Quem navega no TikTok à procura de soluções para a calvície, para a pele ou para acabar com a “barriguinha” do Natal tem uma forte probabilidade de se deparar com a “magia” do óleo de sementes de abóbora.
Doenças prostáticas (como hiperplasia ou cancro), queda de cabelo, parasitas ou até potência sexual. Entre os vídeos analisados pelo PÚBLICO, o óleo de sementes de abóbora apresenta-se como uma "solução" para 30 problemas de saúde.
Destes só os efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes dos óleos de sementes de abóbora estão cientificamente comprovados. "O óleo de sementes de abóbora tem características naturais interessantes. Agora, com efeitos declaradamente comprovados nestas doenças não", explica Pedro Graça, director da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto.
O PÚBLICO analisou mais de 7000 alegações feitas em vídeos do TikTok relacionados com saúde e bem-estar.
Mais de metade das alegações encontradas são totalmente falsas ou, no mínimo, enganadoras. Ora não existe qualquer prova para comprovar a afirmação feita, ora o que existe são investigações pré-clínicas ainda em animais ou células, sem efeitos demonstrados em humanos.
No TikTok, as mentiras sobre saúde têm pernas compridas
Uma investigação do PÚBLICO, que olhou para mais de 7000 alegações no TikTok, mostra que os vídeos se espalham mais depressa se tiverem mentiras e sobretudo se venderem produtos ou forem descritos como "naturais".
Uma paródia sobre o Natal em família. Scroll. Dicas sobre como tomar proteína depois do treino. Scroll. Um britânico a provar uma francesinha. Scroll. Entre tantos vídeos emaranhados no algoritmo do TikTok descobrem-se também muitas dicas de saúde (e para todos os gostos), sejam sobre saúde mental, próstata, suplementos milagrosos ou panaceias para qualquer maleita. Entre tanta informação a correr, a dúvida é: quantos destes vídeos contêm alegações falsas ou, no mínimo, enganadoras? Em mais de 7000 alegações, de quase 2000 vídeos analisados pelo PÚBLICO, a maioria (55%) é conteúdo falso ou enganador.
Mais: os vídeos com informação errada são mais partilhados — propagam-se mais rapidamente do que os vídeos com informação correcta.
A desinformação viraliza mais do que a ciência. A conclusão não surpreende, nem tampouco é inovadora, mas ganha outros contornos quando adicionamos mais detalhes. Por exemplo, quando um destes vídeos está a vender um produto, a probabilidade de ter informação falsa entre os argumentos é 3,3 vezes maior.
A proliferação de vídeos sobre doenças, tratamentos ou truques para prevenir qualquer maleita não é um exclusivo do TikTok, mas o crescimento desta rede social é notório. Só na União Europeia, o TikTok registou uma média de 169 milhões de utilizadores activos por mês no primeiro semestre de 2025 – o que equivale a mais de um terço dos habitantes dos 27 estados-membros.
O perigo não se cinge à propagação de mentiras ou informação contraditória e descontextualizada. Se a alegação de que “colocar cebolas nos pés pode ajudar a desintoxicar o corpo durante a noite” é falsa, mas talvez seja inconsequente, muitos vídeos e afirmações podem conduzir ao abandono de terapias com eficácia comprovada, ao adiamento de tratamentos, a ter despesas com produtos sem quaisquer efeitos em doenças ou até ver goradas as expectativas criadas de uma cura milagrosa.
Todas estas são repercussões conhecidas e com efeitos nefastos para a saúde pública fruto da desinformação e da promoção de pseudociência. Um exemplo: alguém que troque os tratamentos oncológicos por uma terapia sem qualquer prova científica pode frustrar as hipóteses de ver o cancro tratado.
Há discursos até facilmente contrariados, mas muito bem-sucedidos no TikTok. Um dos vídeos mais partilhados (mais de 330 mil vezes) na base de dados compilada pelo PÚBLICO dá conta de uma técnica para branquear os dentes e eliminar o sarro “em dois minutos”: o truque são as cascas de banana (trituradas e misturadas com limão, sal e uma colher de pasta de dentes) que “branqueiam e eliminam o amarelo dos dentes”. Nada mais falso. A presença de limão e sal até pode prejudicar a saúde dos seus dentes. Encontram-se também, entre a miríade de dicas para emagrecer, sugestões de alimentos e dietas com base no tipo de sangue, uma ideia por várias vezes descartada pela ciência, mas que continua a trilhar o seu caminho. Nem tudo é falso nesta rede social – como noutras que até podem permitir aprender –, mas a mentira e a desinformação sobre saúde marcham a passos largos no TikTok alicerçados no “natural”, no comércio e no próprio algoritmo.
Mais vendas, mais mentiras
A promoção de pseudociência – da astrologia ao reiki – e a desinformação em saúde – seja ou não intencional – ocupam hoje uma parte importante do espaço público nas redes sociais e até do discurso político enquanto alvo a abater. Não é novo. Basta recuar ao início do século XX e recordar as primeiras campanhas contra a vacinação e a desinformação então propagada. As principais alterações são o veículo e a capacidade de "infecção". A Internet e, em particular, as redes sociais, são contextos perfeitos para uma disseminação rápida e amplificada, muitas vezes sem contraditório. Isso funciona tanto para desinformar como para informar. Mas, como os dados obtidos pelo PÚBLICO demonstram, há um lado que está a ganhar – pelo menos quando o tema é saúde e ciência.
As conclusões do PÚBLICO corroboram o que tem vindo a ser investigado na academia. Um estudo sobre os vídeos referentes à perturbação de hiperactividade e défice de atenção (ADHD, na sigla inglesa), realizado pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá), aponta que os 100 vídeos mais populares com a hashtag #ADHD têm informação incorrecta e, portanto, a plataforma é um vector de desinformação. No ano passado, o jornal britânico The Guardian chegou a uma conclusão semelhante ao analisar os vídeos mais vistos de dicas sobre saúde mental (#mentalhealthtips): mais de metade continha desinformação.
O mesmo tem sido revelado em estudos sobre escoliose, onde a maioria dos conselhos no TikTok (em 239 vídeos, num estudo do Centro Médico Sudoeste da Universidade do Texas, Estados Unidos) têm informação errada e dada sobretudo por quiropratas – a quiropraxia é uma pseudociência que diz, sumariamente, que os nervos e as articulações são a raiz de todas as doenças. Outro estudo, da Universidade de Chicago (Estados Unidos), que procurou vídeos sobre sinusite no TikTok, concluiu que a maioria dos conteúdos publicados por quem não é profissional de saúde contém alegações erróneas, mesmo quando se apresentam como educativos.
A análise aos vídeos do TikTok conduzida pelo PÚBLICO reforça estes resultados com uma amostra mais alargada. Há certas áreas mais propensas a apresentarem conteúdos problemáticos: mais de 70% dos vídeos com hashtags sobre suplementos alimentares, emagrecimento e óleos de semente de abóbora (cuja presença é significativa) são enganadores ou falsos. Em sentido inverso, os vídeos de profissionais de saúde ou áreas próximas da medicina (como “animação médica” ou “saúde pélvica”) têm uma elevada taxa de veracidade nos conteúdos publicados.
Se a capacidade de disseminação dos conteúdos falsos e enganadores impressiona, a verdade é que a partilha de desinformação é mais corrosiva se o intuito for vender produtos. O negócio é um factor relevante na circulação de desinformação: entre os 1296 vídeos de "promoção comercial", mais de metade (54,7%) apresentavam informações falsas ou enganadoras. Apenas 60 vídeos (16,5%) diziam somente a verdade ao vender um produto ou uma técnica. Na avaliação dos vídeos foi utilizado o método de "pior alegação", isto é, um vídeo é classificado pelo veredicto da sua alegação mais problemática (entre falso, enganador ou verdadeiro).
Sacha Altay, investigador da Universidade de Zurique (Suíça), sublinha que não sabemos se há mais desinformação no TikTok do que noutras redes sociais e que as “plataformas novas são sempre mais assustadoras”. A partilha de informação falsa não é nova e foi uma discussão no Facebook, no Twitter ou no Youtube. Mas as redes sociais têm duas vertentes, como indica Rita Araújo, investigadora do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho: o bom e o mau.
“Por um lado, podem ter imensos aspectos positivos, por exemplo, as pessoas sentem-se menos sozinhas, podem encontrar ali redes de apoio e também podem ajudar a consciencializar para algum tipo de distúrbios e educar para sinais de alerta”, nota. “Mas, por outro lado, a circulação de informação muito rápida e em largas quantidades traz muita informação pouco fidedigna. Muitas vezes não estamos apenas perante conteúdos desinformativos, mas temos também informação contraditória, em que só uma parte é verdadeira. E, portanto, isso ajuda depois a criar estes fenómenos de desinformação.”
As televendas digitais ainda funcionam no TikTok
Mais de metade dos vídeos falsos ou enganadores tenta promover um produto. Entre os vídeos classificados como tendo apenas informação verídica, essa percentagem desce para os 17%.
O vídeo acrescenta o factor humano e a proximidade de alguém a falar connosco que acrescenta uma sensação de credibilidade. O efeito de “bolha” criado pelo algoritmo, mostrando recorrentemente o tipo de conteúdo com que interagimos e as opiniões com que nos identificamos, ajuda a impedir o contraditório. Afinal, uma das valências do algoritmo do TikTok é ser extremamente personalizado às interacções dos utilizadores que reforça este efeito de “bolha”. Depois de interagir com produtos naturais que previnem a queda de cabelo, vão começar a cair mais vídeos quer sobre cabelo, quer sobre produtos naturais.
Benditas sementes de abóbora
Um dos exemplos claros da promoção comercial são os óleos de sementes de abóbora, um dos principais núcleos de vídeos encontrados pelo PÚBLICO. Os efeitos descritos e promovidos para este produto servem de tratamento para um rol de problemas de saúde: queda de cabelo, doenças prostáticas, parasitas, colesterol, problemas de tiróide, envelhecimento da pele, funcionamento do cérebro e do coração, potência sexual, imunidade ou até problemas de sono. Na verdade, o que a ciência tem mostrado em vários estudos é que não serve de tratamento para nenhuma destas maleitas.
Pelo menos, para já – e esse é um aspecto relevante. Tal como em muitos outros óleos de sementes, há propriedades benéficas, como serem antioxidantes, que tornam estes produtos interessantes. No entanto, para a maioria das alegações feitas faltam estudos e provas desses benefícios. “Infelizmente, há muito poucos trabalhos feitos com seres humanos que permitam verificar a eficácia e a quantidade necessária para ter efeitos. Torna-se difícil, assim, fazer uma recomendação”, explica Pedro Graça, director da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto.
Há resultados prometedores em animais para a inibição da hiperplasia prostática, na alopécia ou na protecção cardiovascular, por exemplo. Contudo, não são tão eficazes como a medicação que já existe. “O óleo de sementes de abóbora tem características naturais interessantes. Agora, com efeitos declaradamente comprovados nestas doenças, não. Neste momento, é um produto a seguir, mas não existe evidência suficiente para fazer recomendações de consumo”, diz. “Há muitos produtos que em animais funcionam bem e depois, em humanos, não funcionam.”
Em muitos destes suplementos ou terapias que pretendem substituir ou complementar tratamentos validados pela medicina, há sempre alguns estudos que permitem alegar a sua valência. Porém, esses estudos raramente passam pelo processo de repetidas provas de eficácia que um medicamento ou vacina atravessa durante anos. A ausência de regulação e fiscalização deste tipo de produtos também privilegia este tipo de alegações sem corroboração científica.
Naturalmente bom
Um dos argumentos mais invocados e que serve, quase automaticamente, como alerta é de que é um produto natural. O apelo ao “natural” é um marcador linguístico que nos indica um risco grande de ser mentira: se o argumento for “é natural”, o risco de conter desinformação é 18,7 vezes maior do que os vídeos sem este discurso, dentro da amostra recolhida pelo PÚBLICO. Aliás, o raro é existir conteúdo que aborda um produto como “natural” e não o faz com argumentos falsos.
Não faltam narrativas que usam este argumento. Por exemplo, sobre beber sumo de limão para ajudar na digestão de alimentos ou para emagrecer. Ou os “shots de gengibre” que previnem o aparecimento de doenças, como uma gripe. Todas apelam à ideia de que é natural e, portanto, bom. Os argumentos são, muitas vezes, apresentados em conjunto com outras informações verdadeiras, contribuindo para confundir quem vê ou mascarando tudo o que é dito como factual. Por exemplo, no vídeo em que se promovem “shots de gengibre”, também se afirma que as nozes têm gorduras saudáveis – o que é verdade.
Os cogumelos juba de leão, também muito populares em vídeos ligados à saúde e nutrição, são outro dos exemplos frequentes, sendo associados à capacidade de actuar na prevenção de demências como a doença de Alzheimer. Mais uma vez, embora haja estudos sobre os possíveis efeitos neuroprotectores destes cogumelos, neste momento, tal não passa de uma hipótese e que está a ser comercializada como uma garantia.
Anna Podara, investigadora grega da Universidade da Macedónia Ocidental (Grécia) a coordenar um projecto sobre TikTok e audiências jovens, acrescenta dois factores que contribuem para o peso das “bolhas” nas redes sociais e para a credibilidade dos interlocutores. Por um lado, o viés da confirmação, uma tendência humana para interpretar ou ver apenas a informação que corrobora as crenças ou ideias que já tínhamos. O outro é uma viés de autoridade em que atribuímos mais credibilidade a figuras de autoridade. Se antes eram especialistas, agora, “quando todos têm uma opinião sobre ciência”, Anna Podara indica que a credibilidade quase se transpõe para quem seguimos nas redes sociais e confiamos. Os dois criam um “caldo” que nos coloca num ciclo infinito de desinformação – e um truque falso para um problema de saúde pode levar a outro.
A galáxia da (des)informação
Cada ponto nesta galáxia representa um dos 1860 vídeos analisados. O PÚBLICO mapeou as principais narrativas que encontrou na amostra recolhida. Foram identificados seis grandes grupos.
Como ler este gráfico:
A distância entre os pontos indica a semelhança do conteúdo dos vídeos: quanto mais próximos, mais semelhantes são os temas abordados. Cada cor representa um dos seis grupos de vídeos.
Exemplos de vídeos por categoria
Explore veja alguns exemplos selecionados de vídeos de cada uma das categorias identificadas na análise.
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O contra-poder: como se combate a desinformação?
O universo do TikTok (e das redes sociais, de forma mais abrangente) não é somente uma fonte de perigos e desinformação. Há mais de um terço da amostra de vídeos recolhidos nesta investigação que tentam reequilibrar este jogo do gato e do rato entre a mentira e a verdade. Estes vídeos são sobretudo obra de criadores de conteúdo, uns profissionais outros não, que muitas vezes têm uma formação académica e científica e se dedicam a desconstruir mitos e repôr a verdade sobre tratamentos e doenças.
Podemos recuperar um dos primeiros vídeos dados como mau exemplo e que defendia que “colocar cebolas nos pés pode ajudar a desintoxicar o corpo durante a noite”. Esse vídeo foi desconstruído pelo médico Joe Whittington (@drjoe_md) explicando que o fígado e os rins já desintoxicam o corpo e que qualquer efeito que as cebolas pudessem ter “não conseguiria penetrar a dura pele da planta do pé”, descreve. “Se viu algum benefício nisso, é provavelmente efeito placebo”, acrescenta, referindo-se às melhorias temporárias de quem espera que algo funcione e, consequentemente, pode ajudar com o cérebro a diminuir a percepção de dor ou de algum sintoma.
A principal diferença entre um vídeo e outro? Um atingiu mais de 19 mil partilhas, o outro nem 900. No caso, a narrativa vencedora é a falsa – e nem é o único vídeo a partilhar esta ideia sobre cebolas nos pés. Este é um dos entraves a “desmascarar” argumentos falsos, enganadores ou pseudocientíficos: acontece sempre como reacção a algo que “inundou” o espaço público. Por exemplo, a ideia de que aplicar alho cru directamente em herpes labial ajuda a “secar” e, por conseguinte, a tratar o problema. E o alho tem servido para tudo devido a algumas propriedades antimicrobianas que tem e que têm sido exploradas como se de uma panaceia se tratasse. Também aqui a comunicadora de ciência brasileira Mari Krüger (@marikruger) fez um vídeo para explicar que “essas ‘dicas’ de colocar alho aqui e ali pra curar doenças não têm comprovação e podem ser super perigosas” – atingiu cerca de 2000 partilhas.
“As literacias são sempre uma resposta. Os públicos têm de estar educados e ser formados, principalmente quando sabemos, para a realidade portuguesa, que cinco em cada dez portugueses têm níveis muito reduzidos de literacia em saúde. Estes números aumentam quando falamos de populações mais vulneráveis, como pessoas com baixos rendimentos ou doentes crónicos”, defende Rita Araújo, investigadora em comunicação e saúde da Universidade do Minho, sublinhando a importância da educação para a saúde, mas também para as tecnologias e estes ambientes mediáticos.
Entre as opções tomadas para lidar com a desinformação está a verificação de factos ou notas deixadas pela comunidade de utilizadores, mas nenhuma teve resultados perfeitos – a verificação de factos funcionou melhor, mas caiu em desuso por parte das plataformas como Facebook ou X. O TikTok continua a utilizar a verificação de factos, nomeadamente com parcerias com média especializados neste trabalho como o Politifact.
A última desavença resultou das multas aplicadas ao X, de Elon Musk, pela falta de transparência nas contas verificadas nesta rede social e na ausência de dados públicos para a investigação académico — a 5 de Dezembro de 2025, essa multa ditava o pagamento de 120 milhões de euros. As regras mais apertadas destinam-se a sete enormes empresas: Alphabet (que detém a Google), Amazon, Apple, ByteDance (que detém o TikTok), Microsoft, Meta (que detém Facebook e Instagram) e Booking. As verbas a pagar pelo desrespeito das leis podem chegar a 6% das receitas da empresa. Também a Apple (500 milhões de euros) e a Meta (200 milhões de euros) pagaram coimas por desrespeitarem as regras europeias.
Apesar dos avanços, o diagnóstico permanece de que ainda é insuficiente ou de que a lentidão prevalece na decisão sobre as grandes tecnológicas norte-americanas, como referiu Emmanuel Macron, presidente francês no final de Novembro: “Temos casos que estão em análise pela Comissão há dois anos. É muito lento”, escreveu no X. A discussão continuará, as soluções não abundam e, enquanto isso, o contra-poder face à desinformação parece partir sempre em desvantagem.
Este trabalho foi realizado com o apoio da Bolsa de Jornalismo em Saúde 2024, iniciativa do Sindicato dos Jornalistas em parceria com a Roche
Como fizemos?
Para esta análise, o PÚBLICO partiu de 15 hashtags iniciais relacionadas com saúde e ciência no TikTok: #alimentação, #alimentacaosaudavel, #bemestar, #emagrecer, #fitness, #imunidade, #natural, #nutricao, #perdadepeso, #saude, #saudedamulher, #saudedohomem, #saudeebemestar, #saudemental e #vitaminas.
Recolha dos vídeos
Construímos um programa informático (script) que acedia automaticamente a cada página de hashtag através de um navegador de Internet. O programa descarregava os vídeos e a sua metainformação – descrição, número de partilhas, gostos e comentários. Recolhemos até 1000 vídeos por hashtag ou até a plataforma bloquear a extracção automática.
Usámos uma conta nova para esta recolha. A página de hashtags do TikTok não segue uma ordem cronológica simples, mas sim uma ordenação baseada no algoritmo de recomendação da plataforma. Recolhemos sempre primeiro os vídeos que surgiram no topo da página.
Feita esta primeira recolha, analisámos as hashtags presentes nos vídeos recolhidos e identificámos as mais frequentes que ainda não tinham sido incluídas. Essa lista – necessariamente maior – foi usada para repetir o processo, excluindo hashtags genéricas como #foryou e #fyp e geográficas (#portugal, #lisboa, por exemplo).
No total, o processo foi repetido quatro vezes, entre 22 e 26 de Dezembro de 2025, resultando em 7616 vídeos únicos.
Extracção de alegações
Conscientes de que nem todos os 7616 vídeos seriam necessariamente sobre ciência e saúde, criámos dois novos programas que, com recurso a inteligência artificial, auxiliaram no processo de filtragem.
Numa primeira fase, extraímos o áudio dos vídeos e recorremos ao Whisper Large V3, o modelo de reconhecimento automático de fala da OpenAI, para transcrever o som na língua detectada. No total ficámos com cerca de 500.000 palavras de conteúdo falado.
Em seguida, e recorrendo agora ao GPT-4o da OpenAI, passámos cada uma das transcrições e a descrição escrita pelos utilizadores para aferir se o vídeo continha alguma alegação relacionada com o tema. Em caso afirmativo, o modelo deveria extrair todas as alegações verificáveis.
Uma alegação foi considerada se fosse:
- Generalizável – aplica-se a pessoas em geral, não apenas à experiência pessoal do criador;
- Testável – pode ser verificada através de literatura científica revista por pares (peer-reviewed);
- Sobre efeitos de saúde.
Procurámos excluir afirmações genéricas ("obesidade é uma doença"), composição de produto isolada ("contém vitamina C"), excepto se houvesse alegação implícita de eficácia ("vitamina C PARA imunidade") ou notícias sobre pessoas específicas.
No total foram extraídas 7428 alegações de 1860 vídeos – 24% dos vídeos continham alegações verificáveis. Os restantes 76% eram maioritariamente vlogs pessoais sem afirmações generalizáveis, conteúdo educacional geral ou vídeos humorísticos sobre saúde.
Como o PÚBLICO usou apenas a transcrição do áudio e a descrição escrita, pode dar-se o caso de as alegações estarem no conteúdo visual do vídeo mas nunca em áudio. Essas alegações não estão, por isso, presentes na nossa análise.
Verificação com agentes de IA e jornalistas
De forma a acelerar o processo de fact-checking das alegações feitas nos vídeos, o PÚBLICO recorreu de novo à inteligência artificial. No entanto, em vez de usar um único modelo de inteligência artificial para todas as alegações, implementou-se um sistema de verificação especializada com múltiplos agentes de IA – um modelo maestro orquestrador que distribui cada alegação por especialistas temáticos.
Um primeiro agente, chamado maestro orquestrador, ficou responsável por analisar cada alegação e, em seguida, encaminhá-la para um agente de IA especializado. Ao todo foram criados cinco especialistas (Medicina, Farmacêutica, Nutrição, Fitness e Saúde reprodutiva).
Cada especialista recebeu instruções específicas que incluíam a sua área de expertise, protocolo de verificação e obrigação de citar 2-5 fontes revista por pares (estudos científicos revistos por pares em bases de dados como PubMed, Cochrane, ou directrizes da OMS, FDA ou Agência Europeia de Medicamentos).
Para cada alegação, o agente especializado poderia dar um de quatro veredictos:
- VERDADEIRO — Consenso científico robusto suporta a alegação. Exemplo: "O exercício físico regular melhora a saúde cardiovascular"
- NÃO SUBSTANCIADO — Evidência insuficiente para confirmar ou negar, normalmente baseado na experiência de quem relata. Exemplo: "Tomei este suplemento e o meu cabelo ficou incrível".
- ENGANADOR — Verdade parcial, mas falta contexto crítico ou exagera. Exemplo: "Alho tem propriedades antivirais" (verdade in vitro em laboratório, mas não comprovado clinicamente em humanos para infecções virais comuns).
- FALSO — Evidência contradiz claramente; desinformação potencialmente perigosa. Exemplo: "Suplementos de vitamina C curam constipações" (ensaios clínicos mostram benefício marginal apenas na prevenção, não cura).
Todas as alegações e respectiva verificação foram em seguida verificadas manualmente pelos jornalistas do PÚBLICO, tendo sido feitas as respectivas alterações manuais sempre que o modelo gerava informação errada.
O processo de recolha foi agnóstico quanto à língua do conteúdo recolhido. Mesmo tendo começado a recolha apenas com hashtags em português, a metodologia seguida implicou a recolha de vídeos em diversas línguas. Na análise final só ficaram, no entanto, vídeos em línguas que os jornalistas dominavam minimamente para poder dizer com certeza que a alegação extraída automaticamente realmente era dita no vídeo. Optámos por manter os vídeos em língua estrangeira uma vez que os utilizadores do TikTok podem também ser expostos a conteúdos em várias línguas.
Para a categorização dos vídeos foi adoptada a lógica de "pior alegação possível"; ou seja, um vídeo foi considerado falso se contivesse pelo menos uma alegação falsa, enganador se não tiver nenhuma alegação falsa mas contiver pelo menos uma enganadora, etc.
Limitações
A amostra recolhida pelo PÚBLICO não reúne todas as tendências e vídeos sobre saúde e ciência no TikTok, pelo que muitas outras alegações populares – os movimentos anti-vacinas ou terapias sem validade científica como acupuntura ou homeopatia – não surgiram na base de dados utilizada para esta análise.
Tendências sazonais (dietas de Ano Novo, gripes de Inverno) podem ter influenciado os temas dominantes.