Esse estranho ser

Deixou ao cinema obras-primas perturbantes como "Bela de Dia", "O Charme Discreto da Burguesia", "Viridiana" ou "Um Cão Andaluz". Nasceu faz hoje exactamente cem anos numa vila de Espanha, chegou a Paris a achar que o surrealismo era "uma coisa de maricas", acabou por se afirmar "mais surrealista que nunca". Morreu no México em 1983. Tinha um "rosto de camponês, frondoso bigode, olhos saltitantes, fornecido com um pescoço de touro que o obrigava a girar o corpo para se voltar". Chamava-se Luis Buñuel.

Burguês machista e homofóbico para uns, visionário lúcido e libertador para outros, o cineasta mexicano de origem espanhola Luis Buñuel, protagonista paradoxal de mil retratos, acabou por ficar na história sobretudo como marco incontornável do surrealismo. Apesar de à sua chegada a Paris, em 1925, este movimento ainda embrionário lhe parecer "uma coisa de maricas", Buñuel acabaria por se afirmar "mais surrealista que nunca". E é talvez nessa qualidade que hoje, ao celebrar-se o centenário do seu nascimento e um percurso de 32 obras cinematográficas, ele é mundialmente homenageado. Em todos os países em que trabalhou, entre Espanha, França, Estados Unidos e México, promovem-se ciclos de cinema, estreiam-se documentários (como "A Propósito de Buñuel", de Javier Rioyo e José Luis López-Linares, ou "Buñuel em Hollywood", de Félix Cábez) e cria-se uma enorme exposição (iniciativa da Cinemateca e do Instituto Cervantes de Toulouse que integra as suas obras cinematográficas, fotografias, manuscritos, cenários de filmes e objectos pessoais) que rodará pelo mundo. E Calanda, a vila aragonesa de colinas de oliveiras e planícies secas, em que nasceu a 22 de Fevereiro de 1900, abre-lhe um museu. Mas quem era, como escreveu Max Aub, amigo e colaborador de Buñuel, "esse estranho ser (...) ateu que fala continuamente da Igreja Católica; esse amigo das armas, não mais cobarde que qualquer homem, que foge de todo o confronto, ainda que este possa servir os seus ideais"?Era, antes de tudo o resto, o primeiro filho, de sete, de um homem de 45 anos e ar severo que fizera fortuna no comércio em Cuba e, portanto, um burguês. Uma etiqueta de que, apesar de se afirmar "com os pobres", nunca conseguiu descolar-se. Paradoxalmente foi uma condição sem a qual a sua obra não existiria como a conhecemos. Primeiro, porque só assim pôde partir de Saragoça, e das escolas jesuítas que frequentara, para estudar em Madrid, acolhendo-se na mítica Residência de Estudantes, onde conheceu, entre muitos outros criadores da época, Federico García Lorca e Salvador Dali, com quem acabaria por trabalhar, e onde entrou em contacto com a filosofia marxista. Foi daí que partiu para Paris, onde acabou por se envolver com aqueles que formariam o grupo surrealista. Um dia, em 1928, o dono de uma sala de cinema - onde o fotógrafo Man Ray reunira amigos (como o escritor André Breton) para verem o seu mais recente filme - propôs ao grupo que ficasse para assistir ao filme que dois jovens espanhóis lhe haviam entregue na véspera. Tratava-se de "Um Cão Andaluz", que Buñuel realizara com cenários de um "grande amigo", o pintor catalão Salvador Dali. Dali tivera um sonho em que formigas saíam de um buraco na sua mão; Buñuel sonhara com uma lua e a mãe, a quem queriam cortar um olho; em seis dias e com 25 mil pesetas fizeram um filme, segundo explicaria o realizador, "recusando tudo o que fossem associações mais ou menos normais, recordações ou lógica". Seguiram-se "L'Age D'Or" (1930) e "Las Hurdes" (1932), e, depois, toda uma série de filmes que rasgavam estéticas, dogmas, idealismos e filosofias. Enquanto em Espanha se vivia o final da Guerra Civil, em Nova Iorque, Buñuel foi responsável pela cinemateca do Museu de Arte Moderna e trabalhou nas dobragens para espanhol de documentários. Só depois de passar pelos Estados Unidos e de, em 1946, se ter mudado para o México, o seu trabalho, para além de todas as críticas e ataques, entrou num verdadeiro sistema de produção. O sucesso, em 1951, de "Los Olvidados" (1950) no Festival de Cannes, levou a que Buñuel acabasse por se introduzir no sistema do cinema comercial mexicano. Nesse contexto, conseguiu produzir obras em que simultaneamente eram satisfeitas as exigências do meio que o financiava e as suas próprias. Em "Susana Demónio e Carne"(1951), por exemplo, num enredo de verdadeiro melodrama, Buñuel introduziu todos os elementos iconoclastas que lhe eram caros. Na mesma linha sucederam-se "Subida ao Céu"(1952), "El" (1953) ou "Rir e a Morte"(1954). "Viridiana", de 1961, surge como imagem de síntese deste percurso. É um filme subversivo que tem como figura central uma jovem freira que depois de passar por uma inacabada tentativa de violação por parte do tio, Dom Lope, termina a recolher mendigos na mansão do tio entretanto morto. A imagem destes reunidos em volta de um enorme banquete evocava despudoradamente a cena da Última Ceia de Cristo e provocaria escândalo, especialmente quando o filme recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Mas este não seria sequer o exemplo mais claro do anticlerismo que marcaria a obra de Buñuel. Acusado de ser "mais papista que o Papa", Buñuel explicaria ao amigo e escritor Max Aub ter sentido primeiro "uma dúvida, uma desconfiança subjacente àcerca da existência do inferno" e ter perdido totalmente a fé aos dezassete anos, "sem contar que já começara a ler Darwin e Nietzsche". E, visto não acreditar e ser "contra a sociedade tal como está organizada", não lhe poupou também ataques desconstrutivistas, expondo as suas hipocrisias e ridicularizando os seus vícios. Em "A Bela de Dia" (1966), uma mulher bem casada (Catherine Deneuve, num dos seus mais carismáticos papéis) realiza as suas fantasias transformando-se em prostituta à tarde e dormindo com o marido à noite. Em "O Charme Discreto da Burguesia" (1972), sonho e realidade misturam-se dentro da própria ficção para mostrar ministros que traficam droga, dormem com as mulheres uns dos outros e convivem com militares que fumam marijuana. E em "O Fantasma da Liberdade" (1974), o seu penúltimo filme, convidados reúnem-se para defecar na sala, preferindo a privacidade da casa de banho para jantar. De tudo Max Aub tirou provavelmente a única conclusão possível: que ele era "a sua época, quer dizer, o que a sua época foi, influenciando-o: a religião, os jesuítas, as prostitutas, Federico García Lorca, o vinho tinto, Calanda, a sua mãe, Fritz Lang, Dali, Freud, Breton, Benjamim Péret, o surrealismo, em geral, e o comunismo, em particular." E, depois de tudo isso, quando o realizador Carlos Saura o conheceu em 1960, era "um indiano curtido pelos intempéries: com rosto de camponês, frondoso bigode, olhos saltitantes, fornecido com um pescoço de touro que o obrigava a girar o corpo para se voltar".