"Droga das violaçoes" em tribunal

Há uma nova droga na moda entre os liceais e universitários norte-americanos. Chama-se GHB e está a matar adolescentes teimosos, que continuam a não acreditar nos perigos desta substância, que tanto pode provocar euforia como coma e morte. O homicídio de Samantha Reid, uma rapariga de 15 anos, levou a "droga das violações" pela primeira vez a tribunal.

Na noite de 16 de Janeiro de 1999, a bebida soube mal a Samantha Reid, mas nem uma gota ficou no copo. Não queria parecer quadrada aos olhos do rapaz por quem estava apaixonada e que a convidou para sair. Pouco depois, vomitou, sufocou, entrou em coma e morreu. Tinha 15 anos e foi envenenada com a droga da moda nos Estados Unidos: a "gama hidroxibutirato" (GHB, na sigla inglesa), ou "droga das violações". O julgamento dos quatro homens envolvidos na morte de Samantha Reid começou esta semana em Detroit, com a presença das câmaras das principais estações de televisão. O homicídio da adolescente tornou-se notícia nacional porque, pela primeira vez, um crime cometido com GHB chegou aos tribunais. Não há quem saiba quantas são as vítimas da droga que a polícia diz ser a favorita dos violadores. Como não tem cor ou cheiro e quase não tem sabor - é ligeiramente salgada -, pode ser misturada nos alimentos e bebidas sem que se perceba. A "gama hidroxibutirato" provoca perda de consciência e apaga da memória o tempo que se esteve sob o seu efeito. Quanto aos vestígios, desaparecem do corpo em poucas horas. De acordo com dados divulgados pela Food and Drug Administration (que equivale ao português Instituto da Farmácia e do Medicamento), o consumo de GHB aumentou vertiginosamente a partir de 1990. Além de ser usada como arma para violações, popularizou-se como droga social, para consumo em festas.A GHB é um sedativo sintético que actua no sistema nervoso central. Quando usado em pequenas quantidades, provoca euforia. Só que, no caso desta droga, não há quem saiba o que significa "pequena quantidade". Duas pessoas com a mesma altura e peso podem reagir de forma diferente à mesma quantidade da substância, que também tem os vómitos, as náuseas e a morte na lista dos efeitos secundários. Em 1990, os serviços de saúde registaram apenas uma morte devido à GHB. Mas daí em diante, até hoje, já morreram 58 pessoas (17 só no ano passado). E nos últimos nove anos, quase seis mil indivíduos foram socorridos nos hospitais por "overdose".Pelo preço baixo e por ser de fácil acesso, a "droga das violações" tornou-se a favorita de um grupo específico: os jovens liceais ou universitários brancos dos subúrbios das grandes cidades. Inquéritos feitos a este segmento da população revelaram que o grupo não acredita que a GHB seja uma "droga verdadeira", como por exemplo a cocaína. Este dado, acrescido do desconhecimento de que em corpos iguais a droga tem efeitos diferentes, torna os consumidos de GHB um grupo de elevado risco. Um golo na bebida de outra pessoa numa festa pode bastar para desencadear a reacção do corpo à substância, explicou à cadeia de televisão ABC o director do Instituto Nacional Contra a Droga, Alan Leshner. "As pessoas acreditam que esta é uma droga benigna que provoca diversão. Mas a verdade é que é muito perigosa, sobretudo se misturada com álcool", disse Leshner. O álcool potencia a droga, multiplicando as possibilidade de uma "overdose". A autópsia revelou que este foi o cenário da morte de Samantha Reid. Segundo os dados apresentados em tribunal pelo advogado de acusação, na noite de 16 de Janeiro do ano passado Samantha Reid, Melanie Sindone (entao com 14 anos) e Jessica Van Wassehnova saíram com três colegas do liceu onde estudavam, Daniel Brayman, Nickolas Holtschlag e Joshua Cole. Samantha e Melanie estavam apaixonadas por dois dos alunos do último ano do liceu - Daniel e Nicholas, que agora tem 18 anos. Quando os rapazes as convidaram, finalmente, para sair, as adolescentes disseram que queriam "beber uns copos".Afastada a hipótese de um local público - os menores não são autorizados a entrar em bares e não lhes sao vendidas bebidas alcoólicas -, o grupo rumou à casa do último dos envolvidos no crime, Erick Limmer, 26 anos, conhecido por emprestar o apartamento para festas de adolescentes. Pouco depois de terem bebido os "cocktails" que lhes foram oferecidos, Samantha e Melanie adoeceram. Jessica, que também foi drogada, não sentiu os efeitos secundários da GHB. Melanie perdeu a consciência mas conseguiu acordar. Samantha morreu às 04h30 da manhã do dia seguinte. Os médicos do hospital para onde foi transportada disseram que se tivesse sido socorrida mais cedo teria sobrevivido. Os quatro arguidos são acusados de homicídio involuntário - 15 anos de prisão -, envenenamento e duas tentativas de envenenamento, pelo que podem ser condenados a prisão perpétua. O julgamento de Erick Limmer, Daniel Brayman e Nicholas Holtschalg começou na quarta-feira. O de Joshua Cole no dia seguinte; tem um julgamento separado porque confessou ter misturado a droga nas bebidas para "descontrair" as raparigas. A acusação vai tentar provar que os três homens agiram como um colectivo, ou seja, que têm culpa igual na morte de Samantha Reid, pois todos sabiam que as bebidas estavam envenenadas. A defesa - um advogado para cada um dos acusados - vai tentar atirar toda a culpa para Joshua Cole. O advogado de Erick Limmer disse nas alegações iniciais que o seu cliente não estava sequer no local do crime: ofereceu a casa para a festa e foi para o quarto, dormir. Contudo, terá sido Limmer quem impediu os rapazes de chamar uma ambulância quando as adolescentes perderam os sentidos, por acreditar que estavam apenas embriagadas. Quanto a Nicholas Holtschlag e Daniel Brayman, garantiram desconhecer que as bebidas estavam drogadas. Os veredictos devem ser conhecidos dentro de três semanas. E poderão ser exemplares. "Este julgamento é extremamente importante como mensagem a outras comunidades e especialmente aos jovens, que devem saber que esta droga tem consequências trágicas", disse o promotor público que conduz a acusação, Doug Baker. Os advogados de defesa pediram aos jurados para não transformarem este caso no julgamento da GHB. Mas é isso que se espera que aconteça, sobretudo depois da campanha das mães das vítimas da droga que esperam que veredictos exemplares acelerem a aprovação de um projecto de lei apresentado no Congresso há um ano. A Lei Farias-Reid visa proibir a produção e comercialização de GHB, punindo os infractores com 20 anos de prisão. Hillory Farias, uma rapariga do Texas, morreu aos 17 anos depois de ter bebido, numa discoteca, um refrigerante envenenado com a "droga das violações".