Mayotte A ilha que escolheu voltar a ser França

A grande maioria da população desta pequena ilha do Índico quer ser francesa e concretizou esse sonho com o referendo de domingo passado. A escolha entra em vigor em 2011. É o culminar de um caminho de 50 anos

a Kashkazi é o vento que transporta a estação das chuvas à ilha de Mayotte. O mesmo que chega às três restantes ilhas do arquipélago das Comores. Juntas formam as quatro pequeninas "ilhas da lua", como é conhecido o arquipélago ao lado da imensa Madagáscar e das paradisíacas ilhas Seychelles e Maurícia, no canal de Moçambique. Têm um percurso comum - no arquipélago, muçulmano, cruzaram-se povos africanos, árabes e persas e os colonizadores franceses chegaram no século XIX. Os caminhos, porém, dividem-se. E os horizontes mudam consoante se olhe para o mundo a partir de Mayotte ou de uma das três restantes ilhas das Comores. Em Dzaoudzi, capital de Mayotte, a grande maioria da população, movida por um ideal de igualdade e de estabilidade, vê a França, longínqua, como país de pertença.
Quando, há 50 anos, todas as ex-colónias em África avançavam para a luta que as levaria à independência, Mayotte iniciava o percurso inverso. E esse percurso culminou no passado domingo com mais um referendo (o quarto dos últimos 30 anos), no qual mais de 95 por cento dos eleitores votaram pelo "sim" a uma integração completa com a França. Sem surpresas. Essa era uma aspiração antiga.
Mayotte torna-se assim, a partir de 2011, o 101º departamento de França e o quinto departamento ultramarino francês, juntando-se a Guadelupe e Martinica (nas Antilhas francesas), Reunião (também no Índico) e Guiana Francesa (na América do Sul). Ou seja, em Mayotte, o Estado francês passará a centralizar as questões relacionadas com a justiça, a polícia e a moeda. Para decisões noutras áreas, haverá um conselho regional ou geral, como os que existem nos outros 100 departamentos franceses.
O desfecho da consulta pode ser visto como um desejo de um regresso a um modelo da colonização? Se o for, sê-lo-á mais uma vez em contracorrente depois dos ventos independentistas que sopraram nas Antilhas francesas, com greves e protestos contra o domínio da metrópole. Na Martinica e em Guadelupe, reivindica-se uma verdadeira igualdade ainda ilusória segundo os habitantes e grevistas, que dizem não ter as mesmas oportunidades que "todos os franceses", apesar de serem parte de França. Para eles, a solução passaria por uma maior independência económica relativamente à metrópole.
"É um pouco um paradoxo", confirma o jornalista Rémi Carayol e fundador do jornal de Mayotte Kashkazi, do mesmo nome do vento que sopra na ilha, relativamente ao que aí se passa. Mas explica: o sentimento que existe nas Antilhas francesas de um domínio da economia por proprietários brancos de grandes fazendas ligados à metrópole não se reproduz da mesma forma em Mayotte. "Esse fenómeno existe também em Mayotte, porque os brancos e os habitantes da Reunião dominam a economia, mas não é comparável ao que se vive nas Antilhas. Aqui, os brancos não são descendentes de colonos, mas sim pessoas que vêm da metrópole ou das antigas colónias, chegadas recentemente", conclui.
Ao mesmo tempo, admite, há um desejo de pertença motivado pela ideia de uma vida melhor e de que "a integração é o paraíso". "E isso pode ser uma ilusão", confirma. O referendo marca o "fim de uma incerteza" de vários anos em que Mayotte tinha um estatuto entre uma colónia e um país independente, não beneficiando de nenhum dos dois.
Agora, os habitantes querem ter os mesmos benefícios do que qualquer outro cidadão francês, mas também iguais deveres, como, por exemplo, pagar impostos - até aqui, o pagamento das taxas de habitação ou dos impostos municipais era ignorado, escreve a imprensa francesa.
"Em vez de falarem na conquista imediata de uma igualdade, falam na luta pela igualdade, por ser essa a única forma de aspirarem ao desenvolvimento económico", conclui Carayol.
Colonização melhor aceite
A experiência da colonização em Mayotte não terá sido tão mal aceite como noutras ex-colónias. As revoltas foram raras e os habitantes de Madagáscar que constituem uma parte da população de Mayotte sempre recusaram a independência. Nesta ilha, sempre se aceitou melhor a colonização do que o domínio das Comores, que nunca trouxe benefícios para os habitantes da ilha.
A história de Mayotte dentro deste arquipélago fez-se de mal-entendidos e ressentimentos. Por isso, a vontade de integração com a França é entendida também como um desejo dos habitantes se libertarem das Comores depois de décadas a sentirem-se negligenciados.
"As riquezas eram partilhadas entre as restantes ilhas das Comores e Mayotte ficou mais pobre. Não havia escolas para todas as crianças, nem um sistema de saúde para toda a gente", explica Moinecha Hariti, do movimento pelo "sim" à departamentalização de Mayotte. "Sabemos que há um combate em nome de uma igualdade que vamos ter de continuar", acrescenta.
Mas, para já, o resultado do referendo abre uma janela para essa igualdade. "Mayotte será francesa. Assim garantirá a estabilidade e será reconhecida. Até aqui, não tínhamos um estatuto oficial que fosse claro. Teremos liberdade, poderemos viajar para a Reunião, França, Europa, e aspirar a uma igualdade no acesso aos estudos. Para nós, é sobretudo uma segurança", diz.
Mulheres nas ruas
Foi sobretudo a partir de 1958 que os habitantes de Mayotte começaram a sentir-se excluídos dentro das Comores. Nesse ano, a capital do arquipélago foi transferida de Dzaoudzi para Moroni, na principal ilha do arquipélago.
As mulheres viram os homens deixar Mayotte em busca dos empregos nas outras ilhas. Formaram então um movimento e desceram às ruas. Juntaram-se aos políticos que há muito defendiam um regresso à França e uma independência das Comores, e um futuro distinto das restantes três ilhas.
Enquanto estas escolhiam a independência da França em 1974, com quase 95 por cento dos votos, Mayotte rejeitava-a por mais de 60 por cento. Assim, quando as Comores se tornaram independentes de França em 1975, Mayotte continuou a ser administrada a partir de Paris.
No passado domingo, apenas 4,8 por cento votaram contra a plena integração. Entre esses incluem-se os sectores religiosos islâmicos mais radicais, pouco expressivos, que se opõem a qualquer travão a uma maior influência do islão em Mayotte.
Nesta pequena ilha de pouco mais de 370 km2, e onde se diz haver 395 mesquitas, a cultura ocidental convive com um islão moderado e tolerante, que se fundiu com o animismo que chegou a prevalecer na ilha. A poligamia foi regra durante séculos e ainda está bem presente - em 2005, foi interdita, mas apenas para os jovens nascidos depois de 1987 -, bem como os tribunais islâmicos baseados nos princípios do islão. Mas também neste caso, os juízes islâmicos estão a ser retirados e perderão influência até 2011, quando Mayotte se tornar departamento francês.
Dinheiro e estabilidade
A tendência será agora para uma "assimilação" numa ilha onde mais de metade dos 186 mil habitantes tem menos de 20 anos, diz Rémi Carayol.
"A questão da identidade já se coloca e ainda mais se colocará nos próximos anos. Já existe uma reivindicação nacionalista, que quer uma identidade tipicamente de Mayotte [mahoraise, em francês]", continua. "Mas as novas gerações são 'mundializadas', para elas essa questão está menos presente."
Para Mayotte, a motivação também é económica. Receberá mais ajudas, e subsídios. E conta garantir assim ser terra firme e estável numa região conturbada de golpes de Estado nas Comores e também em Madagáscar. Mas os problemas sociais são vários - entre o desemprego de 22 por cento e um importante fluxo de imigrantes clandestinos vindos das restantes ilhas. Metade da população activa trabalha no sector público. E embora o Produto Interno Bruto (PIB) de Mayotte seja nove vezes superior ao das restantes três ilhas do arquipélago, é três vezes inferior ao da Reunião, departamento ultramarino francês.
Para a França, interessa também manter uma presença no canal de Moçambique, rota do petróleo do Médio Oriente, e uma zona marítima para a garantia de direitos de pesca e de prospecção de recursos. Se, no passado, Paris viu Mayotte como uma importante base militar para travar a expansão do comunismo, escreve o britânico Guardian, agora vê a sua presença como um contraponto a uma crescente e ambicionada influência do Irão nas restantes três ilhas das Comores, onde o regime de Teerão está a investir na construção de escolas e mesquitas e que recebeu uma recente visita do Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad.