Crítica

O contador de histórias

Dezasseis pequenos contos revelam um contador de histórias por vezes exímio

Sem contar com os livros infantis que escreveu, "Histórias Possíveis" é a segunda obra de David Machado, após um romance marcado pelo "fantástico": "O Fabuloso Teatro do Gigante" era uma estreia feliz, mas fica abaixo da exactidão que por vezes Machado exibe neste "Histórias Possíveis". Cortando a eito, diga-se que há dois contos de excepção nos 16 que compõem o volume: "O Mundo silencioso de Diamantino" e "Três memórias". Há outros dois que nos parecem apenas simpáticos: "As viagens de Dom Renato" e "O violinista".

Não é preciso muito para contar uma boa história e estas tomam mais tempo a recordar que a ler: têm todas a mesma dimensão, escassas cinco páginas (à excepção dos dois últimos, que têm nove), o que obriga a uma rara economia de linguagem, sageza na escolha da informação essencial e ordenação de ideias - mais valias que Machado manifestamente possui, bem como a capacidade de definir uma personagem num par de linhas. A sua escrita é pouco dada a piruetas e é parca em adjectivos, antes procura que o leitor se passeie pelas páginas sem cansar os olhos. Isto implica precisão e minúcia.

Todos estes contos são narrados não por quem experienciou o que se conta, mas por quem assistiu aos factos à distância ou é próximo do protagonista, o que traz credibilidade à narração, mas não diminui uma possível adesão emocional. Não sendo um livro de "fantástico", vive dessa ambiência e estas histórias são atravessadas pelo insólito. Em alguns casos este revela-se nos actos dos protagonistas (como o homem que procurava obsessivamente ser costurado em "A costura de Clemente"), noutros é inexplicável (em "Zanga de padres" um homem compra um par de estatuetas, mas uma delas insiste em desaparecer). Venha o insólito de onde vier, por norma persiste, após a leitura, uma atmosfera de estranheza que se deve, antes do mais, à própria escrita, que instala desde a primeira linha um clima de suspense - sendo que o mais exímio exemplo desse talento de construção de ambientes encontra-se em "Sete gatos cagam às escuras".

Por norma, o facto que determina os acontecimentos narrados é desencadeado pelo protagonista sem que este tenha consciência das consequências dos seus actos. É assim com a Bernardina de "A doce desgraça de Bernardina dos Prazeres" que, após uma vida asceta, descobre um prazer que a conduz à desgraça. É assim com o Emílio de "Emílio, o negociador de amores", homem para quem o amor era um comércio até ser exposto à falência do seu corpo. É assim com o Hélder Vaz de "Penélope" que passa 43 anos à espera da morte da mulher, para descobrir que o que pensara a seu respeito estava errado. Este sistema comporta variações: o protagonista de "Nada por nós, Caetano", um rapaz cujo pai aspirava a ver o filho tornar-se em exímio nadador, deixa a natação após provar a carne que o pai lhe proibia. Não é ele a provocar a alteração na sua vida - mas é o pai que, de tanto proibir o rapaz, lhe cria a curiosidade pela carne que, após fartamente provada, lhe provoca uma indigestão que quase o mata. Em "Inácio e Isabel: o último capítulo" a variação é mais pungente, porque o motor da tragédia raia o absurdo.

Não se retira (pelo menos explicitamente) qualquer moral destes contos - Machado parece mais interessado em registar a forma como as manias a que as pessoas se arreigam (para conseguirem o que querem ou por feitio ou porque sim) têm implicações que lhes fogem ao controlo. Isto é: que uma forma de controlo (ou de conforto) comporta sempre a possibilidade da destruição. Isso é patente em dois textos do livro: em "O Mundo silencioso de Diamantino" a procura obsessiva do silêncio de Diamantino provoca uma desgraça, num conto que, escrito de forma muito simples, se torna comovente. E em "Três memórias" a lealdade de um filho a uma exigência muito particular do pai conduz o primeiro ao desespero.

"O Mundo silencioso de Diamantino" e "Três memórias" são dois contos superlativos (estou tentado a dizer o mesmo de "Inácio e Isabel"), em que se consegue mais que capturar a curiosidade do leitor, entretê-lo ou contar uma boa história. São dois contos que, brincando com a sorte e o acaso, não só se tornam comoventes como obrigam a uma reflexão final - e é isso que faz a melhor literatura. Num país com escassíssimos contadores de histórias, sabe bem descobrir um autor que traz a narrativa por uma rédea bem curta, espora o texto quando é preciso e nunca se põe em bicos de pés.