Livro do ano ilustra as nossas contradições

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"O Sr. Gomes, que lê tantos livros e tem um telescópio para saber o que se passa no céu, por vezes não faz ideia do que se passa na Terra"

A Contradição Humana é o melhor livro infanto-juvenil do ano de 2010, segundo a Sociedade Portuguesa de Autores e a RTP. Afonso Cruz escreveu e desenhou, com humor, contradições que todos reconhecemos. O Livro dos Quintais (Isabel Minhós Martins/Bernardo Carvalho) e Pinguim (António Mota/Alberto Faria) foram também nomeados. A Pública participou na escolha.

Adorar pássaros e prendê-los em gaiolas, ficar feliz ao tocar uma melodia triste, passar horas num ginásio e usar o elevador para ir até ao... 1.º andar. Destes e de outros "absurdos" nos fala Afonso Cruz em A Contradição Humana (Caminho). "Já tinha reparado nalgumas contradições, mas para compor o livro procurei outras que tivessem piada. Não só que fossem verdadeiras, mas que levassem as pessoas a sorrir", diz o autor e ilustrador.

Dar humor aos leitores é uma das suas intenções? "Em certa medida, sim. Também escrevo algumas coisas um bocadinho tristes, mas procuro uma certa reviravolta, desconstruo mais ou menos aquilo que escrevo, de modo a que a impressão inicial fique um pouco subvertida. E que seja uma surpresa para o leitor. Se estamos à espera de um determinado desfecho e se, enquanto autores, conseguimos encontrar outro, isso é uma mais-valia para quem lê."

O livro, editado em 2010, recebeu na segunda-feira o Prémio Autores para Melhor Livro do Ano de Literatura Infanto-Juvenil, da Sociedade Portuguesa de Autores e da RTP. Antes de saber se seria o vencedor, Afonso Cruz disse à Pública que encarava a nomeação "como um prémio" e que "não gostaria de estar na pele do júri e ter de decidir entre a Isabel [Minhós Martins] e o António [Mota]".

Não tinha um discurso preparado para o caso de ganhar (a decisão do júri só seria revelada numa transmissão em directo na RTP1): "Nunca penso nisso. Confio no meu trabalho, mas espero sempre o pior, o que, neste caso, já é excelente." E também não tinha "fato de gala - vou agora comprar", informou bem-disposto, via email, poucas horas antes da cerimónia.

Quando subiu ao palco, confessou o seu "espanto" por estar ali. Lembrou que o espanto que se tem enquanto criança "se vai perdendo com o tempo". Disse que olhar o mundo sem ver as contradições nos impede de fazer perguntas e de avançar. E felicitou, irónico, o ilustrador do livro... Já depois da festa, voltou a falar com a Pública, disse-se muito contente com o prémio e justificou a surpresa: "Sinto que tenho uma concorrência muito forte. E isto é sincero. São livros muito diferentes: o da Isabel vivia muito com a ilustração, um livro muito completo nesse sentido. O do António é um livro muito mais emocional, com uma parte literária maior. Os dois livros são também muito bonitos por causa dos ilustradores." Se não ganhasse, reconhece, "seria uma decisão perfeitamente justa".

Lido por toda a gente

Afonso Cruz admite que a vida lhe está a correr bem: "Em 2009, ganhei o Prémio Maria Rosa Colaço [Os Livros Que Devoraram o Meu Pai, Caminho]; em 2010, o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco da Associação Portuguesa de Escritores [Enciclopédia da Estória Universal, Quetzal]. E agora este. Foram atribuídos a livros diferentes, que ajudam a ganhar visibilidade."

Quando criou A Contradição Humana não pensou demasiado nas crianças que o leriam. "Não penso muito nas crianças propriamente, penso em arranjar alguma coisa que possa ser lida por toda a gente e tento adequar esse "toda a gente" a pessoas mais novas, evidentemente." Conseguiu.

O autor, que também realiza filmes de animação e é músico, explica o seu processo mental de trabalho: "Mesmo quando o texto não é meu, penso sempre muito na ilustração. Antes de começar a desenhar, não é intuitivo o desenho. Melhor, o desenho propriamente é, mas a composição e o modo como irei resolver a ilustração não é muito intuitivo. Pelo contrário, é bastante racional. A Contradição Humana também foi feito assim. Tenho as ideias bem pensadas e depois começo a desenhar."

Uma característica original do livro é o recurso a vários tipos de letra, que o autor acredita não dificultar a leitura. "Gosto de misturar tipos de letra. O critério é mais ou menos estético, apesar de realçar algumas partes que são importantes. A própria contradição está muito salientada em termos de tamanho de tipografia. Não perturba a leitura porque o texto é muito curto. Se fosse uma novela ou um conto, as pessoas acabavam por se distrair um pouco. Precisava de uma legibilidade mais fluida. Mas aqui cada imagem é quase como um cartaz ou uma capa, e funcionam bem assim." É verdade.

Chama "textos fechados" às narrativas para que normalmente é convidado a ilustrar. E explica: "São textos que, se não tivessem ilustração, seriam compreendidos à mesma. As pessoas entenderiam o que lá está." Assim sendo, o seu trabalho é o de procurar ideias que permitam uma nova leitura do que está escrito: "O que eu faço é tentar interpretar o texto de outra maneira. Depois representá-lo dizendo mais ou menos a mesma coisa, mas de um modo ligeiramente diferente."

Dá um exemplo de um texto que não dependia da imagem para a sua compreensão e lhe permitiu criar uma situação divertida: "No livro Galileu à Luz de Uma Estrela, José Jorge Letria dizia que ele através do telescópio via o que mais ninguém via. Eu fiz exactamente isso. Utilizei o telescópio para ele encontrar coisas que mais ninguém via. Em vez de estar a olhar pelo telescópio, usava-o como um "grampo" para chegar ao cimo do armário e ver o que lá estava. Basicamente, é um olhar diferente sobre o que está no texto." E no armário.

Espaço à ilustração

Reconhece que a tendência mais antiga de se descrever tudo sem se deixar espaço à ilustração está a mudar, de "a personagem usava umas botas castanhas, assim e assim...", passou-se para "a personagem tinha umas botas como estas. E entã