O poeta Pessoa e o mago Crowley

Em Setembro de 1930, Lisboa assiste ao mais improvável dos encontros: o do mago ocultista Aleister Crowley com um obscuro poeta português, Fernando Pessoa

a Coordenadas por José Manuel Anes, as Jornadas Pessoa-Crowley, que hoje se iniciam em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa, evocarão o estranho encontro entre o mago ocultista britânico Aleister Crowley e o poeta dos heterónimos. Um tema recentemente reactualizado com a venda em leilão, e subsequente compra pelo Estado português, em Novembro de 2008, do chamado "dossier Crowley". Co-organizadas pela Casa Fernando Pessoa e pela Junta de Freguesia do Santo Condestável, as jornadas, que terminam amanhã, incluem mesas-redondas, visitas a alguns dos cenários icónicos da relação entre o poeta e o mago, como a falésia da Boca do Inferno, em Cascais, onde Crowley se teria supostamente suicidado, e o lançamento do livro O Guardador de Papéis, organizado por Jeronimo Pizarro.
Num dos textos deste volume, o pessoano alemão Steffen Dix faz um balanço exaustivo do que hoje se sabe sobre o encontro Crowley-Pessoa e adianta pistas que podem ajudar a compreender as motivações de um e outro. Que este insólito rendez-vous teve um impacto significativo na obra tardia de Pessoa, e especialmente nos seus textos esotéricos, é indiscutível.
O episódio que desencadeou o encontro também é conhecido. Pessoa leu as Memórias do mago e descobriu um erro no horóscopo de Crowley, do qual deu conta à sua editora, a Mandrake Press. Crowley recebeu a mensagem e respondeu-lhe. O mago desembarca em Lisboa a 2 de Setembro de 1930 e deixa registada a primeira impressão que a cidade lhe causou: "Deus tentou uma vez acordar Lisboa com um terramoto, mas percebeu que não valia a pena". De facto, o que estava a fazer na provinciana capital portuguesa do início dos anos 30 essa personagem bigger than life e já então razoavelmente célebre? Alpinista, xadrezista, autor de uma vasta obra literária, membro e fundador de ordens esotéricas, pintor, espião, praticante de rituais de magia sexual, Crowley era uma figura. O que queria ele de um obscuro poeta lisboeta?
Como o encontro terminou a 23 de Setembro com o suposto suicídio de Crowley na falésia da Boca do Inferno, em Cascais, encenado por Pessoa com a colaboração de um jornalista, seria lícito especular que já viera a Portugal com essa intenção. No entanto, nada o indica. Dix sugere mesmo que Crowley pode ter chegado a pensar em suicidar-se a sério. Em todo o caso, parece claro que queria desaparecer por uns tempos, antes de ressuscitar em Berlim, onde inaugurou uma exposição de pintura em Outubro de 1931.
Talvez Crowley pretendesse recrutar súbditos em Portugal para as suas ordens iniciáticas, mas, se o fez, não terá sido através de Pessoa, mais interessado em usar Crowley para conseguir publicar na Mandrake os seus poemas ingleses. Uma expectativa que este alimentou, tentando convencer o poeta a investir na abertura de uma filial da editora em Lisboa. Crowley sabia que a Mandrake estava falida, o que Pessoa ignorava. Ambos estiveram também empenhados na publicação de uma novela policial sobre o mistério da Boca do Inferno, que Pessoa deveria escrever e que seria atribuída a um suposto detective inglês. O poeta ainda escreveu 200 páginas de textos fragmentários para este livro, que nunca chegou a completar.