Viseu é a maior cidade da Europa sem ligação ao caminho-de-ferro

Expectativas sobre a alta velocidade têm comprometido solução mais rápida e barata da ligação da cidade à Linha da Beira Alta

"Viseu é a maior cidade da Europa continental que não é servida pelo caminho-de-ferro", disse ao PÚBLICO o especialista em Transportes Manuel Tão, à margem do 4.º Encontro da Transportes em Revista, que se realizou na terça-feira em Lisboa. "Causa perplexidade como é que, tendo sempre existido disponibilidades financeiras para beneficiar os eixos rodoviários de centros urbanos com mais de 90 mil habitantes, como Viseu, tem prevalecido uma completa ausência de vontade política para colmatar a pouca distância que separa a cidade da modernizada Linha da Beira Alta", acrescentou o mesmo especialista, que considera "absurdo" estar-se à espera da linha do TGV Aveiro-Salamanca, "que provavelmente demorará décadas a ser construída", para acabar com este isolamento.Doutorado em Economia de Transportes, Manuel Tão diz que voltar a ligar Viseu à rede convencional "deveria constituir um desígnio nacional nas políticas de obras públicas prioritárias dos anos próximos, aproveitando-se o facto da região permanecer elegível para Fundos Europeus de Objectivo I, no próximo Quadro Comunitário de Apoio".
No entanto, a Refer, no seu plano de investimentos para 2005, não tem qualquer verba afecta para estudar sequer esta ligação, embora exista já algum trabalho feito sobre a possibilidade de se construir um desvio à Linha da Beira Alta, entre Mangualde e Nelas (ou Santa Comba Dão), para servir Viseu.
De acordo com Rui Reis, porta-voz da empresa gestora de infra-estruturas ferroviárias, a questão do isolamento de Viseu está a ser considerada no âmbito do projecto da alta velocidade, que prevê um corredor de TGV entre Aveiro e Salamanca, a construir entre 2011 e 2015.
Esta foi, de resto, a promessa do Governo de Durão Barroso, embora o cumprimento daquelas prazos pareça hoje pouco crível, dado que os recursos disponíveis têm sido aplicados no desenvolvimento das linhas Porto-Lisboa e Lisboa-Madrid.
Manuel Tão diz que não há "perspectivas reais" de o acesso de Viseu à rede de alta velocidade ver o início das obras "antes de 2020" e a exploração do sistema a arrancar "antes de 2025". Lembra que o projecto da alta velocidade custa 2,2 mil milhões de euros, enquanto a simples ligação de Viseu à Linha da Beira Alta, em rede convencional, nunca ultrapassaria os 250 milhões de euros, poderia beneficiar de uma comparticipação do Feder de 34 por cento a fundo perdido, e ficar concluída em 2012.
Actualmente, a cidade é servida pelas estações de Nelas e Mangualde, mas com uma estação a construir na zona do Hospital de S. Teotónio ou do Palácio dos Desportos, a viagem Viseu-Lisboa, num comboio Intercidades convencional, poderia demorar apenas duas horas e 30 minutos. "Isso tornaria o transporte ferroviário atractivo e retiraria, seguramente, um trânsito significativo da estrada", prevê Manuel Tão. Por outro lado, este especialista adverte que esta solução não era incompatível com o projecto do TGV, desde que a estação a construir fosse concebida para funcionar como plataforma intermodal, onde pudessem coexistir a alta velocidade e a ferrovia clássica.
Viseu ficou sem comboios no dia 1 de Janeiro de 1990, quando fechou a Linha do Vouga, que ligava a cidade a Aveiro. O ramal para Santa Comba Dão já tinha sido encerrado em 1988.
O isolamento ferroviário de Viseu do restante território de Portugal assemelha-se muito ao caso da cidade inglesa de Mansfield (na região de Nottingham), que, com os seus 85 mil habitantes, foi até ao fim da década de 90 o maior centro urbano da União Europeia sem caminho-de-ferro. Mansfield foi privada do transporte ferroviário nos anos 60, quando se desmantelaram muitas linhas regionais em toda a Grã-Bretanha. Mais tarde, com o aumento demográfico, foi-se tornando claro que a situação da cidade era insustentável, pois tinham-se construído itinerários principais e vias rápidas que se encontravam em congestionamento permanente. O Governo de Londres autorizou então a reabertura da linha de Mansfield, tendo sido necessário reassentar a via por completo e reconstruir estações desaparecidas do mapa quase três décadas antes. Com o regresso do comboio àquela cidade inglesa, ficou Viseu no em primeiro lugar na lista das maiores cidades sem caminho-de-ferro. Manuel Tão ressalva, contudo, que os critérios que concedem a Viseu este estatuto não contaram com eventuais cidades-dormitório com idêntico número de habitantes nem consideraram cidades maiores que Viseu, mas localizadas em ilhas, como são os casos do Funchal e Tenerife.