O melhor da televisão em 2025
Os melhores da televisão em 2025. Escolhas de Joana Amaral Cardoso, Marco Vaza e Rodrigo Nogueira
Adolescência | Netflix
A história do ano televisivo de 2025 não se conta sem Adolescência, a série de Stephen Graham e Jack Thorne que se tornou um fenómeno muito maior do que os seus quatro episódios sobre um miúdo de ar angelical, a morte de uma menina e o descascar da ácida cebola da masculinidade tóxica e da cultura incel online. Adolescência transbordou para o discurso político, para o ensino. Se não estivesse na Netflix, muito provavelmente não chegaria tão longe. J.A.C.
The Righteous Gemstones (T4) | HBO Max
No primeiro episódio da época que fecha a sua saga cómica sobre uma família de televangelistas da Carolina do Sul, Danny McBride volta ao século XIX sem qualquer membro do elenco (e a ajuda de uma estrela de cinema ultrafamosa) para ilustrar o passado de vigarice, redenção e religião dos Gemstones. É ousado e perfeito, a condizer com o resto da série. Depois de Eastbound & Down, Vice Principals e esta série, espera-se que Danny McBride e a sua trupe continuem a fazer televisão desta para sempre. R.N.
Dying for Sex | Disney+
A redescoberta sexual de uma mulher com cancro terminal. Sem potencial para segunda temporada, nem para um “spin-off”. É surpreendente que em 2025 alguém arrisque numa coisa destas e, ainda por cima, dando-lhe a roupagem de comédia, mas aqui estamos. Dying for Sex é baseado na história real, já contada pela própria em podcast e em livro, de uma mulher que, confrontada com a sua morte anunciada, quer sentir-se completa através do sexo antes do último suspiro. Juntar cancro, sexo e comédia não devia resultar. Mas resulta. M.V.
The Rehearsal (T2) | HBO Max
Não é todos os dias que a vontade de melhorar a comunicação entre pilotos de aviões com vista a evitar acidentes leva alguém a recriar, desde o início, a vida de Sully Sullenberger, que aterrou no rio Hudson em 2009, com recurso a Bring me to life, o êxito rock dos Evanescence. Mas é exactamente isso que acontece na segunda temporada da sempre estranha e inimitável criação de Nathan Fielder, que põe os vastos recursos da HBO ao serviço de alguma da melhor comédia imaginável. R.N.
Everybody’s Live with John Mulaney | Netflix
Depois de Everybody's in LA, seis episódios diários em directo para todo o mundo ao longo de uma semana, John Mulaney refinou o seu formato ao mesmo tempo familiar e experimental de talk show semanal, entre Março e Maio. Com o inimitável Richard Kind, um tesouro audiovisual, ao seu lado, dá a ideia, que parecia ter morrido neste universo, de que tudo pode acontecer, para o bem e para o mal. Sem seguir a actualidade, é sempre interessante, mesmo quando falha. E para o ano há mais. R.N.
The Pitt | HBO Max
Este foi o ano do plano-sequência e dos episódios num só fôlego e se alguém o fez com uma coreografia digna de um lago dos cisnes mais coxos, danificados, depenados e desanimados foi The Pitt. Em todos os episódios. Regresso às origens do drama processual médico sem episódios nem aroma a Dia de São Valentim, The Pitt é um dia, um turno, numas urgências e é traumática, bela, nostálgica e empática. J.A.C.
Pluribus | Apple TV
Falar de Pluribus obriga a falar de Severance. São dois títulos que têm mais em comum do que serem séries com excelente design de produção e um pedigree de prestígio. São duas séries que querem muito ser “séries do ano”. E essa ambição fica-lhes bem. Severance é um drama laboral existencialista que, por se ter estreado este ano a sua segunda temporada, deixamos aqui de parte para deixar brilhar Pluribus. É uma comédia negra existencialista de Vince “Breaking Bad” Gilligan e é como um produto da Apple: bonita, funcional, desejável e com espaço para contemplação. É também uma caixinha de mistério e veículo para grandes actores, Rhea Seehorn à cabeça. J.A.C.
The Studio | Apple TV
Que sorte. Que privilégio. De Seth Rogen e do público, que pode assistir a uma comédia delirante que vai para lá dos trunfos (sacar grandes nomes para cameos, fazer um episódio num só take, sacar mais grandes nomes para cameos) e que fala dos dias de hoje para quem gosta de cinema e para quem se preocupa com a estranha forma de vida que é a dos estúdios. É um tour de force e uma farsa. J.A.C.
The Chair Company | HBO Max
Depois de I Think You Should Leave, série de sketches da Netflix, e Friendship, filme de Andrew DeYoung, cá disponível através da SkyShowtime, Tim Robinson transportou o seu talento para criar e interpretar personagens que vão sempre demasiado longe e não conseguem parar, por muito que isso aliene toda a gente que as rodeia, para este thriller cómico da HBO. Quase todo realizado por DeYoung, está recheado de piada, caras estranhas e reviravoltas bizarras. R.N.
Andor (T2) | Disney+
Andor é uma série “intemporal”, como dizia ao PÚBLICO, em Abril, Tony Gilroy, o seu criador. Passa-se “há muito tempo, num universo longínquo”, como toda a saga Skywalker, mas podia ser em qualquer ponto da História da humanidade e em qualquer latitude. A inspiração, como disse Gilroy, veio daí, do que sabia “sobre revoluções, política e opressão ao longo da História, de Oliver Cromwell à Resistência Francesa”. As grandes decisões estratégicas e as pequenas escolhas do momento, os pequenos protagonistas e os grandes decisores, os sacrifícios, as conquistas e os retrocessos, tudo o que mantém uma revolução a funcionar, tudo isto é Andor.
A série foi a melhor coisa que aconteceu à Guerra das Estrelas desde a trilogia original, em rigor, desde O Império Contra-Ataca (1980) — e isto não quer dizer pouco num universo que teve 11 filmes e sete séries de televisão, isto sem contar com a animação. A anatomia da revolução, centrada no cínico e desiludido Cassian Andor (Diego Luna), teve a sua conclusão em 2025 e percebemos que acontecer no universo Star Wars é circunstancial. Esta é uma história de luta contra a opressão, sem misticismo, sem ressurreições, sem sabres de luz.
Nunca soubemos quem passou a informação da falha fatal da Estrela da Morte, na tal “conduta de descarga térmica” com menos de dois metros de largura e impossível de alvejar com um tiro certeiro, mesmo com um computador — só com a “Força”. No universo Star Wars, era uma nota de rodapé sem nomes, até Rogue One (2016) nos revelar a identidade daqueles que roubaram os planos do “poder supremo do universo”. Uma prequela, pensava-se, fechada em si mesma, lançada ao mundo entre o primeiro e o segundo filme da terceira trilogia — morrem todos no fim, os planos chegam ao seu destino e boom!, Estrela da Morte em pedaços. E, depois, veio Andor, uma prequela da prequela. Já não há ideias originais no universo?
A primeira temporada da série (de 2022) validou a prequela da prequela como um objecto singular e relevante dentro do universo Star Wars, contando a história de como Cassian Andor, um ladrão que andava à procura da irmã, se viu arrastado para o centro de uma conspiração revolucionária e de como se transformou num operacional dessa revolução — nunca encontra a irmã, a não ser em sonhos.
A segunda confirmou-lhe esse estatuto de singularidade e relevância, com o “bónus” da actualidade — Donald Trump é o Presidente dos EUA, e, embora ele se veja como líder da Aliança Rebelde, o que faz diariamente desde que foi reeleito no final do ano passado coloca-o nos sapatos do Imperador. O Imperador nunca aparece em Andor, mas aparecem os seus operacionais responsáveis por implementar a sua visão e que só o querem agradar.
Andor é mais político do que qualquer coisa que George Lucas alguma vez fez enquanto teve o controlo total de Star Wars — e o primeiro filme, Uma Nova Esperança (1977), já tinha esses traços de luta para dar estrutura à fantasia escapista, sendo que em Portugal, à altura da estreia (que aconteceu três anos e oito meses depois do 25 de Abril de 1974), houve quem chamasse ao arranque da saga “O antifascismo nas galáxias”. Mas essa dimensão política perdeu força em tudo o que se seguiria, substituída pelo entretenimento, para dar aos fãs o que eles queriam.
Povos subjugados para ganhar acesso a um recurso natural? Comunidades que vivem em lei marcial permanente? Propaganda para desviar as atenções e demonizar determinados grupos? Supressão de dissidentes? Máquina burocrática que desvia recursos de um lado para os utilizar noutro? É uma história que se repete na História. E em Andor. M.V.