Max Viana

Dos três filhos adultos de Djavan é ele o irmão do meio. Flávia Virgínia, a mais velha, estreou-se em 2002 com o CD "Livro-Mãe" e foi elogiada pela crítica. João Viana, o mais novo, foi baterista de Cássia Eller até à morte inesperada da cantora, em Dezembro de 2001. Max Viana, por sua vez, sempre tocou como guitarrista ao lado de Djavan. A sua emancipação ocorreu em Lisboa, no passado dia 2 de Julho, e teve direito a lágrimas. No palco do Coliseu, quando deu por findos os dois anos de "tournée" do álbum "Milagreiro", Djavan comoveu-se. Max, que naquela noite deixava vago o lugar de guitarrista na banda do pai, foi o primeiro a confortá-lo.Mas não foi um verdadeiro adeus. No seu disco, Max cuidou de reunir toda a família que canta ou toca algum instrumento: Djavan (numa curta parceria vocal), João e Flávia. Simplesmente, achou que chegara a vez de ele próprio mostrar a música que tem criado: "Quando comecei a compor, aos 16, 17 anos, não tinha bem a certeza do que queria, tirando o facto de já tocar como músico. Parei de compor e em 1998 recomecei. Com uma dúvida, muito comum a quem começa: será que as minhas músicas são iguais às que a gente ouve no rádio? Músicas que as pessoas podem gravar, que outros podem cantar? Então reuni essa banda que está aí, no disco, e gravámos três músicas. Gostei muito do resultado, da sonoridade, da concepção e pensei: vou realmente gravar um disco."Era sinal de que começava a levar-se a sério. É ele que o diz, entusiasmado, num hotel de Lisboa. Mas teve de esperar: "A gente estava saindo da tournée do 'Bicho Solto' e a entrar na do 'Ao Vivo' [dois discos de Djavan] e, por isso, a segunda gravação do meu disco só a fiz em 2000. Depois começámos com 'Milagreiro' Por isso foi um processo longo." Mas deu-lhe tempo para amadurecer: "Foi muito bom porque ficava ouvindo, pensando. No trabalho com o meu pai adquiri uma experiência que me possibilitou chegar onde eu queria. Podem gostar ou não, mas o mais importante é que estou muito satisfeito."música no sangue. Max Viana pertence a uma geração que já nasceu, não com música em casa (muita gente da geração anterior a teve) mas com músicos em casa: pais ou mães. É a primeira geração no Brasil em que essa ligação é hereditária. Vantagem ou desvantagem? "As duas coisas. Muita gente diz: 'Ah, o filho do Djavan lançou um disco, se não fosse filho dele não lançava...' Herdamos a simpatia de muitas pessoas mas também a antipatia de outras."O mesmo sucederá com outros músicos da sua geração como Max de Castro, Moreno Veloso, Jairzinho Oliveira, Pedro Camargo Mariano, Wilson Simoninha, na sua maioria filhos de músicos ilustres: "Acho todos eles muito talentosos. O Jairzinho é meu parceiro em duas músicas, o Pedro Mariano gravei no primeiro disco dele, sou amigo do Simoninha, enfim, acho que temos uma origem muito semelhante mas com resultados finais muito diferentes, o que é bom, porque revela a personalidade de cada um. Por exemplo, a gente tem a mesma história: pais famosos na música, ouvimos o mesmo tipo de coisas."Nascido no Rio de Janeiro, a 9 de Setembro de 1973 (tem, agora, 29 anos), Max teve, além do pai, milhares de discos a invadirem-lhe a casa: "Como as gravadoras enviavam todos os lançamentos para os artistas, a gente recebia muito disco de todo o mundo: jazz, rock, tudo o que se fazia no Brasil." Influência, por isso, teve muitas: "Tive uma fase João Gilberto, muito forte, com aquele disco 'Amoroso', tive uma fase de ouvir muito João Bosco, que foi uma grande escola para mim porque tem uma forma de tocar violão muito pessoal. E Lulu Santos, mais pop. Ou Stevie Wonder, Sting, Police, samba, Zeca Pagodinho..."A escolha do violão foi instintiva: "Desde cedo me interessei pelo mesmo instrumento que o meu pai tocava. Meu irmão não, ele já tocava nas panelas, em tudo." De 1992 a 1993 morou nos Estados Unidos, onde aprendeu guitarra e teoria musical. Voz, só estudou mais tarde: "O que me chamou para o canto foi a composição", admite. Cursou Economia porque queria "fazer uma faculdade": "Sempre achei que o convívio no meio universitário iria ser importante, como foi, com pessoas que tinham uma cultura maior." Mas não quis seguir música em termos académicos, embora já pisasse com segurança os palcos.amores quotidianos. "No Calçadão", o seu disco de estreia (que fez de música de fundo no Coliseu de Lisboa antes de Djavan entrar em palco), traz influências da música negra norte-americana, mas também da métrica balanceada do pai. "Acho que os nossos trabalhos são naturalmente diferentes. Não é forçado. Se não fosse filho dele, não fariam a comparação. Mas concordo que 'Sorrisinho' está próxima do universo musical do mau pai, das coisas mais pop que ele faz. 'Já foi', por exemplo, tem influência do DJ Patife, do drum'n bass."Para Max, "a música brasileira tem uma vantagem sobre outras músicas", que é a de ter no mesmo disco uma grande variedade rítmica e, ainda assim, conservar uma unidade. "Os discos do Gil, do João Bosco, do Caetano, têm reggae, xote, baião, rock, e tudo é música brasileira. Por exemplo: o meu disco tem músicas como 'Parte da gente', de influência totalmente electrónica, e tem 'Canções de rei', que é uma música de violão e cordas. Mas a unidade vem dos arranjos, da sonoridade. Músicas como 'No calçadão' ou 'Domingo de verão', por exemplo, têm um groove que vem totalmente do rhythm'n'blues norte-americano."Para a capa, escolheu uma imagem adequada: ele, de costas, num prédio-túnel que parece um boomerang: "Eu precisava de uma coisa urbana, sem ao mesmo tempo ser uma coisa bairrista do carioca. Esse lugar que a gente escolheu identifica muito o Rio, porque é um prédio muito famoso, embora nunca o tenha visto na capa de um disco. É um túnel que liga o Leblon a São Corrado. Moro na Barra e passo nele todo o dia."Já no que respeita às letras, Max assentou praça nas canções de amor e desamor, histórias contadas a uma só voz mas vividas a dois: "Não é intencional. Mas a maneira como sou, como falo, como me relaciono com as coisas, é muito objectiva. Então, quando vou fazer uma letra, acabo por usar essa linguagem do dia-a-dia, mais corriqueira. A música 'Já foi', por exemplo, é uma história real mas não foi vivida por mim. Foi um amigo meu que estava com um problema com a namorada, só que eu escrevi como se fosse ele." Os "hobbies" conferem: "Gosto muito de cinema, de ler, de desporto. Adoro futebol, jogo três vezes por semana. Mas na leitura, gosto mais de histórias quotidianas do que de poesia."