O sono dos famosos

Cutileiro não abdica da sesta, Marcelo precisa de pouco sono

Marcelo Rebelo de Sousa trabalha até às quatro, cinco da manhã e depois acorda às oito, oito e meia
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Marcelo Rebelo de Sousa trabalha até às quatro, cinco da manhã e depois acorda às oito, oito e meia Manuel Gomes

As noites de sono de Marcelo Rebelo de Sousa são curtas, mas profundas. O conhecido professor trabalha até às quatro, cinco da manhã, acorda às oito, oito e meia "conforme as circunstâncias". Mas não tem insónias, frisa. Dormir uma sesta está fora de questão, fá-lo "ficar mal disposto". O facto de nunca almoçar de faca e garfo e limitar-se aos iogurtes e uma tosta evita as "quebras" do início da tarde.

Dormir pouco tem "grandes vantagens", garante. "Durante o dia tenho aulas, a noite serve-me para ler livros, preparar programas de rádio ou de televisão, fazer os pareceres. À noite não há telefonemas, não há reuniões... A noite é, no meu caso, muito produtiva. A partir das 10, 10 e meia até às quatro da manhã há ali um conjunto seguido de cinco, seis horas que é muito importante em termos de trabalho intelectual. Os trabalhos mais difíceis são para o princípio da noite, para o fim deixo tarefas como agradecer a correspondência", explica.

"Muita gente pergunta como é que eu leio os livros todos que cito [como comentador da TVI, nomeadamente] - e muitos deles são lidos na diagonal", continua. A resposta, aí está: os livros, lidos por inteiro ou por alto, ficam para os momentos de paz nocturna.

Cada pessoa tem o seu ritmo, os seus hábitos, as suas necessidades (ver depoimentos). Hoje Marcelo Rebelo de Sousa dorme pouco e não se sente cansado. Mas no início, quando alterou os seus horários, custava-lhe. As noites de sono breve começaram no "Expresso", quando tinha de ficar à espera das provas que a censura retinha até às tantas. Com o tempo deixou de conseguir deitar-se cedo. Mas sabe que um dia, como lhe dizem os médicos, vai "pagar a factura" de tão pouco descanso.

Há, no entanto, quem acredite que a humanidade tem falta de momentos de pausa na correria dos dias. E tente incentivar quem pouco dorme a, pelo menos, fazer uma sesta. Esta semana nasceu a Associação Portuguesa dos Amigos da Sesta, pela mão de Prates Miguel, escritor e advogado, e do deputado socialista José Miguel Medeiros. O objectivo, dizem, é defender, divulgar e promover um período de descanso, a seguir ao almoço, como forma de aliviar o "stress" e melhorar a qualidade de vida.

"Fazer a sesta só faz sentido para quem trabalha"

Têm chovido os telefonemas de apoio e curiosidade. "Já ligaram da BBC, da Rádio Paris, dos Estados Unidos...", diz Prates Miguel, que, sempre que os afazeres profissionais o deixam, se estende no sofá do seu escritório em Ansião, a seguir ao almoço. Depois do curto sono descansado "o raciocínio fica mais expedito", garante.

"Não é promover a preguiça, fazer a sesta só faz sentido para quem trabalha. E nos dias de hoje há um desfazamento enorme entre o nosso ritmo biológico e os horários", acrescenta Miguel Medeiros, que também dorme sempre um bocadinho, após o almoço.

O impacto da iniciativa foi evidente. Pôs as pessoas a falarem de descanso. Bagão Félix, ministro da Segurança Social e do Trabalho, veio a público dizer que muitas vezes dorme uns 10 minutos, depois do almoço, quando chega ao gabinete, altura em que já vai na "sexta ou sétima hora" de trabalho. "O descanso é também uma forma de podermos trabalhar mais e melhor quando é necessário", declarou à TSF. E o ex-presidente da República Mário Soares aceitou ser sócio honorário da nova associação, fazendo assim justiça ao seu famoso hábito de não dispensar uma sesta curta a seguir ao almoço.

Já a deputada comunista Luísa Mesquita nunca se habituou à sesta, mas é das que considera que lhe faz falta dormir mais. Ideias bem diferentes tem o escultor João Cutileiro, 65 anos, que não abdica de "uma hora" de repouso, pelo menos, depois de almoço. E o momento "é sagrado". Não é para menos: todos os dias, é o noticiário da "Antena 1" das cinco da manhã que lhe serve de despertador, portanto à hora de almoço o dia já vai longo.

"Faço tudo para que não me estraguem a sesta, evito telefonemas e visitas. É assim: almoço, deito-me e leio o jornal, depois começo a adormecer e o jornal vai deslizando... Por volta das 15h30 acordo, mas funciona como no mergulho... é preciso um tempo de descompressão. E só me levanto às 16h00. Só depois dessa hora é que estou pronto para enfrentar o mundo novamente", relata.

A necessidade de retemperar forças não é de agora: "Lembro-me que aos 18, 19 anos, quando estudava na universidade, em Londres, saía a correr à hora do almoço para apanhar os primeiros lugares na cantina, despachar-me mais cedo e ainda ir dormir um bocadinho antes de as aulas começarem."

Teresa Paiva, neurologista, 55 anos, não só estuda os benefícios da sesta como a pratica. Depois da manhã inteira passada no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, entre as aulas e a investigação, tenta sempre passar por casa e dormir antes de começar a segunda parte do dia - a das consultas no consultório: "Bastam 20 minutos." A especialista garante que é uma maneira de evitar problemas de saúde, medicações erradamente indicadas e acidentes provocados pelo sono.

Uma coisa é certa, todas as personalidades contactadas pelo PÚBLICO acham que a ideia da associação dos amigos da sesta é interessante. Mesmo os mais avessos ao sono depois de almoço, como Marcelo Rebelo de Sousa: "Em Espanha a sesta é uma tradição e é um país mais produtivo do que o nosso. Nós não temos a sesta mas temos os cafezinhos: as pessoas vão almoçar e daí a uma hora precisam de um cafezinho, depois mais um bocado e precisam de outro café - e cada cafezinho dura meia hora. Acho que era possível fazer a sesta a seguir à refeição e cortar nos cafezinhos. Agora, eu confesso que não me estou a ver..."