No passado 18 de Maio de 1910

O cometa Halley completa uma órbita solar cada 75 ou 76 anos. Em 1705, o britânico Edmond Halley mostrou que cometas vistos da Terra em 1531, 1607 e 1682 eram o mesmo objecto, que voltaria em 1758. O cometa foi pontual - e foi baptizado em sua honra. A seguir, dezenas de passagens anteriores do Halley, que remontam a 240 a.C., foram confirmadas graças a registos históricos. A sua última visita foi em 1986 e a seguinte será em 2061. Mas o encontro mais próximo foi o de 1910: a 18 de Maio, a Terra terá atravessado a cauda do Halley (não se sabe ao certo se o fez, porque não foram detectados quaisquer efeitos). O evento gerou uma onda de histeria popular, exacerbada por declarações e notícias apocalípticas. A detecção nos cometas da presença de um gás precursor do cianeto fez dizer a alguns que o mundo ia mergulhar numa nuvem mortífera. O Papa aconselhou a compra de botijas de oxigénio e os charlatões venderam comprimidos anti-cometa. Em Portugal, apesar dos esclarecimentos tranquilizadores da Academia de Ciências, muitos fugiram de Lisboa, houve tentativas de suicídio e procissões. Os jornais nacionais da época revelam contudo um certo humor. O Primeiro de Janeiro publicou um postal ilustrado intitulado "Halley que se faz tarde!", com dois homens em diálogo: "E a sua mulher não receia o cometa?" "Já temos tudo combinado: se acabar o mundo, raspamo-nos para Alenquer."