Jimi antes de ser Hendrix, Bob antes de ser Dylan

William Pickett e Jimi Hendrix, Nova Iorque, 1966
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William Pickett e Jimi Hendrix, Nova Iorque, 1966

Salas cheias no Museu de Brooklyn para uma exposição dedicada aos fotógrafos que fizeram, por dentro e por fora, a revolução do rock'n'roll

Imagens tiradas nos bastidores dos concertos, fotografias do início da carreira de jovens músicos que se tornaram famosos, capas de álbums que fizeram época, fotos de fãs em delírio, retratos que conseguem ultrapassar a superfície da fama e revelar a intimidade de estrelas do rock. A exposição "Who Shot Rock & Roll: A Photographic History, 1955 to the Present", organizada pelo Museu de Brooklyn, reúne cerca de 175 trabalhos, alguns nunca antes exibidos, de 105 fotógrafos, muitos deles nomes desconhecidos do público. Uma frase do historiador William M. Ivins ainda no início da mostra alerta: "Uma revolução militar ou musical precisa de ser fotografada para existir".

Até ao fim de Janeiro, quem for a Nova Iorque vai poder comprovar que a revolução do rock'n'roll existiu. Entre as "provas", nunca ou raramente exibidas está a sequência completa de Jimi Hendrix a queimar a guitarra no Festival de Monterey em 1967 (do fotógrafo Ed Caraeff), lado a lado com uma imagem tirada anos antes por William "Popsie" Randolph de um guitarrista chamado Jimi Hendrix, ainda desconhecido, a vestir um "tuxedo". A prova de contacto da famosa foto de John Lennon num telhado de Manhattan com a camisola "New York", capturada por Bob Gruen em 1974, também se mostra aqui pela primeira vez. Já Max Vadukul leva os fãs de Amy Winehouse para a cama da cantora em Miami, no dia do seu casamento, 18 de maio de 2007. A pergunta fica no ar: quanto querem revelar as pop stars deste século e quanto querem proteger? Mais clássicos são os retratos de Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr fotografados em 1967 por Richard Avedon.
"A música não é suficiente para expressar o grau de rebelião, libertação, êxtase, diversão e dinâmica de grupo que é o rock. A música precisa de imagens para comunicar a sua mensagem de liberdade e reinvenção pessoal. A foto fica depois da música acabar", escreve Gail Buckland, curadora da mostra. É justamente isso que revela o "close-up" de Tina Turner num concerto em Los Angeles em 1985, tirada por Henry Diltz, fotógrafo oficial dos festivais de Woodstock e de Monterey, ou a imagem de 1969 de Little Richard, assinada por Baron Wolman, primeiro director de fotografia da "Rolling Stone". Contrariaram a regra de que só se pode fotografar um cantor até à terceira música, antes de o suor começar a estragar a maquilhagem. "Procuro a harmonia visual definitiva, uma única fotografia que traga a essência do concerto para o papel impresso. Escuto o som mas consigo ver a música", resumiu Baron Wolman na introdução do seu livro "I Saw the Music". Já Michael Putland fotografou a digressão dos Rolling Stones nos EUA e na Europa em 1982. Fotógrafo desde os 16 anos, fez as fotos mais sensuais e suadas de Mick Jagger no palco. À provocante imagem do cantor com o microfone dentro das calças segue-se a inevitável pergunta: "Quem será capaz de olhar inocentemente para um microfone de novo?"

Solidão e pertença

Dana Sammond tem 20 anos. Andrew Hargrove 21. Não eram nascidos quando a maior parte das fotos que cobrem as paredes do Museu do Brooklyn foram tiradas. "Vemos o artista de uma forma que nunca víramos antes" dizem os dois em coro ao Ípsilon. "Vemo-los a suar, a chorar ["Kurt Cobain crying", foto de Ian Titlon, 1990], vemo-los vulneráveis, vemo-los antes mesmo de eles se tornarem estrelas", continua Dana. "Mas ao mesmo tempo", completa Andrew, "é tão provocador ver a vida intensa que eles tiveram ou têm ser fixada de forma tão apaixonada e rara".

A intimidade revelada em fotos tão francas é o que também impressionou a norte-americana Kathryn Walters. "Este acesso à intimidade de gente que tem a fama como estilo de vida é fascinante".
Intimidade e fragilidade é o que transparece nas sete fotografias de Barry Feinstein, que acompanhou Bob Dylan na sua disgressão pelo Reino Unido em 1966. Os dois eram amigos antes de Bob se transformar em Dylan. Feinstein queria captar momentos reais como Dylan na rua em Liverpool com crianças, Dylan a fumar dentro do carro a caminho do concerto no Royal Albert Hall, com fãs à janela, Dylan na conferência de imprensa com uma marioneta que comprara na feira da ladra pela manhã. A cada pergunta dos jornalistas, Dylan dirigia-se ao boneco "em busca' da resposta. "Os jornalistas não perceberam nada", escreve Feinstein. E finalmente Dylan sentado sozinho na plateia do Royal Albert Hall, durante o "soundcheck", fotografia que para Feinstein representa "a solidão e o isolamento de ser Bob Dylan".

Mas o que impressionaria um fotógrafo que tem seus trabalhos expostos na mostra do Brooklyn e que passou os últimos 40 anos a fotografar John Lennon, Tina Turner, Sex Pistols, Bob Dylan, Led Zeppelin, Kiss, Prince, Lou Reed, Elvis Presley? O Ípsilon fez esta pergunta ao veterano Bob Gruen, que não hesitou: "A foto da plateia em azul. É diferente. É fascinante pela simplicidade e pela força." A foto é de Ryan McGinley e o concerto é de Morrissey. McGiley é fã de Morrissey desde os 16 anos. Já tinha ido a centenas de concertos. Começou a tirar fotos das apresentações do ex-Smiths em 2004. As suas fotos são da plateia iluminada pelas luzes do palco. Lilás, laranja, azul. A técnica de saturação unifica a multidão. Aos 32 anos, o norte-americano de Nova Jersey foi o artista mais jovem a ter uma exposição individual no Whitney Museum of Art em Nova Iorque (tinha 26 anos na altura). Nesse concerto, só queria captar "o sentimento de pertença". Conseguiu, garante Bob Gruen: "Os rostos dos fãs irradiam brilho, estão todos a olhar para a mesma direcção, a sentir a mesma energia."