Debate quinzenal com o primeiro-ministro

Oposição considera insuficiente plano anti-crise apresentado pelo Governo

José Sócrates desvalorizou as críticas e acusou a oposição de sectarismo e demagogia Pedro Cunha

O plano anti-crise do Governo marcou o debate quinzenal de hoje na Assembleia da República, com a oposição a classificá-lo de insuficiente e a esquerda a questionar os apoios à banca. O primeiro-ministro, José Sócrates, desvalorizou as críticas, acusando a oposição de sectarismo e demagogia, e salientou que o plano anti-crise do Governo "Investimento e Emprego" deverá apoiar cem mil portugueses.

Logo na abertura do debate no Parlamento, em resposta ao PS, que hoje abriu a discussão, José Sócrates anunciou que o Estado decidiu aumentar o capital social da Caixa Geral de Depósitos em mil milhões de euros, sublinhando que "nunca como agora o país precisou tanto do banco público".

O primeiro-ministro anunciou ainda que o complemento solidário para idosos vai subir 3,3 por cento em 2009. O objectivo é que os idosos recebam um rendimento mínimo (com as pensões e o complemento) de 413,33 euros, o que anualmente dará 4960 euros. O anúncio surgiu numa resposta ao líder do CDS-PP, Paulo Portas, que acusou José Sócrates de esquecer os pensionistas da pensão mínima no "plano anti-crise" anunciado sábado passado. Portas tinha defendido que "não basta mencionar" o complemento solidário para idosos, frisando que nem todos os idosos recebem esse complemento, exigindo um aumento extraordinário das pensões "dos mais pobres".

Numa troca de "picardias", José Sócrates acusou Paulo Portas de "fazer de Pai Natal" no debate, enquanto Portas criticou o "tom professoral" do primeiro-ministro. "Julgo que lhe devo dizer que não é uma pose mais sóbria que disfarça a demagogia. O senhor quis fazer de Pai Natal neste debate" e dizer "que se tivesse no Governo dava tudo a toda a gente", afirmou Sócrates. "Quando se faz uma proposta tem que se dizer como é que se financia. Faz parte das regras básicas da democracia", referiu, acusando Paulo Portas de suscitar determinados temas "porque lhe dão votos", como os pensionistas e os idosos e "até as cozinhas comunitárias".

Antes, o líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, desafiou o Governo a concretizar o impacto do plano anti-crise no crescimento económico e no desemprego, manifestando-se insatisfeito com as explicações do primeiro-ministro.

Sobre crescimento, Sócrates remeteu para explicações já dadas pelo ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, de que "este estímulo orçamental tem o efeito de 0,7 pontos percentuais no Produto Interno Bruto (PIB)". Já sobre emprego, o primeiro-ministro começou por dizer que o plano permitirá "salvar muitos empregos", acrescentando depois que as medidas do Governo se destinam a apoiar 20 mil postos de trabalho já existentes, facilitar o acesso ao emprego de 30 mil jovens e apoiar com estágios e empreendedorismo 50 mil desempregados.

Crise com “costas largas”

À esquerda, o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, acusou o primeiro-ministro de utilizar "as costas largas" da crise financeira mundial para desresponsabilizar-se da situação económica do país. "Para si, senhor primeiro-ministro, a crise não tem as costas largas, tem as costas todas", criticou.

Antes, o chefe do executivo dissera que quem estava em processo de negação era o PCP, ironizando que os comunistas estavam "a tentar convencer os portugueses" que a culpa pela crise na Alemanha, nos Estados Unidos, ou até no Japão e na Rússia "era do Governo português". O PCP foi hoje o terceiro partido a usar da palavra, antes do CDS-PP, devido à passagem do deputado José Paulo de Carvalho à qualidade de não-inscrito.

O líder do Bloco de Esquerda Francisco Louçã centrou as suas críticas nos apoios do executivo à banca: "O sistema financeiro está-se a endividar e coloca esse dinheiro em operações especulativas". Na resposta, Sócrates defendeu as medidas do Governo de apoio à banca, considerando que o executivo "salvou os portugueses da falência do BPN e BPP" e "defendeu os portugueses de uma gravíssima restrição ao crédito". "Há uma diferença entre garantir depósitos e socializar prejuízos da banca, que foi o que aconteceu no BPN", respondeu Louçã.

O dirigente bloquista e o primeiro-ministro trocaram ainda acusações a propósito dos dados do INE divulgados segunda-feira, com Sócrates a sublinhar a diminuição das desigualdades em Portugal e Louçã a insistir na continuação do risco de pobreza elevado no país.

Também o Partido Ecologista "Os Verdes", Francisco Madeira Lopes, criticou o plano anti-crise do Governo, considerando-o "coxo", uma vez que prevê um aumento do limite de crédito das empresas mas "nada faz" pelo poder de compra das famílias. Em resposta, Sócrates acusou as bancadas da esquerda de "sectarismo e cegueira" pelas críticas aos planos do Governo contra a crise."Só por cegueira ou sectarismo que tenho visto nas bancadas de esquerda é que não se aplaudem estas medidas", afirmou Sócrates, no debate quinzenal na Assembleia da República.

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