Um dos homens mais procurados dos EUA foi detido em Lisboa ao fim de 41 anos

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Americano matou um herói de guerra em 1962 e desviou um avião dez anos depois. George Wright vive em Portugal há duas décadas, após residir num país africano de língua portuguesa

Era um dos criminosos mais procurados dos Estados Unidos. Fugiu da cadeia há 41 anos. Vivia em Portugal há uns 20, como se fosse um nativo de um país africano de língua oficial portuguesa. Segunda-feira, a Polícia Judiciária (PJ) bateu-lhe à porta de casa, nos arredores de Lisboa. E deteve-o.

É uma história com todos os ingredientes para dar um filme à moda de Hollywood. E foi ontem recuperada, com detalhe, pela imprensa norte-americana.

Em 1962, George Wright e outros rapazes dedicavam-se ao assalto à mão armada em Nova Jersey. Um dia, num posto de abastecimento de combustível, em Farmingdale, mataram um herói da Segunda Guerra Mundial: Walter Paterson tinha uns apetecíveis 70 dólares no bolso.

O tribunal condenou Wright a uma pena de 30 anos de prisão. Volvidos oito anos, ele e outros evadiram-se da Prisão Estadual de Bayside, em Leesburg. Roubaram o carro do director e conduziram até Atlantic City. Depois, Wright viajou para Detroit e filiou-se no Exército de Libertação Negra, uma organização radical onde militavam antigos activistas dos Panteras Negras que defendia a libertação armada dos negros norte-americanos.

A 31 de Julho de 1972, embarcava num voo da Delta Airlines para Miami. Fê-lo vestido de padre, com uma arma escondida numa Bíblia. Outros membros do Exército de Libertação Negra transportavam armas. De um momento para o outro, transformaram os 88 passageiros em reféns.

A imprensa local descreve o sequestro como "um dos mais ousados da história" americana e um dos "mais humilhantes para o FBI". Para ver as imagens históricas basta ir a sites como o da NBC NewYork.

Os piratas exigiram um milhão de dólares. E obrigaram os agentes a entregar o dinheiro em trajes de banho, não fossem eles ter armas escondidas, numa pista de Miami. "Siga as minhas instruções à letra ou alguém vai magoar-se", determinou um deles. "Vamos seguir explicitamente as vossas instruções. O dinheiro está agora a ser metido em malas", respondeu-lhe o negociador, na torre de controlo. "O dinheiro vem antes de qualquer passageiro sair", tornou o pirata. Já com o dinheiro na mão, Wright e os outros libertaram os passageiros, não a tripulação. Precisavam da tripulação para chegar à Argélia.

As autoridades argelinas apreenderam-lhes o avião e o milhão de dólares. E Wright e os amigos ainda estiveram encarcerados alguns dias, mas sumiram-se na poeira de África. Alguns foram apanhados pela Polícia Nacional Francesa, em Maio de 1976, em Paris.

Décadas sem pistas

Durante décadas, o FBI não encontrara uma pista que o levasse a Wright. Tudo se alterou há uns meses. O fugitivo, agora com 68 anos, entrou em contacto com alguns parentes nos EUA. Foi então que o FBI se lançou no seu encalço e, com a ajuda da PJ, o encontrou nos arredores de Lisboa.

A Interpol divulgou um alerta vermelho - usado para advertir países-membros do Tribunal Penal Internacional sobre pessoas procuradas e para lhes dar amparo legal para procederem à detenção. A Unidade de Informação e Investigação Criminal da PJ executou o mandado.

Porventura após o 25 de Abril de 1974, Wright instalou-se num país africano de língua oficial portuguesa. E por lá ficou até voar para Portugal com uma identidade falsa. Entrou no território nacional há cerca de 20 anos, a falar português, como se fosse um natural desse país não revelado. Vivia de forma discreta, sem cometer crime que não o de fazer-se passar por quem não é. Este caso mostra que "a determinação do FBI em apanhar um fugitivo não diminui com o tempo nem com a distância", declarou ontem Michael Ward, agente especial responsável pela Divisão do FBI Newark, num comunicado citado pela imprensa americana. "Após 40 anos, o compromisso com a aplicação da lei mantém-se inabalável. Com a contribuição de imensa gente em Nova Jersey, em Washington, DC, e em Portugal, Wright foi detido com sucesso", declarou.

George Wright foi ontem ouvido por um juiz do Tribunal da Relação de Lisboa. Fica em prisão preventiva enquanto decorrem os trâmites da eventual extradição.