Porque é que há poucas mulheres a escrever humor?

Ingrid Guimarães e Heloísa Perissé estreiam-se hoje no Tivoli, com
a peça Cócegas. Querem mostrar
que as mulheres também têm piada

a Não há mulheres a escrever humor em Portugal. Perdão. Ana Bola, Patrícia Castanheira e Maria João Cruz (das Produções Fictícias) fazem-no. Algumas começam a aparecer timidamente. Outras apareceram com a mesma velocidade com que se diluíram no boom da SIC Radical e do stand-up comedy que pôs fim a um deserto humorístico domado pelo teatro de revista, por Hérman e pelos Malucos do Riso. Mas as mulheres humoristas, e sobretudo as autoras humoristas, continuam a ser minoria. O humor só fala um sexo?Ingrid Guimarães e Heloísa Perissé querem provar o contrário. Em Cócegas, peça que se estreia hoje no Tivoli, em Lisboa, e que no Brasil recebeu mais de dois milhões de espectadores, as duas actrizes e humoristas dão vida a nove histórias de mulheres "em crise". Elas fazem parte de um grupo de novas comediantes-autoras que está a agitar a tv e o teatro no Brasil. Para Ingrid Guimarães, "as mulheres perceberam finalmente que podem ter tanta ou mais piada do que os homens".
Portugal está longe disso. Nuno Markl começa por dizer: "Começam a aparecer muitas mulheres a escrever humor. E bom humor." Quem? O humorista volta atrás, inclina o pescoço como quem pensa melhor sobre o assunto, lança as mãos para a frente e ri-se de si próprio. Conta pelos dedos, pensa alto. "Há esta, há aquela... Pois, afinal são só três ou quatro!" Essas três ou quatro parecem muitas. Em tempos houve nenhuma. Depois apareceu uma, na vanguarda: Ana Bola, a mulher pioneira nos textos de humor, ainda nos anos 80, para o programa Parabéns. "Foi uma questão de oportunidade", diz a actriz. Foi repetindo a experiência, até hoje, em televisão, teatro e rádio. "99% do mercado", diz, "é preenchido pelos homens". Não é por falta de talento, mas pelo "mercado diminuto", "a educação das mulheres", "um certo machismo" e a "tradição". "As "piadolas" ainda são vistas como uma coisa de rapazes."
Nuno Artur Silva, sócio-fundador das Produções Fictícias, diz que não há machismo nem misoginia na escolha dos colaboradores. "São escolhidos os melhores." Acontece que "as mulheres podem achar que essa é uma actividade superficial. Elas preferem que lhes façam rir", diz o condutor de O Eixo do Mal.
Maria João Cruz e Patrícia Castanheira navegam contra a regra. Chegaram às Produções Fictícias há 10 anos e afirmaram-se na escrita de humor. Maria João Cruz diz que chegou ao humor "por acidente". Um curso de Jornalismo no Cenjor cruzou-a no caminho de Nuno Markl. Nos intervalos iam fazendo umas piadas, alguns sketches. O acidente Markl convenceu-a a seguir o humor profissionalmente. Maria João Cruz acredita que as coisas estão a mudar e di-lo com conhecimento de causa. Uma vez por ano dá aulas de escrita humorística: "Há uns anos, havia apenas uma rapariga na turma. No ano passado, dois dos melhores alunos eram raparigas." São poucas, mas começam "a afirmar-se". Em Cómicos de Garagem, programa da Antena 3 que coordena, apareceram trabalhos de "cinco ou seis mulheres em 50". Mas recorda-se de um particul