Maria correu a maratona para levar água a 85 mil pessoas

Uma das milhares de participantes na corrida de Lisboa tinha ontem uma meta diferente: angariar dinheiro para 54 poços em África

Quando Maria Buinen, 45 anos, chegou, na passada quinta-feira, a Lisboa, vinda de uma pequena terra na Guiné-Bissau, viu algo que os seus conterrâneos nunca viram: água a jorrar da torneira.

Maria conta que ficou parada a assistir a esse "espectáculo". ?"A primeira vez que vi, não queria sair dali", confessa. Para ter água em casa, Maria faz pelo menos dez quilómetros, duas a três vezes por dia. Uma maratona diária. Não admira, por isso, que ontem tenha encarado a participação na maratona de Lisboa como uma "brincadeira".

Chegou a Lisboa com fôlego, disposta a percorrer os 42 quilómetros da prova, para apresentar aos portugueses o projecto da organização não-governamental VIDA (Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento Africano). Rosa Mota, antiga campeã portuguesa, europeia, do mundo e olímpica da maratona, apadrinha esta iniciativa, que pretende fundos para construir 54 poços de água com bomba em São Domingos, região do Norte da Guiné, junto ao Senegal, onde fica a aldeia de Suzana.

A organização da maratona decidiu, porém, dar descanso a Maria e inscreveu-a na corrida da família (minimaratona). Percorrendo 6,5 quilómetros ao lado de Rosa Mota, Maria (foto ao lado) chegou ao fim como se tivesse apenas contornado a esquina. "Aqui é só marchar, lá é trabalhar", atira, com a ajuda do intérprete.

Maratonas para sobreviver

"As pessoas fazem a maratona para quebrar recordes ou por simples prazer. A Maria faz a maratona todos os dias para sobreviver", resume Rosa Mota, que ontem fez a primeira contribuição para a campanha Viva, comprando a primeira garrafa de água com a marca Viva. Uma garrafa que, simbolicamente, está vazia, aludindo dessa forma à escassez de água que atinge a população guineense.

Desde ontem e até final do ano, as garrafas de 1,5 litros estão à venda, por um euro, nos hipermercados Lidl. O dinheiro reverte para o projecto de construção de furos artesianos, que custam cerca de 5500 euros (poço com bomba, protecção e saneamento) e irão beneficiar 85 mil pessoas em São Domingos.

Com um marido, seis filhos e três netos, Maria Buinen tem o dia-a-dia preenchido, tal como as outras mulheres da sua aldeia, que se chama Suzana. Acorda todos os dias às quatro horas da manhã para vigiar os campos de arroz, produto que está na base da alimentação da população. Mais tarde, são os filhos que ficam com a tarefa de afugentar os pássaros dos arrozais, enquanto as mulheres de Suzana começam a maratona diária em busca de água. No mínimo, dez quilómetros, duas a três vezes num mesmo dia. Maria carrega para casa 30 litros de cada vez, que irão servir para cozinhar, para dar de beber à família e aos animais, para tomar banho e para fazer o famoso óleo de palma, que será vendido nos mercados da fronteira senegalesa.

Entre habitués e estreantesAlém de irem buscar água, as mulheres de Suzana têm de percorrer quilómetros para trabalharem as terras dos arrozais, para apanharem a lenha necessária para cozinhar e para trazerem água do mar para produzir sal. "É um grande sacrifício para as mulheres que, nos últimos anos, sofrem cada vez mais devido à falta de chuva", revela Maria, que saiu pela primeira vez do seu país para participar na maratona de Lisboa, carregando o desejo de ajudar a pôr fim à odisseia das mulheres de Suzana em busca de água.

A acompanhar Maria Buinen estiveram Luciana Silva, 68 anos, e Fernando Farinha, 65. Dois amigos de longa data que fazem provas ou caminhadas todos os domingos e que eram antigos corredores da meia-maratona. Mas a idade obrigou-os a "fazer apenas os percursos mais pequenos das provas", revela Luciana.

"O grosso do pelotão são pessoas que já correram e agora andam, ou aquelas que estão a começar agora", observa Fernando. A sua ambição era participar na maratona, mas as pernas já não acompanham. "Só temos cinco horas para chegar ao fim na maratona e isso limita muito", diz Fernando.