"Os cristãos devem mostrar que são diferentes"

Os cristãos devem fazer emergir a verdadeira diferença do cristianismo. Só assim poderão contrariar a indiferença que existe em relação à religião, diz Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose (norte de Itália), que esta semana esteve em Fátima, a falar a mais de 400 padres portugueses. Leigo, Bianchi fundou há 40 anos um mosteiro em que homens e mulheres retomam a tradição monástica cristã, mas com expressão moderna.

Enzo Bianchi, nascido em 1943, alerta para o risco de o cristianismo se deixar aprisionar pelos poderes civis e económicos. E diz que o mundo latino contém em si potencialidades de renovação do catolicismo.PÚBLICO - O cristianismo tem futuro na Europa?
ENZO BIANCHI - Sim, se os cristãos escolherem o que o cristianismo é verdadeiramente: uma boa notícia sobre a vida mais forte do que a morte; sobre o amor, que é verdadeiramente a razão pela qual se pode viver e morrer. Se o cristianismo se meter em concorrência com outras éticas e religiões, ficará uma minoria pouco significativa.
Não é já pouco significativo?
Não. Apesar de tudo, no mundo latino, há uns 25 por cento com uma grande consciência de ser cristão. Ouso dizer que hoje há mais consciência de ser cristão, para 25 por cento, do que em outros tempos em que a maioria frequentava a igreja mas não tinha consciência de ser cristão.
Países do Norte da Europa são já muito descristianizados...
Sim, mas é também verdade que em França, Espanha, Portugal, Itália, Alemanha, o cristianismo superou uma fase de diminuição e começa a mostrar uma força dinâmica, insuspeitável há alguns anos.
Então não há o risco de a Europa se tornar descristianizada?
O risco existe, mas o cristianismo tem, dentro de si, a força de continuar a estar presente nas terras de antiga cristandade.
Sente-se que há um discurso novo, mas que a Igreja não muda. O que fazer para que ela se torne mais significativa para as pessoas?
Não obstante, há mudanças na Igreja, provavelmente pouco visíveis, porque não são ao nível institucional. Mas o cristianismo é mais vivido por comunidades que apresentam alternativas ao modo de viver actual. É importante [haver] minorias eficazes, capazes de dar um novo rosto ao cristianismo.
Não há o risco de ficar pela impressão de que se muda alguma coisa para não mudar nada?
Há esse risco. Continuará a haver forças conservadoras que, na realidade, não querem mudar nada, mas querem fazer da Igreja um instrumento dos poderes civis e económicos, uma religião civil. Mas confio que o cristianismo ocidental, sobretudo o latino, pode vencer esta tentação com comunidades que o vivam de forma nova e sejam eloquentes para o homem.
Falava da centralidade da caridade, mas a Igreja faz já tanta coisa a nível social...
Não se trata do social. É ao nível mais pessoal e antropológico: é a questão da misericórdia, de dar evidência ao amor e à comunicação, ao acolhimento do diferente, de instaurar a pluralidade da comunidade cristã e de não viver a fé de forma monolítica e intolerante.
Falou para mais de 400 padres. Os padres quase não têm tempo para as pessoas, para o acolhimento...
Esse é um verdadeiro problema. Os padres têm a tentação de ser gestores, burocratas, às vezes tecnocratas da caridade. Mas é decisivo viver acolhendo, escutando, nas relações quotidianas.
E a caridade, para um padre, passa por aí?
Pelo acolhimento do diferente, do pobre, do sofredor, do estrangeiro, no quotidiano. Não pela organização da caridade, mas como escuta de quem está diante.
Fala de uma religião de intermitência de muitos cristãos. A mensagem da hierarquia não passa?
[Passaria] mais se fosse uma mensagem que colocasse no centro Jesus Cristo e a sua humanidade. São caminhos de humanização que interessam o homem e encontram a sua imagem em Jesus Cristo.
Não são os dogmas e regras...
Não são as regras, os ritos nem os dogmas que dizem o cristianismo. O cristianismo ou se conjuga em termos de humanização ou se torna irrelevante.
Hoje já há uma grande indiferença perante o cristianismo...
A indiferença vive e prospera quando não se põe em evidência a diferença. Os cristãos [devem saber] mostrar uma verdadeira diferença a respeito da sociedade e do homem. Se não emerge a diferença cristã, a indiferença torna-se a grande dominante da nossa sociedade.
O cristão tem que ser diferente?
Em tudo: no comportamento, na comunicação, na comunhão, no modo de viver, um cristianismo que plasme todo o homem.
Também na política? Houve políticos católicos que, sobre a guerra do Iraque, diziam que aceitavam o Papa, mas que esse era outro assunto...
Não é possível. Há uma inspiração cristã que deve ser salvaguardada. As técnicas e as políticas pertencem ao homem e não ao pormenor do evangelho. Mas a inspiração, sim. E, na paz, joga-se o testemunho cristão no futuro.
Como se vive essa diferença em sociedades laicas?
É mais fácil fazer emergir a gratuidade do evangelho, a liberdade do cristão. É necessária muita coerência, mas a mensagem cristã é mais escutada numa sociedade laica em que o evangelho é proposto, do que numa civilização de cristandade em que o evangelho seria imposto. É difícil, mas é mais fecundo e dá mais frutos.