Baixa de Lisboa diz adeus à moda Porfírios

Uma nuvem de pó ganha forma a menos de quatro metros de José Fernandes, um septuagenário sentado num banco da rua da Vitória, em plena baixa lisboeta. De mãos cruzadas sobre os joelhos, observa, com olhos pequeninos de curiosidade, o vai-e-vem de trabalhadores que carregam restos de parede e de chão dos Porfírios, uma das lojas mais frequentadas da capital entre as décadas de 60 e 80. Apesar de alfacinha de gema, garante não ter "reparado muito" no espaço comercial, até porque sempre pensou ser "daquelas lojas da mocidade, com muita gente e barulho". "Modernices", arremata, num sorriso. Uma "modernice" a fazer história em Lisboa desde 1965. Mas, em Abril deste ano, os Porfírios fecharam as portas. Depois de mais de 20 anos a vestir uma juventude sedenta das influências estrangeiras dos loucos anos 60, o estabelecimento não resistiu à evolução da última década. "O país passou de um mercadozinho para um mercado da Europa, com uma oferta de comércio hiper-colossal", explica um dos responsáveis pela firma Porfírio de Araújo & Filhos, Paulo Porfírio. "O aparecimento de cadeias internacionais e 'shoppings', marcadas pelo factor novidade", o "crescente endividamento do consumidor" e as "obras no centro de Lisboa", que dificultaram o acesso à Baixa, estão entre as causas do progressivo declínio da loja, assegura. Mas o adeus à Rua da Vitória abre caminho a um novo capítulo na história dos Porfírios. A marca de pronto-a-vestir portuguesa promete voltar,"mantendo, tanto quanto possível, a imagem" conquistada no mercado (ver caixa). E, em especial, a irreverência."A Porfírios era completamente diferente... Era ousada", recorda Guida Maria, actriz de teatro com 51 anos. "Quando era nova e gira vestia-me nessa loja", lembra, divertida. Tinha uns 15 ou 16 anos quando os Porfírios lançaram as mini-saias, os blusões mais curtinhos e as camisolas de barriga à mostra. E os collants... coloridos ou simplesmente de renda preta. "Parecíamos todas uma prostitutas", comenta. Era uma moda arrojada para o Portugal da década de 60. "Lembro-me perfeitamente de chegar a casa e ouvir o meu pai dizer: 'Dispa imediatamente essa camisola!'", relata, não contendo uma gargalhada. Pioneiros num mercado de pronto-a-vestir que se resumia, nas palavras da actriz, "ao Grandella e à Lanalgo", os Porfírios conseguiram despir os jovens das "fardas que usavam". "Foi uma lufada de ar fresco. Parecíamos mais modernos, mais 'updated', mas, claro, numa dimensão portuguesa", afirma Guida Maria. Maria do Céu Guerra, outra veterana dos palcos portugueses, é da mesma opinião. Cliente assídua da loja nos primeiros anos, garante que os Porfírios "marcaram uma geração": a sua. Com "bom gosto" e "piada". "Os Porfírios assumiram um papel na criação da moda jovem até aí inexistente", recorda. Do seu "espírito novo e rebelde" a deputada socialista Helena Roseta guarda uma lembrança: a carteira de alumínio que a acompanhou anos a fio. "Toda a gente se metia com a maleta", conta.A aposta de vanguarda dos Porfírios valeu-lhe um nome no mundo da moda. "Eu era muito provinciana. Vir a Lisboa era vir à Baixa, e os Porfírios eram um 'must' naquela altura", afirma outra deputada do partido rosa, a ex-secretária de Estado da Educação, Ana Benavente, com 51 anos. Entre recordações dos tempos de juventude vividos no Cartaxo fala dos collants de mousse vermelha, canelados, que lhe ficaram na memória. Chegava a ir aos Porfírios apenas passear". "Nos primeiros anos, as pessoas até faziam bicha no balcão", lembra. E ainda há quem afirme ter recorrido aos Porfírios apenas quando não tinha dinheiro. Apelidando-a de "género de loja dos 300", o músico Jorge Palma, com 51 anos, confessa ter tido "um certo pudor em vestir aquelas roupas". "Era foleiro", garante. Sobretudo quando "os meus amigos pagavam dez vezes mais num alfaiate da Avenida da Liberdade". "Preconceitos dos anos 60", conclui. Apesar de uma "certa vergonhazinha", recorda ter comprado na Porfírios "umas calças e camisas". Tudo, claro, "muito colorido".