O homem que se apaixonou pela voz do GPS

Dia dos Namorados de 2009. Maxwell Sim (SIM, “como os cartões que se põem nos telemóveis”), 48 anos, está sentado sozinho à mesa de um restaurante no porto de Sydney. É a sua última noite na Austrália, onde foi para se reencontrar com o pai (um fracassado aspirante a escritor) e tentar reconstruir a sua relação com ele (mas o pai recusa o jantar da última noite). Entretanto, numa mesa próxima da sua, vê duas chinesas (que supõe serem mãe e filha) a jogarem às cartas, rindo e conversando de maneira animada, e inveja-lhes essa intimidade, essa cumplicidade. Havia meses que a sua mulher (também ela uma aspirante a escritora), Caroline, o deixara, levando com ela a filha adolescente, Lucy. Ele caíra em grande depressão, sozinho na sua casa “cheia de mobílias do Ikea”, em Watford, nos subúrbios de Londres. A auto-comiseração levara-o à apatia, à paralisia. O bilhete para a Austrália fora oferta da sua ex-mulher. No dia seguinte, no aeroporto, torna a ver um outro par mãe-filha em grande cumplicidade, e emociona-se. A sua necessidade de afecto e de intimidade parece estar a vir ao de cima. Já no avião que o levará a uma escala em Singapura, Maxwell começa a contar a sua vida ao seu companheiro de viagem; o homem, um executivo obeso, não mostra grande interesse em ouvi-lo, mas ele continua. Até que uma hospedeira o avisa de que o homem acabara de morrer de ataque cardíaco (ou, literalmente, de tédio?).

O último romance do escritor inglês Jonathan Coe (n. 1961) é uma história hilariante (mas ao mesmo tempo melancólica e dolorosa) sobre o nosso tempo, um olhar irónico lançado ao “mal-estar” moderno, à “miopia emocional” que se instalou num mundo (o nosso) de redes globais de “amigos” com acessibilidade permanente, mas onde a solidão humana parece atingir dimensões trágicas. Jonathan Coe já nos tinha habituado - em romances anteriores como Que Grande Banquete!, O Rotters'' Club ou A Chuva Antes de Cair (todos publicados pela ASA) - às suas reflexões irónicas e satíricas sobre a sociedade britânica (o tempo de Margaret Thatcher foi amplamente dissecado), mas a sua escrita nunca tinha ido tão longe em termos de análise do “mundo globalizado” dominado pelas comunicações instantâneas. “Os carros são como as pessoas. Movemo-nos em círculos todos os dias, corremos daqui para ali, passamos a centímetros uns dos outros, mas há muito pouco contacto real. Tantos desencontros. Tantos ''podia ter sido''. É assustador, quando pensamos nisso. Provavelmente, o melhor é não pensar.”

Maxwell Sim, personagem e narrador, tem 74 “amigos” no Facebook, mas ninguém com quem falar. Retornado a Watford, tem 137 e-mails, 136 dos quais são spam. Mas há um, do seu “amigo” Trevor, que lhe oferece um estranho emprego: participar numa acção de promoção de um novo fabricante de escovas de dentes eco-friendly. Para isso, deve estar disposto a conduzir um carro híbrido desde Londres até um dos lugares mais remotos e longínquos da Grã-Bretanha, as Ilhas Shetland. Maxwell aceita. Mas essa viagem, cheia de paragens e desvios para visitar pessoas que em tempos conhecera, acaba por se transformar numa espécie de odisseia ao passado (cheia de cruéis revelações, sobretudo sobre o seu pai), numa viagem por dentro da sua história familiar. Instala-se a ideia de que a solidão e a felicidade parecem passar de geração em geração (ideia que Coe parece reabilitar do seu anterior romance, A Chuva Antes de Cair). Maxwell Sim é a encarnação da solidão. Durante a viagem afeiçoa-se estranhamente à voz feminina e sexy do seu GPS, que ele baptiza de “Emma”. Emma dá-lhe paz, apazigua-o, e nunca fala contra ele. Paralelamente, e graças às redes sociais, adquire uma identidade feminina, o que lhe permite tornar-se “amigo” da sua ex-mulher e assim “permanecer” na sua vida.

Este romance comovente e divertido, de uma profunda melancolia, com surpreendentes reviravoltas na história, está talentosamente arquitectado, construído a partir de numerosas histórias curtas, referências culturais pop (como os livros de Coelho [Paulo Coelho], que Maxwell erradamente pensa tratar-se da personagem “Coelho”, de John Updike), e de discursos metaficcionais; e, como sempre acontece nos livros de Coe, tudo faz sentido, tudo está ligado, e no fim não restam pontas soltas.