Os Estrumpfes “estrumpfam” hoje 50 anos

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A criação de Peyo, pseudónimo de Pierre Culliford Enric Vives-Rubio (arquivo)

O início do sucesso surgiu na mente de Peyo num almoço, cenário propício para as grandes ideias, durante as férias na casa de amigos. Para pedir que lhe passassem o sal no fundo da mesa, Peyo não se lembrava da palavra e saiu-lhe qualquer coisa como: “por favor, passa-me o...o...o estrumpfe aí ao fundo”. Franquin, amigo, colega de profissão e criador de personagens como Marsupilami, responde-lhe no meio de uma gargalhada: “Toma, eu estrumpfo-te”. Estava assim criada a língua dos “Estrumpfes”. As personagens viriam a seguir.

Leonardo Sá, investigador e historiador de Banda Desenhada explica que um dos truques do sucesso dos pequenos duendes azuis é esta fala particular "juntando ‘estrumpfe’ no final de todas as frases e substituir qualquer substantivo ou verbo por ‘estrumpfar’”. De facto, as frases tornam-se mais cómicas e fazem as delícias de quem ouve. Apesar de poderem gerar dúvidas, “percebe-se bem qual a intenção do que querem dizer”.

O facto de serem de cor azul tem uma explicação de estilo simples: não podia ser outra. Inicialmente Peyo e a mulher pensaram em verde, mas iriam confundir-se com o verde da vegetação. Vermelho seria muito forte, pelo que decidiram optar pelo azul.

Os Estrumpfes não escaparam à polémica nem foram consensuais. Entre os que adoram há também os que detestam. Especulou-se sobre a barba e boné vermelho do “patriarca” dos Estrumpfes como alusão ao marxismo, falou-se de ideologias políticas, que eram anti-semita, ou pertenciam ao Klu Klux Klan, mas a família de Peyo esclarece que nada disso era intenção de seu criador. O filho garante que o único objectivo do pai era promover “o amor e a amizade”.

O “estrumpfo” dos Estrumpfes

Os Estrumpfes têm personalidades muito fortes, andam sempre de gorro (que não tiram nem para dormir ou tomar banho) e calças brancas. São vegetarianos e habitam uma floresta distante, longe do perigo dos humanos. Vivem em comunhão pacífica com a natureza, numa vila feita de cabanas em forma de cogumelos. Não existe dinheiro, trabalham de graça e a sua única preocupação (que mesmo assim não lhes tira o sono) é o vilão, o feiticeiro Gasganete que insiste em tentar capturar um deles sempre sem sucesso. A descrição à primeira vista pode não parecer muito emocionante, mas a verdade é que estes pequenos duendes levaram o seu criador “quase à loucura” com o sucesso que atingiram. Peyo brincava que os Estrumpfes o absorviam e não deixavam nenhuma outra criação que fosse feita por ele também triunfasse.


Do Grande Estrumpfe, o chefe da aldeia, o mais respeitado com os seus 524 anos, ao Estrumpfes cozinheiro, vaidoso, o ganancioso, o guloso ou pintor, todos têm uma característica que os distingue. São cem habitantes na vila e todos têm cem anos de idade. A Estrumpfina é a única representante do género feminino, e o único bebe é...o Bébe Estrumpfe.

Para Leonardo Sá, a BD criada por Peyo deve ainda parte do sucesso às personagens agradáveis e apelativas criadas a pensar nos leitores mais novos. “São desenrascados, até algo ‘patetas’, mas dão sempre a volta ao problema, apesar das vicissitudes. E como são pequenos, e a priori mais vulneráveis, escapam facilmente a todos os perigos e da floresta.”

Em Portugal, segundo o historiador, a União Gráfica foi a primeira a publicar uma série de “Os Schttrumpfs”, em 1967 com dois álbuns: “Os Schttrumpfs Negros” e “O ovo e os Schttrumpfs”. A partir de 1980 com a editorial Publica foram editados doze álbuns das “Aventuras dos Estrumpfes”.

Mais episódios e longa-metragem dos Estrumpfes para breve

Também nos anos 80, graças à produtora americana Hanna Barbera contratada pelos estúdios da NBC, passaram para a televisão. A neta de um dos proprietários “apaixonou-se” pelos “Smurfs” e os pequenos duendes começaram a aparecer no pequeno ecrã. Em meados dos anos 80 chegaram a Portugal, onde passaram na RTP.


Os 227 episódios foram produzidos pelo próprio Peyo durante oito anos. Vinte anos depois ainda são difundidos nas televisões por todo o mundo. Em 2005 a série voltou a passar na televisão portuguesa e agora esperam-se os novos episódios que apesar de Peyo ter morrido há 16 anos, são agora produzidos pelo filho e restante equipa que mantém a criatividade e bom humor característicos da série. Uma longa-metragem dedicada aos “Estrumpfes” vai sair ainda este ano.

As comemorações do meio século “de vida” dos Estrumpfes começaram em Janeiro. A mais original será a digressão em países europeus de vários duendes “do tamanho de três maças”. A capital escolhida pela iniciativa acorda um dia de manhã com centenas de pequenos Estrumpfes brancos espalhados pela cidade a fazerem filas nos autocarros, nos correios ou a irem para o metro. Quem quiser pode pegar e ficar com um e pintá lo de acordo como a sua criatividade. O objectivo é espalhar a boa disposição e fazer sorrir toda a gente. Os mais originais “estrumpfam” um prémio. Também hoje será leiloado um Estrumpfe gigante pintado por uma celebridade. O lucro reverte na totalidade para a UNICEF. Entretanto, podem-se também “estrumpfar” os parabéns aos Estrumpfes, porque afinal meio século só se “estrumpfam” uma vez.