Crítica

Os amigos de Alec

Não há bons e maus. Há só bons e maus resultados

O romance de espionagem, o policial e a ficção científica foram os subgéneros literários mais populares do século XX.

As fronteiras respectivas são elásticas, interpenetram-se por vezes, mas a popularidade destes subgéneros deve-se a uma característica básica e comum aos três: uma estrutura formal estável, conservadora.

Digamos que há um horizonte de expectativas, partilhado por quem escreve e por quem lê, que nunca é defraudado. Deram-se particularmente bem na língua inglesa, podendo até dizer-se que o romance de espionagem se tornou uma especialidade britânica. Bastará lembrar Conrad, Somerset Maugham, Ian Fleming, Eric Ambler, Graham Greene e, claro, John le Carré (n. 1931). Peculiaridade suplementar, quase todos estes autores estiveram, em algum momento da suas vidas, ao serviço dos serviços secretos britânicos. Conrad, Maugham e Greene foram escritores que, pontualmente, fizeram incursões na ficção de espionagem. Fleming, Ambler e le Carré são escritores de romances de espionagem. O último será porventura aquele que, mantendo-se dentro das fronteiras formais do subgénero, melhor o trabalhou literariamente.

George Smiley, a personagem mais famosa criada por le Carré, faz uma aparição irrelevante no romance que a Dom Quixote acaba de publicar em nova tradução. Mas quase meio século após a sua edição original (em 1963), "O Espião Que Saiu do Frio" continua a ser "o" romance de John le Carré. A tal ponto que, num texto de 1989, o ano em que o Muro de Berlim caiu (texto reproduzido como prefácio à presente edição), o autor reconhecia que este tinha sido "o último livro" do seu "período de inocência" enquanto escritor, que tinha sido escrito "com grande ímpeto no espaço de cinco semanas, aproximadamente" e que lhe tinha alterado a vida definitivamente: "A verdade é que nunca mais voltei a escrever assim e durante uns tempos a frase inteligente que se podia dizer a meu respeito era eu ser um homem de um livro só, que 'O Espião Que Saiu do Frio' fora um tremendo bambúrrio e tudo o mais eram cuidados continuados."

Se o exagero da opinião corrente se explica pelo fulgurante e mundial êxito do livro, também é verdade que foi este sucesso que levou le Carré a abandonar o seu posto na embaixada britânica na Alemanha (então) Ocidental, cobertura sob a qual trabalhava para os serviços de "inteligência" ingleses, e a dedicar-se a tempo inteiro à escrita. A sua bibliografia soma hoje vinte e um títulos, o último dos quais, "Um Homem Muito Procurado", foi publicado em 2008 também pela Dom Quixote.

A acção de "O Espião Que Saiu do Frio" decorre, substancialmente na Alemanha e em Londres, em plena Guerra Fria (o Muro acaba de ser erigido em Berlim), essa época tão feliz para a ficção de espionagem. O seu protagonista é Alec Leamas, um espião britânico que é um anti-James Bond, física, psicológica e moralmente. "Não era propriamente um cavalheiro", não gostava de críquete e "a verdade é que não tinha qualquer licenciatura".

Aos cinquenta anos , Leamas é um operacional em fim de carreira, que acaba de perder uma batalha importante na frente de Berlim. Um ninho de espiões no qual se trava uma guerra fria mas mortífera entre os comunistas da Cortina de Ferro e o Ocidente, mas também no interior de cada um dos campos e onde toda a gente desconfia da própria sombra. Leamas é chamado a Londres para uma última missão: infiltrar-se no campo inimigo. Terá de encenar a sua própria decadência até ser recrutado pelos serviços secretos do Leste. O objectivo é fornecer informações que convençam os serviços da Alemanha do Leste de que um dos seus chefes é um agente-duplo. Mas os amigos de Alec na retaguarda (George Smiley incluido) têm uma surpresa para os leitores e também para o próprio Leamas: o agente-duplo é mesmo um agente-duplo ao serviço dos britânicos e o objectivo da missão é afinal evitar que ele seja descoberto pelos comunistas.

Alec Leamas é um céptico, um pessimista, mas não suficientemente cínico para não reconhecer que "o trabalho em informações tem uma única lei moral: justifica-se pelos resultados". Não há bons e maus. Há só bons e maus resultados. Esta ambiguidade moral é a marca de le Carré e dá ao romance o clima melancólico e cinzento de um mundo que é uma permanente encenação, um mundo onde os fins justificam os meios e onde uma única certeza persiste: os inocentes, se os houver, serão punidos. Como acontecerá no romance.