Ípsilon

O melhor da música em 2025

Os melhores álbuns de 2025. Escolhas de Daniel Dias, Gonçalo Frota, Mariana Duarte, Mário Lopes, Pedro João Santos e Pedro Rios


10

Choke Enough de Oklou

Capa de Choke Enough de Oklou

Oklou tem um compromisso com o loop perfeito, e cada faixa de Choke Enough respeita-o. No caldeirão da francesa, rodopiam teclados ágeis, percussões discretas e uma voz em ponto de sussurro. Emergem do silêncio para invocar uma euforia especial, e, cumprida a sua função, ao silêncio regressam. Mais ninguém tem este som: electrónica translúcida, subordinada à melodia, guiada pela leveza de Debussy e pelo contraponto de Bach. Techno barroco, alérgico à noção de ruído, com saudades de casa. P.J.S.

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9

Los Thuthanaka de Los Thuthanaka

Capa de Los Thuthanaka de Los Thuthanaka

Chuquimamani-Condori e o irmão Joshua Chuquimia Crampton mergulham na música tradicional das culturas andinas e, num álbum de homenagem à divindade da mitologia inca que protege as pessoas queer, imaginam-lhe novos futuros. Eis, então, um maravilhoso festim de ruído: percussão orgânico-digital, guitarras processadas (que não raras vezes soam a outra coisa), tags de DJ e outros samples diversos e improváveis, tudo a um volume avassalador e a saltitar entre loops. Nunca ouvimos nada assim. Uma dança hipnótica e furiosamente catártica, uma experiência encantatória. D.D.

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8

Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir de Carminho

Capa de Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir de Carminho

Juntar num mesmo disco as influências de mulheres como Wendy Carlos, Annette Peacock e Laurie Anderson, por um lado, Beatriz da Conceição, Maria Teresa de Noronha, Berta Cardoso e Amália Rodrigues, por outro, poderia ser uma das piores ideias de sempre. Mas Carminho tem vindo a tornar o seu fado um lugar onde é possível juntar tradição e vanguardismo sem que se pareçam água e azeite. Neste que é o seu álbum mais ousado, canta Ana Hatherly, partilha um tema com Laurie Anderson e faz-se acompanhar por instrumentos raros. Para criar um disco que é também uma belíssima raridade. G.F.

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7

Honey from a Winter Stone de Ambrose Akinmusire

Capa de Honey from a Winter Stone de Ambrose Akinmusire

Após Origami Harvest (2018), o trompetista e compositor continua a sua reflexão em carne viva sobre a condição do homem negro nos Estados Unidos de hoje. Escreve para a combinação explosiva de um jazz que se mistura com quarteto de cordas minimalista, mais vozes e batidas vindas do hip-hop, reanimando os blues como lugar de tristeza profunda, discurso sufocado e uma insistência em acreditar que cada novo dia pode trazer a mudança. Uma obra-prima entre a revolta e o cansaço, entre a raiva e a ténue chama de esperança que insiste em arder. G.F.

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6

A Danger to Ourselves de Lucrecia Dalt

Capa de A Danger to Ourselves de Lucrecia Dalt

Bendita a hora em que a colombiana, há 12 anos a viver em Berlim, se apaixonou pelas canções. Se ¡Ay! já era um sublime álbum em que a música latino-americana era inundada por ondas de Scott Walker, Tom Waits e aquele jazz noir que se descobre nas bandas sonoras de David Lynch, A Danger to Ourselves repete a proeza com garbo. Lucrecia Dalt livrou-se da ficção científica e de impulsos conceptuais, ficou apenas com um conjunto de canções brilhantes que tanto podem trazer consigo a voz de David Sylvian como banhar-se na mais delicada ranchera. Uma masterclass em elegância. G.F.

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5

The Spiritual Sound de Agriculture

Capa de The Spiritual Sound de Agriculture

Bendita seja a (r)evolução no black metal que possibilitou abrir atalhos num género inicialmente dominado por homens misóginos, misantropos e perigosamente descompensados, e que nos trouxe até aqui, aos Agriculture. Vivências queer, budismo zen e a bancarrota moral do mundo actual purgados através de um black metal descomplexado, de vistas largas. Em The Spiritual Sound, a banda de Los Angeles vai ao património da música pesada – do thrash metal ao screamo, do sludge ao punk hardcore – e humedece-o com pós-rock, shoegaze e alt-country, calibrando estas manobras quase na perfeição, tanto na força como na forma. “Black metal extático” (palavras deles) que desce vertiginosamente ao precipício, mas também sobe delicadamente ao coração. Black metal delicatéssen. M.D.

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4

Lotus de Little Simz

Capa de Lotus de Little Simz

Não é um épico com a opulência de Sometimes I Might Be Introvert e não é marcado pela rarefacção de No Thank You, em que a britânica batalhava com os desmandos predatórios da indústria musical. Lotus é êxtase e groove felino, hip-hop do lado do funk, som granulado, tanto quanto é introspecção confessional, soul de secção de cordas e balanço delicado. “No final de contas, isto sou eu na minha totalidade”, dizia ao Ípsilon. Álbum com assinatura vincada, álbum de renovação. Little Simz é uma certeza absoluta. M.L.

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3

Never Enough de Turnstile

Capa de Never Enough de Turnstile

Talvez nunca o punk hardcore tenha sido tão popular como em 2025, tudo devido a Never Enough. A receita dos cinco de Baltimore, nos Estados Unidos, era já potente, mas tornou-se irresistível (até para Sir Elton John): extraem dos riffs musculados do género a sua energia primária, mais do que a sua violência, pondo-a ao serviço de canções sem medo (onde cabem pop, new wave, sintetizadores, electrónica, trompetes, a flauta de Shabaka Hutchings…) que expressam uma vontade — individual e colectiva — de superação. Juntam dopamina e ocitocina, excitação e vontade de abraçar um desconhecido no mosh pit. P.R.

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2

Getting Killed de Geese

Capa de Getting Killed de Geese

O rock a desmontar-se perante nós, canções a revelarem novas dimensões nas diversas camadas sobrepostas. Rock cheio de passado, mais intuído que citado, mas que se agiganta. Estamos aqui, hoje, nesta voz, a de Cameron Winter, que conjuga a emoção visceral de Van Morrison e a pregação profana de Nick Cave. Aqui, no coração de uma banda que distorce o passado que idolatra para o olhar sob uma nova perspectiva. Dinamita-o para ver nascer algo novo. Getting Killed é o quarto álbum dos norte-americanos Geese, mas, na verdade, a história começa aqui. Com um estrondo. M.L.

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1

Lux de Rosalía

Capa de Lux de Rosalía

Quem diria que em 2025 seria cool vestir reinterpretações de véus de freira e fazer madeixas no topo do cabelo a imitar uma auréola? A culpada, ou a criadora de tendências, é Rosalía. A cantora e compositora catalã aproximou-se dos assuntos divinos no seu quarto álbum, Lux, onde procura transcender limites terrenos — os dela e os da música pop.

Missão cumprida. Lux é do domínio do sublime, um dos discos mais arrojados e inventivos da história da pop e da música do século XXI. É a arte a elevar-se e a elevar-nos. É Rosalía mais uma vez a reinventar-se, aqui nas alturas, mostrando que a sua ambição artística corresponde na totalidade ao seu génio. É a prova de que alguma música com alcance de massas não é só uma extravagância capitalista prefabricada, mas território de verdadeira experimentação, revelação, ampliação de horizontes (tal como, ainda que noutra medida, Debí Tirar Más Fotos, de Bad Bunny, presença em várias listas de melhores discos de 2025).

Odiadores odiarão, entendedores entenderão, mas fica a dica: entre hagiografias e escritoras como Clarice Lispector ou Ursula K. Le Guin, a grande inspiração de Lux é Simone Weil, filósofa e mística francesa cuja vida foi marcada pela busca incessante de uma espiritualidade enformada por vários credos e que não descurava os prazeres terrenos, incluindo o anarco-sindicalismo.

Em Lux, Rosalía remexe em protocolos da música clássica para os revirar e inscrever numa sonoridade simultaneamente secular e avant-garde. Regressa ao ponto de partida do seu percurso, o flamenco, que estava praticamente ausente do trabalho anterior, Motomami (2022), para o emparelhar com gestos operáticos. Sexo, violencia y llantas (o primeiro arrepio pela espinha acima do disco), Mundo nuevo ou La rumba del perdón demonstram como a matriz emocional da canção andaluza não está assim tão distante da dramaticidade da ópera — a quase-ária Mio Cristo piange diamanti é o sentir mais explosivo.

A artista catalã sobe a parada e deita tudo a ganhar no modo como concilia géneros musicais (o fado é um deles, em Memória, com Carminho) e as tessituras de várias formas de cantar — apesar da enchente orquestral, a voz é o verdadeiro caminho para a ascese. Mas o trunfo e o triunfo de Lux residem também na materialização da abordagem conceptual. Composto por 18 canções (três delas aparecem apenas na edição em CD/vinil), o álbum desenrola-se em quatro movimentos: “Desejo/Santidade e Pecado”; “Gravidade/Conexão Mundial”; “Graça/Fé”; “Transcendência/Adeus”.

Há uma narrativa, não só temática como estrutural, em que as canções entroncam umas nas noutras, salvo uma ou duas excepções. À medida que se repetem as audições — este é um álbum que vai crescendo e colando-se à pele —, tornam-se evidentes o pensamento extremamente metódico por trás de Lux e a vontade de tactear o mundo, com Rosalía a cantar em 14 línguas diferentes, longo processo autodidacta aperfeiçoado posteriormente com a ajuda de tradutores e especialistas em fonética.

Segundo a própria, a escolha destes idiomas está relacionada com as histórias das santas que a iluminaram, como Hildegarda de Bingen, Santa Teresa de Jesus, Joana d’Arc, Rosália de Palermo ou a freira budista Vimala. Até aqui o passo é de génio – santas fora da norma para erguer música que rompe com as normas e para expandir a ideia do que pode ser a santidade no universo feminino. “No soy una santa, pero estoy blessed”, resume ela em Reliquia, tiro e queda, sagrada e profana.

Lux é Rosalía na melhor versão de si, também porque soube rodear-se das pessoas certas. Foi gravado com a London Symphony Orchestra, dirigida pelo maestro islandês Daniel Bjarnason, sendo que os arranjos orquestrais foram assinados pela compositora Caroline Shaw, a mais jovem vencedora de sempre do Pulitzer de Música. Sem esquecer as colaborações com Björk, Yves Tumor, Silvia Pérez Cruz ou Yahritza y su Esencia.

No final, o grande mérito é dela. El Mal Querer (2018) e Motomami já revelavam uma curiosidade omnívora, uma perspicácia para o corta-e-cola e para citar referências fora do contexto, dando-lhes novas leituras, mas Lux é um recreio cheio de surpresas. La yugular, inspirada pela santa muçulmana e mística sufi Rabia de Baçorá, está mesmo no plano do divino: que se acuse quem não tremer com a letra e o canto em matriosca da parte final, rematada por um sample da santa Patti Smith. M.D.

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