Uma personalidade avessa ao glamour do mundo globalizado, sobranceira e esclarecida

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O Prémio Pritzker foi para o mais assumidamente europeu dos arquitectos

A notícia de que Peter Zumthor ganhou o Prémio Pritzker irá surpreender muita gente pois seria de esperar que este influente arquitecto suíço nascido em 1943 já tivesse sido galardoado.

No seu currículo, Zumthor conta já com o prestigiante Prémio Mies van der Rohe para a Europa, que lhe foi atribuído em 1998 pelo Kunsthaus, um museu de arte em Bregenz (Áustria, 1997). E o Pritzker, que representa a distinção máxima que um arquitecto pode receber, adivinhava-se estar destinado a Zumthor: era uma questão de tempo.

Zumthor é originário de Basileia, cidade-base da arquitectura suíça contemporânea, onde estão sediados escritórios famosos como o de Herzog & de Meuron ou Diener & Diener, por exemplo, o último com maior impacto regional. Estudou Design e Arquitectura na Kunstgewerbeshule Basel e no Pratt Institute de Nova Iorque, sendo professor na Accademia di Archhitettura em Mendrisio. O seu pai era marceneiro e construía móveis, condição que se reflecte no carácter rigoroso com que os seus edifícios são detalhados, assim como no apego a uma cultura "artesanal" em desuso na prática contemporânea. Sobre a mãe, Zumthor tem-na descrito como uma mulher religiosa, devota dos santos locais. Em 1968, pertenceu ao departamento de preservação de monumentos no cantão de Graubünden, realizando pequenos projectos de restauro e acumulando conhecimento sobre património.

A sua obra "oficial" é somente contabilizada a partir da segunda metade dos anos 80 do século XX, reduzindo-se a um número muito diminuto de edifícios, na sua maioria construídos no eixo Suíça-Alemanha. É uma cronologia restrita que abre com o abrigo para o sítio arqueológico de Welschdörfli (Chur, Suíça, 1985) e termina com o Museu de Arte Kolumba, em Colónia (Alemanha, 2007). O seu isolamento em Haldenstein, na Suíça "rural", onde trabalha desde 1979 e construiu as suas obras iniciais (Casa Rath, de 1983, ou o seu primeiro estúdio de 1985), é mítico. Lendária também é a sua personalidade, avessa ao glamour do mundo globalizado, sobranceira e esclarecida, assim como o gosto pela música erudita contemporânea com que principia as suas palestras. O seu trabalho tem sido caracterizado por não se deter numa linguagem (preferindo a abstracção) e pela sensibilidade aos materiais, texturas, luz, lugar e ética construtiva.

Existe uma razão para que Zumthor tenha esperado tanto pelo Pritzker, que é um prémio dado por uma instituição norte-americana e por isso de desígnio "internacionalista". Trata-se de um arquitecto assumidamente "europeu" que, contrariando uma ideia, hoje dominante, de uma Europa miscigenada, não cultiva o multiculturalismo. Coloca-se numa perspectiva oposta à dos seus mais eminentes colegas de continente, como Norman Foster, Jacques Herzog ou Rem Koolhaas, todos premiados e reconhecidamente "globais", tendo-se mantido impermeável a culturas exógenas e a um desempenho performativo tecnológico mais globalizado.

Isto significa que existe nos seus edifícios uma indelével marca "europeia" que remete para uma imagem ancestral. Não necessariamente esgotada dentro de uma forma clássica ou mediterrânica (que vulgarmente associa a "origem" da arquitectura ao templo grego), mas cruzada com a cultura centro-europeia, calvinista e cerebral. Este facto tornou difícil categorizar a obra de Zumthor, como se reconhecia em 1998, via Friedrich Achleitner, na revista japonesa de arquitectura A+U, uma das raras publicações sobre o seu trabalho autorizadas pelo arquitecto. "Os seus edifícios" - escrevia então o poeta e crítico austríaco - "exigem a empatia do visitante. Incondicionalmente".

Esta nota data do final dos anos 90 quando já estavam terminadas as três peças fundamentais que definiram o timbre de influência "zumthoriano": a capela em madeira de Song Benedetg, Sumvitg (Suíça, 1988), onde estabelece uma moral construtiva de imaginário artesanal; as termas de Vals, (Suíça, 1996), regresso ao espaço arquétipal dos banhos romanos; e o Kunsthaus, caixa pura feita de vidro, ferro e betão.

A este breve conjunto, tratado como a estrutura canónica do seu percurso, está associada uma produção "autoral" que enfatiza de propósito o lado "excepcional" da obra arquitectónica. Zumthor determina assim os limites de uma "arquitectura culta e europeia" que não se satisfaz com o cumprimento de necessidades "reais" mas expõe os seus visitantes a uma experiência transcendente. E foi esse vislumbre de imortalidade que a sua arquitectura ofereceu, nos anos 1980, num momento de turbulência pós-moderna. Daí a sua importância. Mais recentemente, na capela Saint Bruder-Klaus (Mechernich, Alemanha, 2007), Zumthor transforma a vivência arquitectónica numa experiência artística, e no museu Kolumba recusa qualquer expressão que recorde a vulgaridade da vida quotidiana.

Mas o "europeísmo arquitectónico" de Zumthor pode, por outro lado, ser tomado como uma manifestação de provincianismo regionalista, mesmo que tenha sido inúmeras vezes plagiado por outros. Esta possibilidade estará à prova na próxima década quando finalmente alargar o seu espaço geográfico "natural" e começar a construir noutros territórios. É também esta a expectativa que o Pritsker lhe abre.