Entrevista à "Visão"

Portas: Nossa Senhora ajudou a salvar Portugal da maré negra do "Prestige"

Sobre o terrorismo, Portas afirma que "ou os apanhamos primeiro, ou eles apanham-nos a nós"
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Sobre o terrorismo, Portas afirma que "ou os apanhamos primeiro, ou eles apanham-nos a nós" Paulo Carrico/Lusa

O ministro de Estado e da Defesa, Paulo Portas, acredita que a maré negra provocada pelo acidente do petroleiro "Prestige" não afectou até à data a costa portuguesa por uma combinação de "decisões firmes" e a intervenção de Nossa Senhora de Fátima.

"Eu acho que Portugal, na crise do 'Prestige', foi ajudado por decisões firmes (que não permitiram a aproximação da fonte do problema...) e foi muito ajudado por aquilo que eu, que sou crente, acho que foi uma intervenção de Nossa Senhora", afirma Paulo Portas na entrevista publicada na edição de hoje da revista "Visão".

NATO é imprescindível

Abordando vários temas de política nacional e internacional, o ministro da Defesa diz desconhecer outra “organização de defesa colectiva que possa substituir a NATO”. Portas acredita que a Aliança ainda faz sentido, pois não consegue imaginar como poderia Portugal sobreviver sem a participação dos EUA na NATO e sem a própria NATO.

Para Portas, existem dois eixos do mal: um formado pelo terrorismo, armas de destruição maciça e Estados-párias, e outro formado pela “mistura entre a corrupção de regimes, pobreza de sociedades e fanatização de religiões que se verifica em várias partes do mundo”. Nestes dois eixos, considera Portas, a comuniadde internacional tem de ter um papel bastante acitvo no sentido de os combater com firmeza, para que não consituam ameças para as “sociedades livres”.

Portugal não está equipado com suficiente protecção nuclear, biológica e química (NBQ), mas Paulo Portas não acha que o país deva ficar de fora duma eventual guerra. No entanto, “só poderemos participar em missões para as quais estejamos preparados”, defendeu.

Quanto à questão iraquiana, Paulo Portas generaliza e fala do terrorismo em geral, afirmando que “ou os apanhamos primeiro, ou eles apanham-nos a nós. Uma posição de passividade conduz, em caso de ataque, a uma paranóia que põe em causa aspectos essenciais da nossa liberdade”, defendeu, afirmando ainda que “é decisiva uma grande pressão diplomática, com meios militares auxiliares que faça perceber ao regime de Bagdad que, ou desarma, ou é desarmado”.

“A segurança marítima, a poluição e os crimes ecológicos são uma questão de toda a União Europeia”

O ministro da Defesa acredita que, apesar de os jovens estarem, com o fim do Serviço Militar Obrigatório (SMO), mais afastados das Forças Armadas (FA), “o aumento do desemprego é provavelmente um canal de procura das FA”. Portas acredita também que a modernização das FA é uma necessidade pedida pelas próprias pessoas. “Sei que as pessoas a partir desta nova LPM já não procuram FA com equipamentos obsoletos, mas sim em vias de modernização ou em modernização”, afirma.

Quanto à compra de submarinos, que vai passar de três para dois, Portas afirma que “com dois sumarinos, podemos manter o essencial das missões”. Os sumarinos são “um meio que tem valências importantes no combate ao terrorismo, ao tráfico de droga e na protecção de outros meios navais, como as fragatas e o navio polivalente logístico”, afirma, defendendo que “a redução de três para dois submarinos permite uma poupança de 661 milhões de euros”. As negociações com os consórcios ainda estão a decorrer, pelo que o ministro afirmou que não podia “adiantar mais do que isto”.

Questionado sobre se Portugal está preparado para lidar com futuros acidentes iguais aos do "Prestige" com apenas dois navios de combate à poluição para toda a ZEE, o ministro foi claro. “Estou absolutamente convencido de que Portugal precisa de meios navais de combate à poluição. Tudo farei para que, depois do primeiro par de patrulhões, o segundo par de navios a construir sejam os do combate à poluição”, garantiu.

No entanto, Paulo Portas defende que “a questão da segurança marítima, da poluição e dos crimes ecológicos que danificam recursos estratégicos como o mar, é uma questão de toda a União Europeia”.

O ministro acredita que Portugal está preparado, caso a mancha do "Prestige" possa ainda descer para Portugal. “Continuo a acompanhar a situação, com a Armada. O 'Nautille' conseguiu fechar a maioria das fissuras por onde havia fugas de crude. O 'Prestige' ainda libertará 1,5 a duas toneladas diárias. Um derrame desta ordem tem uma capacidade de dissolução favorável. Mas não excluo ter a nossa prontidão preparada para qualquer eventualidade”, garantiu.

“Não há espaços para divergências graves entre órgãos de soberania”

Paulo Portas afirma que, apesar das diferenças de opinião sobre a Europa, é “lógico que dois partidos juntos no Governo façam juntos uma campanha eleitoral”.”No Governo italiano também há dois partidos que, depois, de se sentam em famílias políticas diferentes no Parlamento Europeu! Eu sou um 'eurocalmo'...”.

O ministro da Defesa acreditada que o mandato de Jorge Sampaio na Presidência da República tem sido bem cumprido. “Tem havido uma boa colaboração institucional entre o Governo e o PR. Por muito mérito do senhor primeiro-ministro e do senhor Presidente da Républica”. Aliás, Portas considera que para sair desta “situação muito difícil” em que o país se encontra, “esta cooperação institucional é fundamental. Não há espaços para divergências graves entre órgãos de soberania. Estamos a viver um momento de salvação nacional”.

Quanto às próximas legislativas, Paulo Portas defende a continuidade da AD. “Para conceber, lançar, executar e acompanhar os resultados das reformas necessárias são necessárias duas legislaturas”, argumenta. No entanto, não se sabe ainda se a AD irá concorrer junta ou se apenas será formada depois das legislativas. “Antes das legislativas, haverá novo congresso do CDS. E esse é que é o momento adequado para que nos pronunciemos sobre essa matéria”, afirmou.

Sobre a possibilidade de Manuel Monteiro formar um novo partido de direita, Portas foi bastante crítico: “O centro e a direita em Portugal já sofreram o suficiente com as suas divisões. Ou se está com o projecto da maioria, ou se está com o projecto da oposição”, declarou.

Sobre o caso Moderna, apenas esta consideração: “A única coisa que me interessa, nesse plano, é que qualquer semelhança entre 'o processo político' que me foi feito e a realidade judicial é mera coincidência”.