Ex-maoistas

%Clara Viana

Os numerosos ex-maoístas portugueses que são hoje figuras públicas respiram de alívio quando olham para o passado: "Felizmente nunca tomámos o poder", resume Maria José Morgado, 52 anos, procuradora-geral adjunta no Tribunal de Relação de Lisboa, militante do MRPP entre 1972 e 1975, onde, segundo a própria diz, integrou o grupo "mais fanático" da organização.A seu lado, entre esses mais fanáticos, alinhava Durão Barroso, que esteve no MRPP entre 1974 e 1977 - quando também era estudante em Direito -, uma aventura que para o ex-primeiro-ministro começou aos 18 anos. O "país de tanga", a célebre expressão com que se estreou na chefia do Governo, em 2002, não será estranha a estes tempos, embora na altura o seu vocabulário, apesar de inflamado, fosse bem mais rudimentar. Era, por exemplo, assim: "Fogo sobre a renegada Maria José Morgado", que foi o título da moção por ele apresentada quando a actual procuradora decidiu bater com a porta.Com Durão Barroso, fomos o primeiro país a exportar um ex-maoísta para a presidência da Comissão Europeia. Aconteceu no mês passado e tornou-se no "fait-divers" de momento da imprensa internacional. Será apenas mais uma bizarria? Certo é que os ex-maoístas se tornaram hoje incontornáveis na sociedade portuguesa. Mudaram, uns mais cedo do que outros, mas não desapareceram na multidão anónima. Estão sobretudo onde o seu passado os levou - na superestrutura, como se diria então, que é o terreno da ideologia. Da palavra, que aprenderam a dominar quase na perfeição e que é também, para a maioria, a base da sua formação académica, quando a completaram.Estão nos media - na direcção do Público, do "Expresso", da "Grande Reportagem", da Dois e na administração da RTP1, por exemplo - e no mundo universitário, como também sucede em França. Mas ainda, o que é mais raro, nas direcções dos dois principais partidos políticos portugueses, o que significa que continuam a disputar o poder. Vários deles, aliás, exerceram já funções governativas. Exemplos: Durão Barroso, claro, mas também os socialistas José Lamego, Jorge Coelho, Maria João Rodrigues ou o social-democrata Nuno Ribeiro da Silva, agora presidente da Somague Ambiente. À semelhança daquela que foi na Polícia Judiciária o rosto do combate contra a corrupção e a criminalidade, os socialistas Jorge Coelho, José Lamego, Ana Gomes, Pedro Bacelar de Vasconcelos, bem como os jornalistas José Manuel Fernandes, director do PÚBLICO, Manuel Falcão, director do canel Dois, e João Mesquita, antigo presidente do sindicato dos jornalistas, a dirigente da comunidade israelita de Lisboa, Esther Mucznik, e o académico António Costa Pinto - que foram os nossos 10 interlocutores nesta incursão pelo passado - subscrevem essa curiosa particularidade que é a de estarem satisfeitos por terem sido derrotados.Em diferentes organizações, todos eles foram em jovens maoístas. Embora meter no mesmo saco os militantes do MRPP e os que pertenceram ao universo das chamadas organizações "ml" (marxistas-leninistas) seja talvez simplista (e à época impensável para eles). Seja como for, estavam com Mao Tsé Tung contra os "burocratas" da URSS e ainda e sempre com Estaline, o "pai dos povos" que começara a ser excomungado por Moscovo nos anos 50 devido aos crimes cometidos, e também vários deles, com Enver Hodja, o tirano da Albânia. Em conjunto, todos estes três, somam por muitos milhões o número de vítimas de que foram feitas as suas experiência no poder. Para a maior parte dos "ex" que agora nos interessam, este passado ficou arrumado até 1980. Os do MRPP foram os que saíram primeiro, os dos grupos "ml" estenderam a corda até mais tarde. A aventura, no que à maioria diz respeito, começara antes do 25 de Abril, quando a democracia era ainda uma miragem distante em Portugal. Para os critérios de hoje eram espantosamente novos quando tudo começou para eles: tinham entre 14 e vinte e poucos anos, uns estavam nos liceus outros já na faculdade, oriundos na maior parte de famílias burguesas e até brasonadas, caso do ex-governador civil Braga, Pedro Bacelar de Vasconcelos. Com uma juventude deveras atribulada como foi a deles, o que lhes garantiu então o sucesso que conhecem hoje? Um resumo possível, segundo vários: eram bons, mudaram a tempo, estavam no lugar certo à hora certa. "No final dos anos 60, princípios de 70, o que havia de mais brilhante na juventude universitária era esquerdista", responde José Lamego, 50 anos, que entrou para o MRPP em 1971, quando estudava na Faculdade de Direito, e abandonou aquele partido pouco depois do 25 de Abril, acabando por se filiar no PS vários anos depois, em 1985.Eram, portanto, os mais bem preparados, segundo este ex-candidato à liderança do PS, que foi secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e, a convite dos Estados Unidos da América, integrou a administração provisória do Iraque. Claro que para pertencer à elite política é necessário partilhar do mesmo espaço que na Europa é aquele onde se disputa o poder, grosso modo entre a social-democracia ou a democracia liberal, que no essencial são também hoje os grandes campos de pertença destes ex-maoístas.Para António Costa Pinto, investigador no Instituto de Ciências Sociais, que em 1971, quando tinha 17 anos e estudava no liceu Pedro Nunes, iniciou um percurso pelas organizações maoístas que viriam a estar na génese da UDP, esta ascensão foi propiciada pela situação vivida em Portugal: "Não remete tanto para o facto de termos sido maoístas ou comunistas, mas sim para a natureza relativamente elitista do nossos sistema político. Ao contrário de hoje, as elites universitárias eram muito pequenas e a politização nos anos 60 muito forte".E porque não outros ex? Do PCP, por exemplo? "Porque no geral cindiram mais tarde", frisa Costa Pinto. José Manuel Fernandes, que se estreou na militância "ml" no final de 1972, quando tinha 15 anos e também frequentava o Pedro Nunes, especifica: os dissidentes comunistas mais conhecidos esperaram pela queda do muro e do bloco de Leste para cindir. Estava-se no final dos anos 80 e o espaço a que poderiam aceder já estaria ocupado.Uma questão então de mera oportunidade? Não só, frisa José Lamego: "As pessoas do PC dificilmente fazem uma ruptura radical como a nossa. Existe um complexo de culpa que permanece nos militantes comunistas que saem". Para o dirigente socialista, as diferenças de futuro são também explicadas pelo modo como se esteve no passado: "A nossa ideologia era menos aderente à realidade que a do PC, que tinha uma outra implantação, mais pesada". Ao contrário do Partido Comunista, a extrema-esquerda teria já interiorizado o que então ainda não sabia - que pela sua dimensão não disputava seriamente o poder. Esta componente grupuscular, em que os vários grupos maoístas se degladiavam também pelo reconhecimento da China ou da Albânia, ajudará a que a ruptura se faça sem o luto pelos mortos da ideologia. Uma invejável leveza face ao passado destes ex-maoístas. Culpa? Algumas respostas:Maria José Morgado: "Responder pela positiva seria até megalómano. Éramos um grupelho, um pequeno grupo de fanáticos teimosos. Não tínhamos nenhuma ligação à China. Nunca causámos dano a ninguém",.José Manuel Fernandes: "Fazíamos aquilo em que acreditávamos e eu nunca fiz nada que achasse irremediável". Jorge Coelho, que entrou no universo das organizações "ml" ao entrar para o Instituto Superior de Economia em Lisboa, no princípio dos anos 70, quando rondava os 20 anos: "Tenho muito orgulho do que fiz na vida. Era um radical, não tinha razão, mas o objectivo era de lutar pela liberdade. Era ser jovem e poder acreditar na possibilidade de um mundo melhor. Não me arrependo de nada". José Lamego:"É o período da minha vida de que tenho mais orgulho. Claro que se tivéssemos ganho teria sido um desastre".Pedro Bacelar de Vasconcelos, que aderiu aos "ml" entre 1971 e 1972, quando tinha 20 anos: "Guardo as melhores recordações de tudo o que fiz nesses tempos e tenho muito orgulho dos riscos que assumi e da indignação profunda que me impediu de seguir a via mais fácil do conformismo merdoso, então dominante".Mas além do combate ao fascismo, para vários destes ex-maoístas há um outro factor que contribui para que se sintam hoje com a consciência tranquila: o de terem sido, depois do corte, dos mais persistentes acusadores públicos no que às experiências comunistas diz respeito. "Assumimos uma ruptura com o sistema e essa ruptura foi pública", refere Costa Pinto. José Manuel Fernandes acrescenta: "É um pouco como o que se passa com a fé. Quando se corta fica-se contra. Foi o que aconteceu quando se percebeu que o que defendíamos era uma ilusão e ainda por cima uma ilusão trágica. Não é uma coisa a que se possa ser indiferente, permanecendo em silêncio. Tem que se dizer que é um desastre, que conduz ao desastre e que só se pode ser contra".Estes ex-maoístas parecem assim convictos que saíram sem mácula desta sua incursão pelo lado totalitário da História. Mas o que é que os levou lá? Nos anos 60, Portugal era um país que "matava", uma "imensa placa de chumbo que se abatia sobre nós", recorda Esther Mucznik, que aderiu às organizações "ml" em 1972, quando tinha 24 anos e ainda vivia em Paris, onde já fora apanhada pelo Maio de 68. Como ela, a maior parte destes "ex" foi gente que começou por dizer não a este estado de coisas. Ao fascismo, à guerra colonial, à repressão nas escolas. A ideologia veio depois. O maoísmo não tanto num primeiro momento por causa de Mao ou da China, mas sim porque eram, segundo dizem, os que na altura estavam mais presentes no movimento associativo. E também os que eram detentores de um estilo "mais aguerrido".Ana Gomes confessa que entrou na faculdade de Direito, em 1972, com a ideia fixa de se juntar a algum grupo activo contra a guerra colonial. "Fui à cantina da cidade universitária literalmente 'shopping around'. Estava à procura de quem eram os tipos que se mexiam e quem me atraiu foi esse grupo de pessoas ligado ao MRPP". Porquê? "Tinham um discurso muito activo contra a guerra e que não era estereotipado", recorda, acrescentando outra dimensão: "O MRPP não era para os fracos de coração. Tinha que se ter coragem e determinação. O PC recolhia assinaturas a pedir a reforma democrática das universidades, nós andávamos à porrada com os gorilas".Também para José Lamego a adesão foi quase natural: "Em 1971, em Direito, o MRPP era o grupo mais activo, mais dinâmico no debate de ideias". Mas Lamego insiste - é o único - que nunca foi maoísta. Marxista-leninista, sim. Mas maoísta não: "Sempre tive a maior distância em relação à experiência chinesa. Aliás sempre me acusaram de desvios burgueses e só me toleravam porque eu era muito firme no combate. Principalmente no combate contra a polícia política". Lamego foi preso três vezes antes do 25 de Abril. Estava aliás na cadeia quando aconteceu a "revolução". Chegou a ser ferido na perna com uma bala, em 1972, quando o estudante e militante do MRPP, Ribeiro Santos, foi morto pela PIDE no Instituto Superior de Economia. João Mesquita tinha então 15 anos "Lembro-me de pensar: então andam aos tiros e o pessoal aqui a distribuir papéis". Ele estava no liceu Camões, o mais repressivo da cidade de Lisboa e quem sabe do país inteiro. Foi abordado por um anarquista, espécimes raros por cá, e daí até a uma primeira reunião no Técnico e à formação de um primeiro núcleo do Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de Lisboa (MAESL) no Camões foi um passo rápido. No MAESL, como nas associações de estudantes das faculdades, havia claro quem andasse à pesca. Eram os que já pertenciam aos partidos e grupos clandestinos, que dominavam ou ansiavam por dominar os movimentos mais ou menos legais, como era o caso das associações, e que disputavam novos recrutamentos. Também estavam pelas ruas de Paris, no Maio de 1968, recorda Esther, a quem chocou aquela atitude premeditada de procura num contraste que parecia absoluto com a festa libertária das ruas de Paris, onde ela permaneceu ao longo de todo esse mês.João Mesquita foi recrutado pelos grupos "ml", onde nos liceus já figuravam José Manuel Fernandes e António Costa Pinto. Este último terá recrutado o segundo que, por sua vez, "pescou" o terceiro. O princípio para o director do PÚBLICO foi também o MAESL, logo a seguir à morte de Ribeiro dos Santos. Começou por ficar ligado à direcção aquele movimento e daí até ao grupo político que estava por detrás a distância foi curta: "Rapidamente senti que era a minha casa. Nessa época as informações sobre a China e a Revolução Cultural apelavam a um lado mais libertário e radical, que se encontrava também presente na facção a que aderi". Manuel Falcão aderiu à UDP já depois do 25 de Abril, quando frequentava Medicina, tinha então 20 anos. Assumia-se como "marxista-leninista-maoísta" . O que queria dizer, para ele, que pertencia a um dos campos do mundo comunista. "A um chamávamos revisionista e a outro não revisionista, que era o meu. A vida era tão simples como isso".Para eles, o PCP era um partido "velho" e "cinzento". "Ninguém na minha geração punha sequer a questão de aderir ao PC", sustenta Esther. Nestes anos pós-Maio de 1968, quando a nata da intelectualidade francesa, com Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir à cabeça, tinha sucumbido também aos apelos da revolução cultural chinesa, a aventura maoísta não se limitou por cá a acontecer por acaso, como sublinha Costa Pinto: "São percursos ideológicos que remetem para a temperatura da época. Esta marca de época é tão importante como a luta contra a ditadura".Pesaram mais os afectos, a razão ou uma mistura de ambos? Fosse o que fosse, para vários deles o mergulho foi total, prolongou-se por anos e invadiu todos os níveis da sua vida. "Estava no partido a sério e era a doer. Ninguém tinha tempo para estudar ou para tratar da vida pessoal. Era um inferno. Só tratei da minha vida depois de sair", conta Maria José Morgado. O que aconteceu no final do Verão quente de 1975. Saiu ela e o marido, o agora conhecido fiscalista Saldanha Sanches. Maria José Morgado voltou ao curso de Direito, ainda tentou um ano na UDP, mas depois abandonou os partidos. Até agora para sempre. "A minha candidatura ao Ministério Público, em 1980, arrumou essa fase".A 25 de Abril de 1974, Ana Gomes estava suspensa da Faculdade de Direito e encontrava-se já a trabalhar como secretária num empresa de congelados. Conta que o MRPP a chamou de volta à faculdade por volta de Novembro de 1974 quando o objectivo era tomar o poder ao PC que entretanto se apoderara da escola. Chamaram-na já então pela sua facilidade de discurso, de "contacto com as massas". Para Ana Gomes foi um regresso em "fulltime". Mas não para estudar: "Foi uma revolução na minha vida". Pôs-lhe termo em 1976, o que significou também perder quase todos os amigos que tinha. Voltou a trabalhar como secretária em empresas e aos estudos à noite. Acabou o curso em 1979, tendo-se candidatado depois ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde iniciou uma carreira que só interrompeu há dois anos, quando aderiu ao PS e passou a integrar a sua direcção.Depois do 25 de Abril, João Mesquita não voltou propriamente a estudar, mesmo quando frequentava o Passos Manuel, para onde fora depois de expulso do Camões. Pelo caminho esteve destacado dois anos para os bairros degradados da capital. Objectivo: implementar comissões de moradores. José Manuel Fernandes também abandona os estudos em 1976, por razões de ordem pessoal. Casou, precisava de trabalhar. Iniciou assim sua carreira de jornalista, em boletins partidários. Quando o jornal da UDP, "Voz do Povo", acabou, no princípio dos anos 80, foi para o "Expresso". Diz que Francisco Pinto Balsemão gostava particularmente de trabalhar com ex-esquerditas. Os porquês ficam para mais tarde.Manuel Falcão nunca acabará Medicina. Deixa-se tentar pelo jornalismo, pela fotografia. O princípio é também na "Voz do Povo". Depois fundou o "Blitz" estará também à frente do "Sete", do "Independente", entre outro órgãos. Já nos anos 90 entrou no círculo próximo de Pedro Santana Lopes: a convite deste foi presidente do Instituto Português de Cinema e chefe de gabinete do agora primeiro-ministro, quando este era secretário de Estado da Cultura.Jorge Coelho interrompeu o curso em 1974 para trabalhar no Ministério da Administração Interna. Só acabou a licenciatura em gestão de empresas em 1982, a estudar à noite. Um ano depois entra para o PS. Esteve em Macau entre 1988 e 1991, nos governos de Carlos Melancia. Mais uma vez a questão era a China. Não foi ele que a resolveu, mas ajudou-lhe a resolver outra: "Aqueles três anos deram-me bem para poder constatar que o que tínhamos defendido era uma utopia que teve consequências terríveis para a China".Ana Gomes também esteve na China, mas já em 1985, quando era assessora diplomática do então Presidente António Ramalho Eanes: "Foi nesses 15 dias que percebi que a Revolução Cultural tinha sido uma coisa tremenda para os chineses".José Lamego terminou a licenciatura em 1976. Aderiu ao PS em 1985. Diz que o apelo já lhe vinha do acalorado ano de 1975. "Para mim, o PS era o mal menor, já que garantia a liberdade. Mas achava que era um partido burguês. Lembro-me, no entanto, que em 1975 vi uma manifestação de operários da Lisnave a entoarem, 'Socialismo em Liberdade' que me fez reflectir muito".Em 1974, para Esther Mucznik ainda faltavam quatro anos para emergir da sua incursão na extrema-esquerda organizada. "Para mim foi como renascer", confessa esta judia, filha de judeus polacos, que em jovem tentou viver em Israel, mas que acabou em Paris para estudar sociologia na Sorbonne e porque a capital de França era em si mesmo sinónimo de liberdade. Uma enorme liberdade interior foi o que sentiu por lá até ceder ao "namoro" dos "ml", quatro anos depois do Maio de 68. Em 1972, já depois de como tantos deste movimento ter tido a sua experiência operária em fábricas de verdade, deu por si à procura de raízes. Assim como estava, não se sentia nem judia - tinha cortado com o judaísmo - nem portuguesa, nem ainda francesa. Mas começara a dar como certo que para fazer alguma coisa por Portugal tinha de estar organizada. "Entrei e a liberdade parou", constata. Regressou a Portugal após o 25 de Abril, visitou a Albânia por três vezes, foi dirigente maoísta até 1980. Quando bateu a porta, o regresso ao judaísmo acabou por se perfilar no seu horizonte. Terão eles mais em comum do que esta incursão pela extrema-esquerda? Pois é aqui que regressamos às preferências do patrão do "Expresso" e da SIC pelos maoítas. "Devido à nossa enorme capacidade de trabalho", justifica José Manuel Fernandes. Ainda mais fundo: ninguém que tenha sido formado em jovem nas organizações de extrema-esquerda pode sair igual aos outros que não tiveram esta experiência. Estavam lá a tempo inteiro, pertenciam a uma minoria activa, o que acarretava riscos vários, extremavam-se em aperfeiçoar a arte de transmitir convicções. Como tinham lido quase tudo, eram a seu modo, um grupo de iluminados.Jorge Coelho: "Características deste gente? Grande nível de preparação política, grande capacidade de trabalho e disciplina, de determinação". Ana Gomes: "Foi uma escola política que marca no tipo de racíocino, de análise e até de linguagem". O que justificará em parte, o ainda discurso inflamado da dirigente socialista: "Talvez ainda não esteja formatada de modo adequado". A ruptura, para a maior parte deles, começou pela constatação que o ambiente nas suas organizações se tornara "insuportável", concentracionário. E também pelo que dizem ser a "falta de sentido" que de repente encontraram na sua militância. Foi esta a experiência de Maria José Morgado e de Ana Gomes. Tinha acontecido o 25 de Abril, existia liberdade, mas eles continuavam a actuar como se ainda fosse o fascismo. Este desapego da realidade sentiu-o Ana Gomes com toda a força quando foi obrigada a isolar-se em casa com a sua filha, de seis meses, que apanhara uma pneumonia durante as suas constantes andanças com a mãe.Foi na segunda das suas três idas à Albânia que Esther Mucznik se começou a aperceber da "cassete" sempre igual que os trabalhadores debitavam para os visitantes estrangeiros e sobretudo do modo como Enver Hodja e a sua mulher eram tratados. "Como se fossem deuses", recorda. Quando lá chegava tinha de despir as calças de ganga, proibidas pelo regime. Espantou-se ao saber que também a contracepção era proibida e que por isso os seus camaradas albaneses estavam remetidos ao coito interrompido. O princípio do fim deu-se, assim, quando se apercebeu que o país que apontava como exemplo "seria o último em que queria viver". Depois, com a normalização da vida política em Portugal, as pessoas da sua organização começaram a mostrar o que de facto eram - "profundamente "conservadoras". Ainda hoje ela não consegue esconder o "asco" que as permanentes sessões de crítica e autocrítica, abrangendo inclusive a vida sexual, lhe começaram a causar: "Aceitávamos perder a dignidade".António Costa Pinto, José Manuel Fernandes, Manuel Falcão e João Mesquita têm uma descolagem quase em comum. Começaram por se opôr à estratégia sectária da organização em Portugal. A ideologia veio depois: "O Estaline só começou a ser questionado em 1979, quando se dá primeira cisão no PCP (R)", lembra João Mesquita. Na altura, até mesmo para eles, começara a ser perceptível que havia um mesmo modelo por detrás da URSS, da China, da Albânia. Que as coisas não se poderiam explicar por simples erros, que "havia um padrão comum a todas as experiências". Mas foi preciso esperar pelos anos 90 para que a José Manuel Fernandes lhe caísse em cima "o lado negro e trágico da Revolução Cultural chinesa". Aconteceu com a leitura de "Cisnes Selvagens", o livro de Jung Chang que está para a China como o "Arquipélago de Gulag" esteve para a URSS. Devastador. Um arrepio: "Quando li este livro uma das coisas que me impressionou naquele tipo de vida, na dedicação que era exigida, é que aquilo era muito parecido com o que tinha vivido nas organizações a que pertenci".Alguns curaram as feridas no chamado Clube da Esquerda Liberal, já nos anos 80. Ficaram vacinados. É o que assumem, pelo menos. "Quando se acredita numa verdade absoluta e depois acontece o descalabro fica-se a perceber melhor o relativismo das coisas. Tornei-me assim uma pessoa muito anti-dogma", descreve Maria José Morgado. "Ter sido maoísta faz-me sentir muito mais vigilante, ter muito mais cuidado com as tomadas de posição, ter um muito maior apego às instituições e à democracia liberal. É preciso não forçar demasiado o sistema porque a democracia é um bem frágil", diz Costa Pinto, que precisamente elegeu como sua área privilegiada de estudo a democracia e o autoritarismo. O que são então eles hoje? José Lamego propõe uma grelha: "Há duas camadas geracionais: a dos militantes esquerdistas contra a ditadura e que está à esquerda. E a experiência esquerdista em afrontamento com o PC e que está à direita. Foram formados na luta contra o PC". É o caso, entre outros, de Durão Barroso. Mas como em tudo na vida, também há excepções. A maioria diz-se mais à esquerda do que à direita. Mas os que estão mais perto deste campo afirmam-se ainda contagiados pelo que foi sempre pertença tradicional da esquerda: a preocupação pela justiça social.Pedro Bacelar de Vasconcelos foi um dos poucos ex-maoístas portugueses que optou por conhecer de perto a classe que namorava. Em 1973 foi trabalhar para as fábricas: "No essencial continuo a orientar-me pelos mesmos princípios e valores que no tempo do fascismo ditaram as minhas opções políticas radicais: o amor à liberdade, o respeito pelos outros e a convicção de que 'não há salvadores supremos'". José Lamego: "Sou um socialista liberal. Estou convicto de que a liberdade individual das pessoas é o princípio para uma política de esquerda. O que é a esquerda? Defender a liberdade e um sistema meritocrático e distributivo. A direita? São os defensores da tradição e do privilégio".Jorge Coelho: "Considero-me um humanista. Três pilares que considero fundamentais na esquerda: firmeza, tolerância, solidariedade. Para a direito é o egoísmo e o lucro".E os que não voltaram aos partidos, como se definem? Duas respostas entre outras: Manuel Falcão: "Mais no centro-direita que outra coisa. Sou um anarquista de direita com preocupações sociais. Considero que continua a haver uma esquerda e uma direita, mas que tanto uma como outra dão cada vez menos importância aos problemas sociais. As demarcações seriam mais fáceis se o centro não fosse tão marcante em Portugal. O que faz por exemplo que as diferenças entre PSD e PS sejam essencialmente de estilo e não substantivas. Faria talvez falta um bloco de direita. Facilitava as coisas em termos de clarificação".José Manuel Fernandes: "Indo pela forma como chego às minhas ideias diria que a esquerda privilegia mais a igualdade e a direita a liberdade, que essa é uma das divisões possíveis. Então para mim a liberdade é um bem mais essencial. Mas a preocupação com o progresso das sociedades é também um dos meus critérios. É ser de esquerda? Diria que sou do centro, mas um centro que não é o centrão, onde tudo se esbate, mas um centro radical. Reformista, mas não revolucionário".