O canto dos carrascos

Um sinistro episódio da violência pós-independência em Angola, recriado num livro polifónico, se não ensurdecedor

Em Luanda, no dia 27 de Maio de 1977, ouviram-se tiros pela manhã. A população encaminhava-se para o Palácio Presidencial, seguindo o rasto de um grupo de revoltosos. O movimento liderado por Nito Alves e, ao que parece, também por José Van Dunem propunha-se recuperar os ideais da linha dura do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), depois de observar, com desagrado, o rumo das políticas do então Presidente Agostinho Neto. Estudantes, intelectuais e até membros do Governo sentiam-se traídos por aqueles que, nas palavras de um sobrevivente da “purga” que se seguiu, “criavam um clima de ódio contra os que defendiam a ideologia marxista-leninista”. A rebelião foi rapidamente debelada com a ajuda das forças cubanas e o que se seguiu é, ainda hoje, objecto de controvérsia, apesar dos múltiplos testemunhos e das obras dedicadas ao assunto. Sufocado à nascença, o chamado “contragolpe” de 27 de Maio, apelidado de Fraccionismo por Agostinho Neto, serviu de pretexto para uma acção violentíssima contra suspeitos e não suspeitos dentro e fora do MPLA. O Presidente tratou de inflamar os ânimos nos seus discursos com frases como “ não perderemos tempo com julgamentos” e “não haverá perdão” e ordenou uma imediata “limpeza” que tinha como objectivo eliminar não só os cabecilhas da rebelião, mas também os intelectuais do seu próprio partido que temia virem a ocupar o poder em seu lugar.

Em Luanda foi então organizado um tribunal revolucionário ad-hoc, onde chegavam ininterruptamente listas de suspeitos, assinadas por Neto, com ordens para um rápido e eficaz despacho. Sucederam-se os julgamentos sumários, as torturas, as violações e as execuções em massa na Cadeia de S. Paulo, junto a muros de cemitérios, no meio do mato, em valas comuns. Houve menores arrancados de casa, pessoas enterradas vivas ou queimadas na praia e o número de estudantes nas faculdades desceu dramaticamente. Ainda hoje é impossível saber onde estão os corpos da maior parte das vítimas e os historiadores não conseguem chegar a um consenso sobre o número de mortos - entre 15 mil a 80 mil. Entre eles, para além dos cabecilhas, estava Elvira, comandante do batalhão feminino do MPLA que, de acordo com testemunhas, nunca parou de cantar enquanto era massacrada sem piedade. Esse tribunal, onde pontificaram figuras bem conhecidas da política e de uma certa elite angolana, recebeu o nome sinistramente poético de “Comissão das Lágrimas”.

António Lobo Antunes, um escritor que conhece bem a violência e não perde a oportunidade de a retratar de uma forma única e, para muitos, peculiar, recria este episódio sangrento e compõe uma obra que funciona como um lamento alucinado, onde se fazem ouvir várias vozes sobrepostas - a corista decadente, o padre sem sotaina, “respeitoso, com uma açucena na mão”, a louca, o pedófilo, (típicas personagens do autor), a mãe, o pai, a filha, o avô, a neta - e, também, os gritos e sussurros de gerações e gerações sujeitas ao ciclo infindável da catástrofe e da culpa. Mas, neste livro, as personagens estão todas mortas, condenadas a deambularem como fantasmas, expressando o seu horror em litanias pungentes que se elevam numa cacofonia de frases soltas e de apelos dilacerantes.

A escrita do autor, repetitiva, sincopada, oriunda das profundezas da “corrente da (in)consciência” - não é sua intenção “contar histórias” mas sim invadir-nos, “penetrar-nos” - serve bem o propósito desta narrativa sombria que se desenrola em espiral, partindo de um ponto fixo que surge da recriação das múltiplas vozes no início de cada capítulo e que articula sem parar o impacto da violência física e psicológica entre gerações, concidadãos, raças, homens e mulheres, representantes de ideologias rivais, irmãos, espécies.

Para o leitor, trata-se de acompanhar o ritmo e de seguir os compassos dissonantes desta “sinfonia” onde cabem “leitmotivs” e expressões simbólicas fechadas num círculo tenaz que quase nunca se afasta - a não ser, estranhamente, nos capítulos 16 e 17 - de um “núcleo duro” formado por imagens díspares de grande impacto evocativo. O resultado é um atropelo ensurdecedor de palavras enclausuradas num ambiente claustrofóbico de medo e loucura, em que até os objectos, o ar e a terra são ameaçadores. O autor não se limita a mencionar os acontecimentos em Angola, alargando o âmbito da sua narrativa à guerra colonial, ao êxodo dos retornados e aos pesadelos dos sobreviventes, fechados em apartamentos impessoais numa Lisboa indiferente e provinciana, onde acabam por desaguar as memórias tanto dos carrascos como das vítimas.

A linguagem, tal como acontece na obra de autores como William Faulkner e Toni Morrison, é a ferramenta primordial de Lobo Antunes e ele trabalha-a, manipula-a e verga-a com uma espécie de prazer “bárbaro”, quase sádico. É essa mesma linguagem que serve o propósito de construir um ambiente de caos exterior, de desordem íntima, de demência e de pavor, em que a subversão da dinâmica dos movimentos e das sensações serve o antiquíssimo ciclo da violência desmedida dos homens sobre os homens, as mulheres, os animais e a própria terra que, aqui, desconhece a doçura do apaziguamento. O extermínio do sexo feroz vem sempre a par deste ritual de catanas e kalashnikovs, de cadáveres apodrecidos e sem nome, restos aos quais o autor não permite qualquer réstia de amor ou compaixão, qualquer manifestação de alegria ou de tristeza, sentimentos totalmente ausentes deste livro onde - apesar, ou por causa, do título - quase não existem lágrimas.

Numa entrevista ao Jornal “O Estado de S. Paulo”, Lobo Antunes afirmou, em 2010, que este livro, como todos os outros, parte do desafio de não se deixar “vencer pelas palavras”. Em “A Comissão das Lágrimas” o desafio cumpre-se, mas o processo autofágico da escrita acaba por derrotar, em certa medida, o seu autor.

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