Há quem vá a Fafe à procura da Casa do Penedo a pensar nos Flintstones

Casa construída em 1974 por um engenheiro de Guimarães está a dar que falar na Internet e a levar turistas a Fafe.Há muito que o dono, Vítor Rodrigues, deixou de conseguir descansar ali

As fotografias circulam na Internet, infiltram-se na imprensa internacional, alimentam intermináveis discussões sobre imagens reais e imagens manipuladas. Que fique bem claro: a Casa do Penedo existe e mora no limite de Fafe, na fronteira com Celorico de Basto.

Desde a cidade, nas aldeias que ladeiam a estrada nacional 311, o povo já se habituou a ver passar forasteiros em busca da casa que parece saída da série animadaThe Flintstones, imaginário da Idade da Pedra criado pela dupla Hanna-Barbera.

O dono, Vítor Rodrigues, nem consegue ali saborear sossego. Acontece-lhe sentar-se na sala e, de repente, aparecer alguém a espreitar pela janela. Há até quem abra a porta e entre. Aos domingos, parece uma romaria. É como se estivessem à espera de encontrar o operador de dinossauro Fred, a esposa Wilma e o filho Pedrita. Só que ali ninguém come costeletas de brontossauro. Embora, abaixo da piscina, até haja uma casa do forno e outrora houvesse uma mesa de cimento.

O velho Amândio Ribeiro - ágil nos seus 84 anos - lembra-se de vender parte deste terreno a vinte e cinco tostões o metro quadrado: "Um dia, apareceu um empreiteiro com um engenheiro que tinha uma esposa com uma doença que a obrigava a apanhar ar. Ele queria comprar aquilo. Além de mim, havia outros proprietários - também fizeram negócio"."Uma obra de arte"

A memória de Vítor, o herdeiro, dita uma história um tanto diferente. O pai costumava caçar perdizes por aqui. Certo dia, na Primavera de 1972, veio apanhar grilos com os filhos. De rompante, caiu uma chuvada. O piquenique transferiu-se para o carro. O sol regressou e o pai tinha os olhos nos quatro penedos. E se fizesse uma casa de fins-de-semana?

Pelo monte que as chamas por estes dias devoraram apenas passavam caçadores e guardadores de rebanhos. A Lameirinha era a paz. E as vistas que Amândio não se cansa de gabar: "De um lado, a serra do Marão, a Senhora da Graça. Do outro, os montes do Sameiro (Braga) e da Penha (Guimarães). No cimo, com pedrinhas a ligar penedos, o engenheiro fez [em 1974] uma obra de arte."

Registaram-na como abrigo de montanha. Pelas janelas gradeadas dá para espiar a cozinha/sala. Uma estreita escada de madeira conduz ao primeiro andar. Cada quarto tem a sua forma - triangular, rectangular, conforme permitiram os penedos. As camas foram feitas à medida.

"Eu vinha cá muitas vezes", diz o idoso convertido em cicerone. "Uma vez fui lá dentro: "Senhor engenheiro, trago-lhe o jornal." Ele disse: "Aqui não quero telefones, jornais, televisões!"" Não havia (nem há) electricidade nem água canalizada. "Demasiada curiosidade"

No Verão, os miúdos da aldeia enchiam a piscina apoiada num penedo. Muitos nunca tinham visto o mar. Um rapaz nem acreditava que um avião transportava gente. E o engenheiro-pai lá os levava ao Porto, lá lhes mostrava mundo.

O engenheiro-pai morreu há muito. O engenheiro-filho não dorme na Casa do Penedo há 11 anos, desde que o primeiro filho nasceu: "Não me sinto seguro." Passa aqui o dia ou a tarde com a família e ruma a Guimarães. A casa "desperta demasiada curiosidade".

O parque eólico nascido há uns três anos trouxe mais segurança. Manter a casa, porém, afigura-se-lhe uma luta interminável. Ainda há umas semanas lhe roubaram o telhado. "A porta pesa à volta de 400 quilos, é de aço, ninguém a consegue abrir. Serram as grades das janelas. Já partiram os vidros 20 ou 30 vezes. Agora, são à prova de bala. Levam tudo. Até o sofá já levaram. Fiz um sofá que pesa uns 350 quilos, com cimento e tronco de eucalipto."

Foi na Internet que soube ser dono de "umas das casas mais loucas do mundo". A Internet não o apoquenta. Julga que "o que mais estragou a casa foi o rali". A uns metros, fica o salto da Lameirinha, durante anos uma das grandes atracções do Rali de Portugal. E se a convertesse num espaço turístico? "É uma ideia." Vem aí uma grande dose de publicidade. "No ano passado fizeram lá um filme. Ainda não saiu."