Árvores são o bode expiatório das alergias mas a culpa é das ervas

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Três quartos da população que sofre de alergias a pólens são alérgicos a oliveiras, gramíneas e parietárias dr

Nas cidades, os pólens ficam mais agressivos devido à poluição, que os desidrata e os faz ficar mais pequenos. Assim, penetram mais facilmente nas vias aéreas

a Se as alergias fossem um crime, as incriminadas seriam sempre as árvores, quando a culpa, na maioria das vezes, está mesmo ao lado delas e não se vê tão bem - a principal fonte de alergias na Primavera são as gramíneas (fenos) e as parietárias (também conhecidas por alfavacas-de-cobra), sentencia o presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), Mário Morais de Almeida.

Por todo o país, há cidadãos que se juntam em abaixo-assinados, petições e outro tipo de apelos pedindo o abate de árvores nas cidades, afirma Francisco Ferreira, da associação ambiental Quercus. A razão alegada é muitas vezes o serem supostamente fonte de alergias, testemunha Ricardo Marques, do núcleo do Porto da associação ambiental Quercus, onde tem chegado o maior número de queixas e onde, por essa razão, até foi criado o Grupo de Trabalho Anti-arboricida. "Há grande pressão da população para abater árvores, muitas vezes por causa das alergias", diz. Tentando sensibilizar os responsáveis para "a valorização da presença das árvores em meio urbano", já se reuniram com a Parque Escolar [empresa pública que gere obras em escolas] e com autarquias.

Muitos cidadãos vêem a fonte dos seus espirros e olhos lacrimejantes em pequenos algodõezinhos que voam no ar por esta altura, observam de onde vêm e tiram as suas conclusões: vêm dos choupos, mas os plátanos também estão entre "os mais incriminados", nota o alergologista. "As pessoas acham que aquilo é que produz alergias, aquilo nem sequer são pólens, são sementes".

Não quer dizer que algumas árvores estejam completamente isentas de culpa. Por exemplo, é má ideia plantar oliveiras em meio urbano, mas "o real problema das alergias na principal época polínica, em Abril, Maio e Junho, são pólens invisíveis, que só se vêem ao microscópio". As árvores são visadas, quando o perigo "é invisível e radica em plantinhas mais anónimas", que muitas vezes estão ao lado das árvores e proliferam em zonas de baldios e em canteiros mal cuidados, nota o médico.

Lisboa está muito exposta a pólens vindos da Zona Sul do país, do Alentejo, em particular, onde aquelas ervas existem em maior quantidade. Mas, na cidade, os pólens ficam "mais agressivos" devido à poluição automóvel, "que os desidrata e os faz ficar mais pequenos. Assim, penetram mais facilmente e com mais profundidade nas vias aéreas", explica o especialista. "Três quartos da população dos alérgicos a pólens são alérgicos a oliveiras, gramíneas e parietárias", constata. Em vários pontos do país, já foram chamados a intervir para explicar este facto às pessoas que insistem em querer abater árvores. Numa acção que a sociedade de alergologia fez na Junta de Freguesia de Marvila (em Lisboa), as pessoas queriam abater um plátano: "Rastrearam 100 pessoas, apenas uma era alérgica a plátano, as outras 99 eram ao feno".

Para desmistificar a ideia de que as árvores em geral são fonte de alergias em meio urbano, a sociedade de alergologia tem agendada para 4 a 10 de Abril a Semana Mundial da Alergia, uma acção de sensibilização, em colaboração com a Quercus.

A sociedade divulga todas as semanas um boletim polínico, produzido a partir de captadores de pólens situados em pontos estratégicos do país. Trata-se de aparelhos que estão sempre a aspirar estas partículas do ar, orientados de acordo com os ventos, para fitas cuja leitura é feita nas universidades de Évora e da Madeira. O de Lisboa está instalado no Hospital de Dona Estefânia. Cada pessoa pode saber a que pólen específico é alérgico e depois tomar as devidas medidas de protecção, recomenda a sociedade.