Holanda foi o primeiro dos aliados a bater com a porta

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Divergências políticas aceleraram a retirada dos militares holandeses DESHAKALYAN CHOWDHURY/AFP

A retirada pode abrir caminho à saída de outros países e surge numa altura em que se acumulam dúvidas sobre o sucesso da actual estratégia

a A Holanda entregou ontem o comando da província de Uruzgan, tornando-se no primeiro dos países da NATO a dar por terminada a sua missão no Afeganistão. Divergências políticas internas tornaram inevitável a retirada dos dois mil soldados que, apesar dos limitados efeitos práticos, surge num momento difícil para a Aliança e pode levar outros países a repensarem a sua participação numa guerra cada vez mais impopular.

Os quatro anos da missão - a maior em que o país se empenhou em mais de 50 anos - saldaram-se na morte de 24 soldados e num rombo de 1400 milhões de euros nos cofres públicos. Números menos dramáticos do que os de outros aliados, mas que erodiram o frágil consenso político que existia em torno da missão. O pedido da NATO para que Haia prolongasse por mais um ano a sua participação fez cair, em Fevereiro, a coligação de centro-esquerda. Os liberais, vencedores das eleições de Junho, lutam ainda pela formação de um Governo que, ao que tudo indica, não será maioritário.

Expirado o actual mandato, os soldados holandeses começaram ontem a retirada. Uma cerimónia no Kamp Holland, principal base de Uruzgan, marcou a passagem do comando para as tropas australianas e americanas, que reforçaram já a sua presença na província, situada a norte dos bastiões taliban de Helmand e Kandahar.

Em comunicados quase simultâneos, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Maxime Verhagen, disse que a Holanda "se bateu pelo reforço da segurança e da reconstrução" afegã e um porta-voz da ISAF (a força sob comando da NATO) elogiou um contingente que "serviu com distinção".

Um dos poucos sem limitações operacionais (caveats), o contingente holandês foi enviado em 2006 para o Sul, envolvendo-se desde o início em acções de combate, apesar de a missão ser oficialmente de "reconstrução".

Em Uruzgan, os holandeses ganharam a confiança dos líderes tribais e foram pioneiros no apoio à reconstrução - estratégia que ficou conhecida como "3 D" (defesa, diplomacia e desenvolvimento) e que serviu de modelo à adoptada pela NATO em 2009. A Al-Jazira citava ontem um relatório de uma ONG afegã, dando conta de que "o acesso à educação e à saúde melhorou durante a estadia holandesa", apesar dos progressos limitados na segurança e no combate à produção de ópio. Resultados que levaram o secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, a considerar a missão "um modelo", e o general Peter van Uhm, chefe do Estado-Maior holandês, a garantir estar "orgulhoso" com os resultados de uma operação que custou a vida ao seu próprio filho.

Início da grande retirada?

Mais do que a falta que os dois mil soldados farão à ISAF - os 30 mil reforços americanos que continuam a chegar ao país vão preencher o lugar - a retirada tem um impacto simbólico.

A Holanda "quebrou a solidariedade entre os membros da NATO", pondo fim à noção idealista que "estamos todos juntos nisto", sublinha Hans de Vreij, grande repórter da Rádio Holanda Internacional. A decisão envia também um forte sinal a Washington, já que "nenhum aliado europeu se mostrou disponível para preencher a lacuna deixada pelos holandeses". Ao invés, a maioria pondera, ou já marcou, a data para a saída: os canadianos partem em 2011, os polacos no ano seguinte, deixando França e Alemanha, países onde a guerra nunca foi popular, sob pressão para retirar.

Em Bruxelas e em Washington garante-se que a aliança permanece sólida e que estão a ser feitos progressos no terreno. Mas as notícias da frente de guerra não são animadoras (Julho foi o mês mais mortífero para as tropas dos EUA), lançando dúvidas sobre a eficácia da actual estratégia militar.

Ontem, o New York Times noticiou que apesar da aposta feita por Barack Obama na contra-insurreição (afastar os rebeldes das zonas habitadas, criando condições para o desenvolvimento) são as tácticas de contraterrorismo que se estão a provar mais eficazes, permitindo eliminar altos dirigentes taliban e recolher informações preciosas. Os estrategos acreditam mesmo que este é o caminho mais rápido para convencer os rebeldes a negociar, criando condições para o início da retirada, em Julho do próximo ano.

Ontem, contudo, Obama foi à CBS garantir que mantém a sua estratégia que, alega, tem "objectivos modestos e concretizáveis". "Ninguém está a pensar transformar o Afeganistão numa democracia ao estilo de Jefferson [...] O que queremos é impedir os terroristas de montar grandes campos de treino e planear ataques contra os EUA com impunidade".