Morreu o almirante das turbulentas águas de Macau que chegou a ser primeiro-ministro

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Vasco Almeida e Costa tinha 78 anos PÚBLICO/arquivo

Almeida e Costa era ministro da Administração Interna quando Pinheiro de Azevedo teve um ataque de coração em campanha eleitoral

Um primeiro-ministro acidental, um governador em tempos agitados. Faleceu durante o passado fim-de-semana o contra-almirante Vasco de Almeida e Costa, que chegou ao Governo como ministro da Administração Interna do executivo de Pinheiro de Azevedo, e o substituiu como primeiro-ministro, interinamente, durante três meses.

Alguns anos depois, assumiria o cargo de governador de Macau, antecedendo momentos de grande turbulência no território.

Almeida e Costa faleceu durante a tarde de domingo no Hospital da CUF, em Lisboa. Fernando Vasco Leote de Almeida e Costa tinha 78 anos.

Como oficial da Marinha passou por Goa e Guiné-Bissau, onde foi distinguido com a Cruz de Guerra de 1.ª classe.

Após o 25 de Abril foi ministro da Administração Interna durante o governo de Pinheiro de Azevedo, entre Setembro de 1975 e Julho de 1976.

Em 23 de Junho de 1976, tornou-se primeiro-ministro interino após Pinheiro de Azevedo ter sofrido um ataque cardíaco durante a sua campanha presidencial e assim continuou até ao fim do mandato de Pinheiro de Azevedo, a 23 de Setembro do mesmo ano, quando este foi substituído por Mário Soares.

Teve também um papel importante durante o período da descolonização portuguesa.

Foi depois isso que Almeida e Costa foi nomeado o 134.º governador de Macau, entre Junho de 1981 e Maio de 1986.

Para uns, a sua nomeação assinalou o início de um período de arranque de projectos importantes para a modernização do território, antes da entrega da soberania à China, tais como a nova Taipa e o aeroporto, entre outros empreendimentos. "Como governador de Macau fez uma obra notável", lembrou o coronel Amaral de Freitas, próximo da família.

Mas o seu mandato não foi isento de polémicas, como aliás viriam a ser os dos seus sucessores. Havia quem caracterizasse a sua liderança em Macau, principalmente nos jornais do território asiático, como autoritária. Tal como muitos outros governadores, foi constantemente criticado por passar largas temporadas em Portugal em detrimento de Macau.

Um dos projectos lançados durante a sua liderança haveria de fazer a justiça e a comunicação social mantê-lo debaixo do radar.

A estação televisiva de Macau, TDM, nasceu em 1984 para pouco tempo depois se ver envolvida em negócios pouco claros.

Em 1991 rebentou um escândalo a propósito da aquisição de conteúdos por um dos administradores, K.K. Leung, a uma empresa de Hong Kong onde este era sócio maioritário.

Nos jornais surgiram também notícias sobre dinheiro entregue ao arquitecto Tomás Taveira e à Partex na sequência do pedido à UNESCO para nomear Macau património mundial.

O Presidente da República emitiu um comunicado assinalando o falecimento: "O contra-almirante Vasco de Almeida e Costa serviu o país como distinto oficial das Forças Armadas, tendo ainda prestado relevantes serviços à democracia portuguesa no desempenho de altas funções de Estado, designadamente como primeiro-ministro interino, ministro da Administração Interna e como governador de Macau. Ao tomar conhecimento do falecimento do contra-almirante Almeida e Costa, envio à família enlutada, em meu nome e em nome de Portugal, as mais sentidas condolências."

O corpo vai estar na Capela de São Roque, nas instalações do Estado-Maior da Armada, estando o funeral marcado para as 10h00 desta terça-feira no Cemitério de São João do Estoril.