Quando a raiva cresce

O livro Era Uma Vez Uma Raiva veio de São Paulo. Por isso pedimos a duas crianças brasileiras que nos emprestassem a voz e o sotaque para mais um dos nossos Livros para Escutar. Os irmãos Maria Clara Amaral, de nove anos, e Enzo Amaral, de 13, leram para nós o livro de Blandina Franco e José Carlos Lollo.

A história da raiva pode resumir-se assim: começa pequenina, vai crescendo, primeiro alimentando-se de si própria, depois, de muitas outras coisas, ficando surda e cega até se tornar enorme, enorme e explodir, destruindo tudo à volta. “No início, era só uma raivinha à toa. Uma coisa tonta, que nem tinha razão de ser, mas que, mesmo assim, era”, descreve a autora. Na imagem, vê-se uma pequena mancha vermelha no chão “a ruminar” entre os sapatos de quem caminha. Mas chega uma altura em que começa a crescer e a alimentar-se de “um olhar de alguém meio de lado, um sorriso diferente, uma palavra torta, uma imagem distorcida”. E a raiva vai passar a alimentar-se de tudo: “Se as pessoas estavam a dançar”, “ou se estavam sentadas a conversar”, “se estavam apaixonadas”, “ou se estavam a divertir-se”.

O ilustrador representa a raiva por uma espécie de glutão (para os mais antigos) ou de pacman (para os um bocadinho menos antigos) de cor vermelha e expressão furiosa. Há movimento nas imagens e um contraste eficaz entre o vermelho e o preto, ou o cinza, sobre o fundo branco.

No final, uma figurinha azul será preciosa. Mas antes teremos de ver as páginas dominadas pela vermelha e destruidora “fúria”, “cólera”, “ira”. Um livro bem imaginado, que leva a pensar nos sentimentos menos felizes e que pode ajudar as crianças a reflectir sobre as suas frustrações e birras. Os adultos também.

Esta dupla de autores naturais de São Paulo já tem mais de 30 livros. Ainda bem.

Rita Pimenta

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