Síria: refugiados de uma guerra esquecida

Desde o início da guerra na Síria, há dez anos, a Turquia já recebeu quase quatro milhões de refugiados sírios. Já não vivem em tendas, mas a pobreza é a realidade de todos os dias.

Há quase dez anos, Husseyin El Osman e a família tiveram de cruzar a fronteira que separa a Síria da Turquia para fugir ao Estado Islâmico. Desde então vivem em Nizip, no distrito de Gaziantep, a meros 30 quilómetros em linha recta de Jerablus, a sua cidade na Síria. Noutra vida, Husseyin conduziu tractores, cultivou campos, fazia o que podia para conseguir dinheiro. Não precisava de ajuda de ninguém. Eram tempos diferentes.

Quando o Estado Islâmico chegou a Jerablus, “começaram a degolar as pessoas com facas”. “Tivemos medo. Depois vieram os aviões do regime para nos atacar. Começaram a raptar as mulheres. Tenho uma filha que podiam levar. Viemos para aqui para proteger a miúda.”

Apesar da proximidade da guerra, deste lado da fronteira encontrou paz, está “vivo e a salvo”. “Continuamos pobres, dinheiro não temos — é o dia-a-dia.”

Fotografia da família

Husseyin El Osman: “Se temos um vizinho doente, levamos uma prendinha, seguimos os hábitos deles [dos turcos].”
Hene: “Damo-nos bem com os vizinhos.”
Husseyin El Osman: “Um dos vizinhos foi internado e quando voltou, pegámos em nós e fomos lá visitá-lo, desejar uma boa recuperação, obrigado e vamos embora. Nós também, se temos alguém doente, eles vêm visitar-nos, trazem coca-cola. Graças a Deus, todos os vizinhos são bons para nós.”

Husseyin El Osman e Hene

Aproximamo-nos da casa onde vive a família de Husseyin El Osman e somos recebidos por um grupo de mulheres que fala em voz baixa. As vizinhas despedem-se à pressa enquanto as nossas anfitriãs nos recebem: “Sejam bem-vindos”. Por fora, a casa nada destoa das outras construções do bairro: cada uma com o seu estilo, conforme as possibilidades ou o gosto de quem lá vive. Algumas têm um segundo andar; parte está pintada, mas a maioria não.

Assim que o pesado portão de ferro em tons de azul se abre, conseguimos ver toda a casa. Aqui vivem cinco pessoas. O mais velho é Husseyin El Osman, o patriarca, com 73 anos, mas quem nos recebe é Emine Cesim, de 62, e a filha, Hene, de 26.

Um corredor esconso dá directamente para a cozinha, composta por um frigorifico e um fogão. Não há janelas. Ao lado, a sala, que também faz as vezes de um dormitório porque é a única divisão da casa. Os dois colchões ficam no chão. Há apenas uma cama, onde Ahmed, 28 anos, tenta dormir, tapado por um cobertor. Está ferido nas duas pernas na sequência de um ataque na Síria, e é assim que passa os dias. Pouco mais existe: um móvel com uma televisão antiga e um router da Internet, um ventilador e um cabide com alguns casacos.

Ucraniano a cozinhar na rua

Tanque turco posicionado junto ao Rio Eufrates, na região de Gaziantep

Husseyin tem uma agilidade que desafia os seus 73 anos e a sua hérnia discal. Foi às compras e trouxe Fanta para os convidados. Senta-se, levanta-se, serve-nos, vai buscar os seus documentos. Pergunta vezes sem conta se queremos beber ou comer.“Não quero que volte para Portugal a dizer que não a alimentei”, justifica. Acocora-se ao lado da filha, levanta-se para se sentar ao nosso lado. Recebe o neto, que vem da escola: “Ele também fala turco!”, diz orgulhoso. Mostra-nos a identificação dos membros mais velhos da família e percebemos que nos três casacos deste cabide cabem as histórias de todos eles. É lá que ficam os documentos pessoais, médicos, financeiros. E o pai-avô, chefe da família e guardião destes papéis, apresenta-os com orgulho, beija-os. São as provas de que existem.

“Eles gostam de nós e nós deles”

Sobre a vida durante a guerra civil — ou “os problemas”, como se referem ao conflito —, Husseyin recorda o medo. Cruzaram a fronteira de noite, num grupo com quase 100 pessoas. Foram de carro. Tiveram de explicar aos militares que fugiam do Estado Islâmico e corriam perigo. Ultrapassada a vedação, falou com o chefe de freguesia de uma aldeia turca colada à fronteira, que lhes disse para entrarem. Abriram-se as portas: “Foi aí que sentimos que estávamos em segurança”.

Ahmed, ferido, foi transportado pelos soldados. Passada a fronteira, a Turquia arranjou transporte para todos os refugiados. “Dissemos que conhecíamos algumas pessoas em Karsiyaka [Gaziantep] e levaram-nos até lá.”

Mapa da Ucrânia Mapa da zona Este da Ucrância Mapa da Ucrânia com a invasão russa
Mapa da Ucrânia Mapa da zona Este da Ucrância Mapa da Ucrânia com a invasão russa

“Viemos de Jerablus às escondidas. Éramos quase 100 pessoas, todos viemos assim. Veio a nossa família toda.”
Husseyin El Osman

“Na fronteira encontrámos militares turcos e explicámos a situação. O Estado turco trouxe carros para nos transportar. Dissemos que conhecíamos pessoas em Karsiyaka e as autoridades levaram-nos para lá.”
Husseyin El Osman

“Vivemos em Nizip há quatro anos. Continuamos pobres, dinheiro não temos, é o dia-a-dia.” “Vivemos em Nizip há quatro anos.”
Husseyin El Osman

Passaram mais membros da família para a Turquia, mas, com o evoluir da situação na Síria, alguns já regressaram. Um dos filhos, Ahmad, pai do rapazito tímido que se diverte a ver vídeos no TikTok num canto da sala, voltou para Jerablus para ser polícia. A mãe morreu antes de cruzarem a fronteira. Ahmad casou novamente e agora tem uma família na Síria. Othman, o segundo filho, também voltou para trabalhar numa empresa de petróleo.

Chega algum dinheiro desses filhos, mas é “raro”. O único membro da família que trabalha é Hene na apanha do pistácio, azeitona, alho, o que houver. Para os outros membros, os dias são passados em casa. “Se temos um vizinho doente, levamos uma prendinha, seguimos os hábitos”, afirma o patriarca. A maioria deles são sírios, mas a relação com os turcos é boa: “É como se vivêssemos com os turcos há 100 anos, eles gostam de nós e nós deles.”

Neste momento recebem ajuda em géneros – arroz, bulgur… – e em dinheiro. Recebem-no num cartão de débito que podem usar da forma que quiserem. Foi-lhes entregue pelo Crescente Vermelho turco no âmbito da ajuda da Rede de Segurança Social de Emergência (ESSN), o maior programa humanitário na Turquia financiado pela União Europeia. Quando foi criado, em 2016, recebeu um financiamento de 348 milhões de euros. A última transferência aconteceu em Dezembro do ano passado, mais 352 milhões de euros. A atribuição de apoio usa a estrutura do Ministério da Família e serviços sociais turcos.

Mão de uma criança na janela

Campos de cultivo onde se pode ver, ao fundo, a fronteira com a Síria

Fazem parte dos 1,5 milhões de refugiados na Turquia que recebem dinheiro neste cartão, destinado a famílias com mais do que quatro crianças, com um alto nível de dependência (por exemplo, se tiverem muitas pessoas idosas) e mulheres.

Husseyin sabe disso e não se sente esquecido pela Europa, mesmo que já tenham passado dez anos desde o início da guerra na Síria: “Esta é a bondade de Deus e a vossa bondade. Isto é graças a vocês, vem de vocês.” Recebem pelo menos 1100 liras turcas – quase 63 euros —, um valor que cobre cerca de 40% de um cabaz de compras. Usam o dinheiro para pagar “renda, electricidade, água e Internet”.

É o “suficiente”, diz o chefe da casa. Mas as preocupações estão concentradas noutro lado: precisa de cerca de dez mil liras (quase 600 euros) para a segunda operação do filho. Mostra o cartão do ortopedista que lhe deu o orçamento e que fez a primeira operação. A morada fica noutra parte da Turquia.

Fotografia da família

“Não queremos voltar à Síria. Estou bem aqui, nada de guerra, nada de problemas. Voltar para quê? Metem uma bomba num motor qualquer e explode com toda a gente à volta.”

Husseyin El Osman

Gostavam de voltar à Síria um dia? “Estou bem aqui, nada de guerra, nada de problemas. Voltar para quê? Metem uma bomba num motor qualquer e explode com toda a gente à volta.”

Hene toma a palavra: “Ao início foi difícil porque não sabíamos falar nada, éramos estrangeiros num país estrangeiro. Quando começámos a aprender a língua, a sair com as pessoas, a trabalhar, tornou-se mais fácil.” O pai interrompe: “Quando começámos a falar, a comunicar até foi um alívio psicológico."

A filha continua: “Estamos tão bem integrados agora que já nem vamos à Síria”. Podem, contudo, passar livremente, pelo menos durante as datas festivas. Esta p