Quem chegava ficava nos caminhos." Refugiou-se numa lixeira. Viveu 16 anos por lá, a pescar metais, a vendê-los a sucateiros. "Às vezes não conseguia dormir. Aquilo era uma mata, não havia casas. Às vezes, chegava [à barraca] e estava a porta partida. Levavam coisas." Ganhou medo. Convenceram-no a mudar-se para um quarto.

Pelo menos 877 açorianos com residência legal permanente foram deportados nos últimos 25 anos -711 dos EUA, 165 do Canadá, um das Bermudas. Somando os ilegais de que há registo, o número sobe para 1161. A maior parte desembarcou em São Miguel, ilha-verde por eles rebaptizada "the rock", numa alusão a Alcatraz, ilha-prisão da baía de São Francisco, na Califórnia.

A Direcção Regional das Comunidades recebe uma ficha básica: nome, idade, data da chegada, motivo, destino, existência ou inexistência de familiares. Remete-a ao Instituto para o Desenvolvimento Social dos Açores (IDSA) e a duas instituições particulares de solidariedade social mandatadas para receber os recém-chegados e oferecer-lhes ajuda - a Novo Dia e a Arrisca.

A presidente da Arrisca, Suzete Frias, jamais esquecerá um "psicótico" que veio dos Estados Unidos num jacto. Era como se a tivessem puxado para dentro de um filme sobre o Campo de Detenção da Baía de Guantánamo. O homem usava um fato-de-macaco cor de laranja, algemas nas mãos e nos pés. Entregaram-no como quem "entrega uma encomenda". "Deram-nos uma caixinha com a medicação dele, disseram-nos que às tantas horas ele tomava aquilo, e foram-se embora."

Também lhe ficou na mente um "psicótico" que só vestia umas calças de ganga e uma T-shirt, calçava uns chinelos de enfiar o dedo e segurava uma caixinha de cartão com uma Bíblia, uma escova de dentes e alguns medicamentos. "Vinha com um batalhão de médicos e enfermeiros. Levámo-lo para a urgência para internamento. Era o destino adequado."

Não eram mentes perversas com currículos criminais extensos, daqueles que o imaginário cinematográfico coloca em listas intituladas wanted [procurados]. Eram doentes mentais que, num momento de crise, tinham agredi