Onde está Dhlakama? Jornal moçambicano traça cenários

Em Marínguè, localidade atacada na terça-feira, depois da ocupação de base da Renamo, a vida retoma a normalidade.

Afonso Dhlakama, em foto de arquivo AFP

O paradeiro de Afonso Dhlakama, líder da Renamo (Resistência Nacional de Moçambique), é desconhecido, três dias depois de as Forças Armadas terem ocupado Satungira, principal base do maior partido da oposição e antiga guerrilha, no Centro do país.

O jornal moçambicano O País pergunta, nesta quinta-feira, onde está Dhlakama e escreve sobre os “cenários de fuga” da base onde o líder partidário viveu no último ano. Explica que as possibilidades são várias, mas considera que a mais forte é “estar escondido na serra da Gorongosa, à espera de uma possibilidade para chegar a um lugar seguro”.

Conhecedor do terreno acidentado da região, a partir de onde dirigiu a guerra de guerrilha que acabou em 1992, Afonso Dhlakama pode também, admite o jornal, ter atravessado as montanhas e, através da Estrada Nacional n.º 1, ter seguido por carro para outro locais. O terceiro cenário é a possibilidade “remota, mas não impossível”, de ter abandonado a zona de helicóptero.

“Os homens dele dizem que falam com ele. Nós, jornalistas, ainda não falámos”, disse ao PÚBLICO o director, Jeremias Langa. Calcula-se que o líder do segundo maior partido moçambicano – que denunciou os acordos que garantiram a paz em Moçambique nos últimos 21 anos – esteja acompanhado de 200 a 300 pessoas, acrescentou.

A situação em Moçambique está nesta quinta-feira aparentemente calma, apesar da incerteza e receio de novos incidentes. Em Marínguè,onde na terça-feira foi atacado um posto de polícia, a população regressou a casa, o comércio voltou a funcionar e os estudantes retomaram as aulas. Em Maputo, “as embaixadas estão a fazer muitas movimentações”, disse Langa. No mesmo dia, ocorreu outro ataque na região de Mazamba, distrito de Cheringoma, também na província de Sofala. 

Ambos os ataques foram entendidos como uma retaliação da Renamo à ocupação, na véspera, da base de Satungira, encontrada abandonada pelos militares moçambicanos. A base foi visitada na quarta-feira pelo ministro da Defesa, Filipe Nyusi. “Não houve banho de sangue porque não era esse o nosso propósito”, disse, segundo a imprensa moçambicana.

Logo na terça-feira, os antigos guerrilheiros fizeram saber que se comprometiam a não retaliar, se o Exército retirasse da zona da Gorongosa. O Presidente, Armando Guebuza, tem também repetido, em diferentes intervenções, na presidência aberta que esta semana tem realizado na província de Sofala, palavras de paz. Em Metuchira, distrito de Nhamatanda, disse, citado pela agência AIM, que o actual momento “é um teste” à convicção dos moçambicanos. “Se, realmente, nós queremos a paz, temos que mostrar que queremos a paz”, disse.

Duas dezenas de organizações da sociedade civil condenaram na quarta-feira, em Maputo, os recentes acontecimentos e apelaram a Guebuza para que assegure a paz por meios pacíficos. “A traumatizante experiência com a guerra civil de 16 anos faz-nos ter a certeza de que não queremos mais a guerra”, disse, em nome do grupo, Graça Sambo, do Fórum Mulher, citada pela Rádio Moçambique. Também presente na conferência de imprensa das organizações, a presidente da Liga da Direitos Humanos, Alice Mabota, afirmou que “não há nenhuma guerrilha no mundo que tenha sido vencida”. “Todas as guerrilhas foram terminadas com negociações”, acrescentou.

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, manifestou-se igualmente “inquieto com a recente escalada da violência” e apelou aos dois campos – a Renamo e o Governo da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) – para que “resolvam os seus diferendos no quadro democrático”.
 

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