É fácil partir para uma ilha deserta

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Tavira, uma certa ideia de liberdade associou-se a esta ilha - uns gostam disso, outros não

Quem não sentiu já a necessidade de partir para uma ilha deserta! Pois em Portugal é fácil fazê-lo. Ao longo da costa do continente há oito ilhas de sonho onde se pode chegar, de barco, em 10 ou 40 minutos. Têm praias de areia fina, águas transparentes e poucos turistas. Quase ninguém vive lá, com algumas excepções, dignas de serem contadas. Para todos os efeitos, são ilhas desertas, selvagens e distantes, aqui tão perto. A Pública viajou pelas ilhas continentais portuguesas, começando pelas do Algarve. Na próxima semana continuamos pelas da costa ocidental.

No Algarve, há menos ilhas no mar do que na cabeça das pessoas. É um fenómeno estranho. Não é não conhecerem as ilhas. Conhecem. Mas multiplicam-nas. Dão-lhes nomes diferentes, que pulverizam os territórios. As ilhas são cinco. Mas os algarvios falam de pelo menos oito ou nove. O mapa mental não coincide com o geográfico. Ou coincide - com a sua natureza instável e mutante. Como a realidade geológica não é estável, as pessoas desenham com o traço dos seus próprios percursos o mundo circundante. À ilha do Farol chega-se num barco que se apanha em Faro. Desembarca-se e passa-se o dia na praia, ali perto do bar Mar a Mais, ou um pouco mais para leste. Ao fim da tarde regressa-se a Faro. É a ilha do Farol. Já à ilha da Culatra se chega-se através de Olhão. É outra praia, totalmente diferente, frequentada por outras pessoas. O ambiente é outro, a temperatura da água e as cores. Os sons, os cheiros, os hábitos, as histórias, não têm nada a ver. Outra ilha. No entanto são a mesma.

Alucinação idêntica se passa com a ilha da Armona, que não é outra senão a da Fuseta. Quanto à ilha de Faro, não é ilha, e a Deserta não pertence à de Faro, é antes a Barreta que, essa sim, é uma ilha. Uma confusão. Ou nem tanto. Cada um vê de acordo com a sua condição. Uma cegonha que migra desde o Báltico até ao Norte de África, ou mesmo um maçarico galego que por esta altura chega da Rússia, não têm a mesma perspectiva que um humano apanhador de conquilha. Ou da própria conquilha, ensopada no lodo, já agora. Cada um enxerga segundo a sua conjuntura. O que importa é o equilíbrio do sistema. Que a água flua através das barras, as plantas alófitas fixem as areias, a lama fermente sob a protecção das ilhas-barreira, que desenvolva os plânctones que alimentam os peixes que entram durante a maré alta, e ficam presos nos buracos quando as águas recuam, nos pequenos lagos do sapal, para servirem de pasto às aves que estão de passagem, e aqui nidificam, e que os humanos possam apanhar amêijoas e estender-se nas areias finas e banhar-se nas águas transparentes. Não importa que as ilhas não sejam ilhas. Importa é a harmonia de toda a Ria Formosa, que aliás não é uma ria.

Ilha de Cabanas

É fácil fugir para uma ilha desabitada. Aqui em Cabanas basta entrar num destes barcos pequenos que andam cá e lá. Em poucos minutos estamos numa ilha deserta. Só não o é completamente porque outras pessoas tiveram a mesma ideia. Mas ninguém vive na ilha de Cabanas. Nem mesmo Manuel Macieira, que tem a concessão da praia e dos dois bares - o Cabana da Ria e o Paradise. Ao fim do dia, ele e os seus empregados atravessam para o lado da vila de Cabanas. A ilha, 6 quilómetros de praia e dunas, fica sozinha.

Isso dá-lhe carácter. Bem podem os turistas encher a área de toldos da praia, espalhar as toalhas pelo areal cor de pérola semeado de conchas. E não adianta que esteja à vista, a poucos metros, a outra margem, a outrora aldeia piscatória de Cabanas, agora transformada em vila turística, com as suas mais de mil casas à venda. Uma ilha deserta é uma ilha deserta. Sente-se.

Basta entrar no Cabana da Ria, o bar de ripas vermelhas, todo suspenso em estacas sobre a areia, propriedade de Manuel, e olhar em redor, para as dunas tufadas de arbustos verdes, levemente desfocadas pela brisa. Há qualquer coisa agreste e desabrigada, que fere e seduz no mesmo ápice. Há qualquer coisa. Tinha de haver, não é impunemente que uma ilha é desabitada. Claro que a música do bar ajuda a criar uma atmosfera, mas atenção, não pode ser isso, porque a canção nem sequer é boa. Night night, night inside your eyes, pessoas sozinhas e eu esperando você, canta Ive Mendes, assim mesmo, em inglês e português, uma piroseira, mas, sabe-se lá porquê, perfeito neste lugar. Night night, pessoas sozinhas...

Uma ilha deserta parece sempre desconhecida e distante, mesmo que fique a poucos metros de terra, como esta, e talvez por isso seja difícil imaginar que alguma vez tenha sido habitada. Mas Cabanas já o foi.

Em 1838, após os Liberais terem desfeito o monopólio estatal da pesca do atum, a Companhia de Pescarias Lisbonense criou uma armação para a apanha de atuns ao largo da costa de Cacela. Chamava-se Armação de Cacela, ou Armação da Abóbora, e os seus equipamentos e trabalhadores eram abrigados num conjunto de cabanas construídas na ilha. Ilha de Cabanas, por causa disso. Ou Ilha da Abóbora, como também é designada. Todo esse arraial, que entretanto mudara de proprietário, foi destruído pelo mar em 1962. A armação continuaria activa por mais dez anos, mas a ilha nunca mais seria habitada.

"O mar comeu as casas", conta Carlos Baptista, o presidente da Junta de Cabanas. "Só deixou areia. Mais nada." Carlos, de 58 anos, é professor de Educação Física em Tavira, mas está à frente da Junta de Freguesia há 10 anos. Nasceu e sempre viveu em Cabanas, e lembra-se de ver a ilha mudar. "A areia move-se", diz ele. "É um movimento de poente para nascente. As barras deviam andar no mesmo sentido". Os homens tentam contrariar esta tendência, quase sempre com maus resultados. "As máquinas taparam as barras que se abriram naturalmente. Havia uma em frente a Cacela Velha, a Barra do Cochicho, do nome do primeiro barco que a atravessou. Fecharam-na e abriram outra, mais para cá. A intervenção humana acabou com o ciclo natural."

A ilha está em permanente transformação, segundo um plano mais vasto, bolado seja lá onde for que os ecossistemas são concebidos. Contrariar esse plano é um erro que se paga mais cedo ou mais tarde. "A ilha está mais alta, mas mais estreita. A qualquer momento pode romper", avisa Carlos, que no entanto tem ele próprio um plano na