Omar, que "son" tem!

Qual "son", qual jazz, qual cha-cha-cha, a música que Omar Sosa levou ao segundo dia do festival Matosinhos em Jazz é a música que as crianças e os poetas ouvem nos sonhos. Deslumbramento. O pianista cubano, que, na ocasião, tocou o repertório do seu mais recente álbum, "Sentir", mais uma série de inéditos a incluir no próximo disco, é um daqueles músicos que, faça o que fizer, é como se estivesse a participar na criação do mundo através do som.Omar cria a partir de cada nota, de cada ritmo, de cada pedaço do piano, mas a sua música é mais do que um simples alinhamento de formas. Habita nela uma energia primordial, um espírito quase infantil, em que o prazer da descoberta e a fruição do que se descobriu são as únicas regras de conduta a seguir. Em Matosinhos, o ritual incluiu cascatas rítmicas avassaladoras, "riffing" tribal e "trip'al", jogos de refracções e ecos com as notas do piano tratadas electronicamente. Diálogos com o silêncio e danças dervíshicas. Tradições de Cuba e romantismo, fúria e delicadeza, "clusters" infernais e o voo pacífico de pombas. A música subiu, subiu, sem parar.Lá no alto, o piano suspendeu-se numa conversa com melodias de vento geradas por um tubo de plástico posto a girar em diferentes velocidades pelo percussionista venezuelano Gustavo Ovalles. O mesmo piano inventou sinfonias instantâneas em contraponto com as matracas agitadas pelo argelino El Houssaine Kili que, noutros temas, acrescentou à música os rendilhados vocais da música árabe. Martha Galarraga, a cantora do grupo, cantou com o coração e fez música com gargalhadas. A seu lado, o "rapper" Breis conduziu parte da viagem. Termos como "paz", "liberdade", "felicidade" e "amor" libertaram-se do lastro do lugar-comum, para se oferecerem como evidências. Breis auto-hipnotizou-se em melopeias circulares, rendeu homenagem a várias figuras do jazz, ampliou "slogans" até os fazer emergir como evangelhos. E pôs o público a dançar, a estalar os dedos, a cantar. Luis Depestre, o saxofonista, swingou como um puto entusiasmado. E Omar a tocar as cordas e as teclas, a dedilhar o ar, a criar música a partir do simples movimento do corpo. Sabendo, como só os sábios (os sábios-criança) sabem, que a música, em última instância, é puro movimento. Comparada com esta música sem margens, a do sexteto de Paulo Perfeito, que abriu a noite de sexta-feira, pareceu vulgar. Há ali trabalho de composição, falta-lhe por enquanto o sopro vital.Domingo abriu com os brasileiros Airto Moreira e Flora Purim e o pianista português Miguel Braga. Em regime de improviso, nenhum brilhou. Braga acumulou lugares-comuns no piano e no sintetizador, sem espaço de manobra para mais. Flora mostrou pertencer àquele grupo de vozes com chama mas para as quais a afinação constitui um problema recorrente a resolver. Já para não falar da "gaffe" de se dirigir à assistência em francês e da qual passou depois todo o tempo a justificar-se, com lérias do tipo: "Não sou portuguesa nem brasileira, mas uma cidadã do planeta à espera que um disco-voador me venha buscar." Airto confirmou, por seu lado, não ser um baterista mas um percussionista de excepção. A ele se ficaram a dever dois momentos-chave: a reprodução (típica na sua música) de ambientes da selva amazónica e um solo de pandeireta e "scat" que fez sobressair o tipo de lógica intuitiva (passe o paradoxo...) que assoma aos músicos, poucos, que detêm o poder de estabelecer ligação directa com a fontes. O jazz "jazz" regressou com a Orquestra de Jazz de Matosinhos, dirigida pelos pianistas Carlos Azevedo e Pedro Guedes. Excelente na arquitectura colectiva com base num repertório original por vezes edificado sobre a planta de Gil Evans, a orquestra ofereceu largo espaço de destaque aos solistas, bem aproveitado por Andrés Tarabbia ("Pancho"), num imaginativo jogo de percussão, e Paulo Pinto, que disparou uma rajada certeira de guitarra eléctrica bem rockeira. Mas o melhor solista da noite foi o trompetista convidado Eric Vloeimans, o que se viria a confirmar, madrugada dentro, n