Ex-maoistas

%Clara Viana

Os numerosos ex-maoístas portugueses que são hoje figuras públicas respiram de alívio quando olham para o passado: "Felizmente nunca tomámos o poder", resume Maria José Morgado, 52 anos, procuradora-geral adjunta no Tribunal de Relação de Lisboa, militante do MRPP entre 1972 e 1975, onde, segundo a própria diz, integrou o grupo "mais fanático" da organização.A seu lado, entre esses mais fanáticos, alinhava Durão Barroso, que esteve no MRPP entre 1974 e 1977 - quando também era estudante em Direito -, uma aventura que para o ex-primeiro-ministro começou aos 18 anos. O "país de tanga", a célebre expressão com que se estreou na chefia do Governo, em 2002, não será estranha a estes tempos, embora na altura o seu vocabulário, apesar de inflamado, fosse bem mais rudimentar. Era, por exemplo, assim: "Fogo sobre a renegada Maria José Morgado", que foi o título da moção por ele apresentada quando a actual procuradora decidiu bater com a porta.Com Durão Barroso, fomos o primeiro país a exportar um ex-maoísta para a presidência da Comissão Europeia. Aconteceu no mês passado e tornou-se no "fait-divers" de momento da imprensa internacional. Será apenas mais uma bizarria? Certo é que os ex-maoístas se tornaram hoje incontornáveis na sociedade portuguesa. Mudaram, uns mais cedo do que outros, mas não desapareceram na multidão anónima. Estão sobretudo onde o seu passado os levou - na superestrutura, como se diria então, que é o terreno da ideologia. Da palavra, que aprenderam a dominar quase na perfeição e que é também, para a maioria, a base da sua formação académica, quando a completaram.Estão nos media - na direcção do Público, do "Expresso", da "Grande Reportagem", da Dois e na administração da RTP1, por exemplo - e no mundo universitário, como também sucede em França. Mas ainda, o que é mais raro, nas direcções dos dois principais partidos políticos portugueses, o que significa que continuam a disputar o poder. Vários deles, aliás, exerceram já funções governativas. Exemplos: Durão Barroso, claro, mas também os socialistas José Lamego, Jorge Coelho, Maria João Rodrigues ou o social-democrata Nuno Ribeiro da Silva, agora presidente da Somague Ambiente. À semelhança daquela que foi na Polícia Judiciária o rosto do combate contra a corrupção e a criminalidade, os socialistas Jorge Coelho, José Lamego, Ana Gomes, Pedro Bacelar de Vasconcelos, bem como os jornalistas José Manuel Fernandes, director do PÚBLICO, Manuel Falcão, director do canel Dois, e João Mesquita, antigo presidente do sindicato dos jornalistas, a dirigente da comunidade israelita de Lisboa, Esther Mucznik, e o académico António Costa Pinto - que foram os nossos 10 interlocutores nesta incursão pelo passado - subscrevem essa curiosa particularidade que é a de estarem satisfeitos por terem sido derrotados.Em diferentes organizações, todos eles foram em jovens maoístas. Embora meter no mesmo saco os militantes do MRPP e os que pertenceram ao universo das chamadas organizações "ml" (marxistas-leninistas) seja talvez simplista (e à época impensável para eles). Seja como for, estavam com Mao Tsé Tung contra os "burocratas" da URSS e ainda e sempre com Estaline, o "pai dos povos" que começara a ser excomungado por Moscovo nos anos 50 devido aos crimes cometidos, e também vários deles, com Enver Hodja, o tirano da Albânia. Em conjunto, todos estes três, somam por muitos milhões o número de vítimas de que foram feitas as suas experiência no poder. Para a maior parte dos "ex" que agora nos interessam, este passado ficou arrumado até 1980. Os do MRPP foram os que saíram primeiro, os dos grupos "ml" estenderam a corda até mais tarde. A aventura, no que à maioria diz respeito, começara antes do 25 de Abril, quando a democracia era ainda uma miragem distante em Portugal. Para os critérios de hoje eram espantosamente novos quando tudo começou para eles: tinham entre 14 e vinte e poucos anos, uns estavam nos liceus outros já na faculdade, oriundos na maior parte de famílias burguesas e até brasonadas, caso do ex-governador civil Braga, Pedro Bacelar de Vasconcelos. Com uma juventude deveras atribulada como foi a deles, o que lhes garantiu então o sucesso que conhecem hoje? Um resumo possível, segundo vários: eram bons, mudaram a tempo, estavam no lugar certo à hora certa. "No final dos anos 60, princípios de 70, o que havia de mais brilhante na juventude universitária era esquerdista", responde José Lamego, 50 anos, que entrou para o MRPP em 1971, quando estudava na Faculdade de Direito, e abandonou aquele partido pouco depois do 25 de Abril, acabando por se filiar no PS vários anos depois, em 1985.Eram, portanto, os mais bem preparados, segundo este ex-candidato à liderança do PS, que foi secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e, a convite dos Estados Unidos da América, integrou a administração provisória do Iraque. Claro que para pertencer à elite política é necessário partilhar do mesmo espaço que na Europa é aquele onde se disputa o poder, grosso modo entre a social-democracia ou a democracia liberal, que no essencial são também hoje os grandes campos de pertença destes ex-maoístas.Para António Costa Pinto, investigador no Instituto de Ciências Sociais, que em 1971, quando tinha 17 anos e estudava no liceu Pedro Nunes, iniciou um percurso pelas organizações maoístas que viriam a estar na génese da UDP, esta ascensão foi propiciada pela situação vivida em Portugal: "Não remete tanto para o facto de termos sido maoístas ou comunistas, mas sim para a natureza relativamente elitista do nossos sistema político. Ao contrário de hoje, as elites universitárias eram muito pequenas e a politização nos anos 60 muito forte".E porque não outros ex? Do PCP, por exemplo? "Porque no geral cindiram mais tarde", frisa Costa Pinto. José Manuel Fernandes, que se estreou na militância "ml" no final de 1972, quando tinha 15 anos e também frequentava o Pedro Nunes, especifica: os dissidentes comunistas mais conhecidos esperaram pela queda do muro e do bloco de Leste para cindir. Estava-se no final dos anos 80 e o espaço a que poderiam aceder já estaria ocupado.Uma questão então de mera oportunidade? Não só, frisa José Lamego: "As pessoas do PC dificilmente fazem uma ruptura radical como a nossa. Existe um complexo de culpa que permanece nos militantes comunistas que saem". Para o dirigente socialista, as diferenças de futuro são também explicadas pelo modo como se esteve no passado: "A nossa ideologia era menos aderente à realidade que a do PC, que tinha uma outra implantação, mais pesada". Ao contrário do Partido Comunista, a extrema-esquerda teria já interiorizado o que então ainda não sabia - que pela sua dimensão não disputava seriamente o poder. Esta componente grupuscular, em que os vários grupos maoístas se degladiavam também pelo reconhecimento da China ou da Albânia, ajudará a que a ruptura se faça sem o luto pelos mortos da ideologia. Uma invejável leveza face ao passado destes ex-maoístas. Culpa? Algumas respostas:Maria José Morgado: "Responder pela positiva seria até megalómano. Éramos um grupelho, um pequeno grupo de fanáticos teimosos. Não tínhamos nenhuma ligação à China. Nunca causámos dano a ninguém",.José Manuel Fernandes: "Fazíamos aquilo em que acreditávamos e eu nunca fiz nada que achasse irremediável". Jorge Coelho, que entrou no universo das organizações "ml" ao entrar para o Instituto Superior de Economia em Lisboa, no princípio dos anos 70, quando rondava os 20 anos: "Tenho muito orgulho do que fiz na vida. Era um radical, não tinha razão, mas o objectivo era de lutar pela liberdade. Era ser jovem e poder acreditar na possibilidade de um mundo melhor. Não me arrependo de nada". José Lamego:"É o período da minha vida de que tenho mais orgulho. Claro que se tivéssemos ganho teria sido um desastre".Pedro Bacelar de Vasconcelos, que aderiu aos "ml" entre 1971 e 1972, quando tinha 20 anos: "Guardo as melhores recordações de tudo o que fiz nesses tempos e tenho muito orgulho dos riscos que assumi e da indignação profunda que me impediu de seguir a via mais fácil do conformismo merdoso, então dominante".Mas além do combate ao fascismo, para vários destes ex-maoístas há um outro factor que contribui para que se sintam hoje com a consciência tranquila: o de terem sido, depois do corte, dos mais persistentes acusadores públicos no que às experiências comunistas diz respeito. "Assumimos uma ruptura com o sistema e essa ruptura foi pública", refere Costa Pinto. José Manuel Fernandes acrescenta: "É um pouco como o que se passa com a fé. Quando se corta fica-se contra. Foi o que aconteceu quando se percebeu que o que defendíamos era uma ilusão e ainda por cima uma ilusão trágica. Não é uma coisa a que se possa ser indiferente, permanecendo em silêncio. Tem que se dizer que é um desastre, que conduz ao desastre e que só se pode ser contra".Estes ex-maoístas parecem assim convictos que saíram sem mácula desta sua incursão pelo lado totalitário da História. Mas o que é que os levou lá? Nos anos 60, Portugal era um país que "matava", uma "imensa placa de chumbo que se abatia sobre nós", recorda Esther Mucznik, que aderiu às organizações "ml" em 1972, quando tinha 24 anos e ainda vivia em Paris, onde já fora apanhada pelo Maio de 68. Como ela, a maior parte destes "ex" foi gente que começou por dizer não a este estado de coisas. Ao fascismo, à guerra colonial, à repressão nas escolas. A ideologia veio depois. O maoísmo não tanto num primeiro momento por causa de Mao ou da China, mas sim porque eram, segundo dizem, os que na altura estavam mais presentes no movimento associativo. E também os que eram detentores de um estilo "mais aguerrido".Ana Gomes confessa que entrou na faculdade de Direito, em 1972, com a ideia fixa de se juntar a algum grupo activo contra a guerra colonial. "Fui à cantina da cidade universitária literalmente 'shopping around'. Estava à procura de quem eram os tipos que se mexiam e quem me atraiu foi esse grupo de pessoas ligado ao MRPP". Porquê? "Tinham um discurso muito activo contra a guerra e que não era estereotipado", recorda, acrescentando outra dimensão: "