O melhor dos livros em 2025
Os melhores livros de 2025. Ficção: escolhas de Gustavo Rubim, Helena Vasconcelos, Isabel Coutinho, Isabel Lucas, José Riço Direitinho e Luís Ricardo Duarte. Não ficção: Escolhas de António Araújo, Hugo Pinto Santos, Isabel Coutinho, Isabel Lucas, José Marmeleira, José Riço Direitinho, Luís Ricardo Duarte e Pedro Rios. Poesia: Escolhas de Gustavo Rubim, Hugo Pinto Santos, José Riço Direitinho e Luís Ricardo Duarte
Ficção
Simplicissimus de Hans Jakob von Grimmelshausen | Trad.: C. M. Novais Madureira, E-Primatur
Publicada em 1668, esta obra-prima do barroco e do romance europeu, com manifestas ligações à tradição picaresca espanhola, é apresentada nesta tardia tradução como o primeiro grande romance da literatura alemã. O título é comédia: o herói recebe o nome de Simplicius, significando tudo desde ingénuo a ignorante e simplório, mas narra a sua própria história de vida em estilo culto, literariamente divertido e sofisticado e com implacável lucidez sobre assuntos humanos de toda a espécie, sobretudo os piores. O ponto de vista do idiota como veículo privilegiado do conhecimento inteligente do mundo. G.R.
Huris de Kamel Daoud | Trad. Telma Costa, Bertrand Editora
Quase dez anos depois de o escritor e jornalista franco-argelino Kamel Daoud, que vive exilado em França, ter recebido por Meursault, Contra-Investigação o prémio Goncourt Primeiro Romance 2015, viu no ano passado ser-lhe atribuído o Goncourt por Huris. Um livro proibido no seu país, cuja lei determina que não se pode falar sobre a guerra civil (1992-2002). Neste romance, sobre o poder da palavra face ao silêncio, acompanhamos o diálogo interior de Alva, num país em que as mulheres são livres, mas continuam escravas. Ela é uma jovem cabeleireira, muda e grávida, que tem a sua história inscrita na pele: sobrevivente dos massacres em 1999, foi degolada, ficou sem voz e com uma cicatriz no pescoço. Mas também personagens marcantes como Aïssa Guerdi, filho de um livreiro e editor revolucionário; Khadija, a mãe adoptiva de Alva; e Hamra, a “terrorista” rejeitada pela sociedade. “A minha personagem Alva fez o trabalho que a Argélia devia ter feito: enfrentar o passado e ultrapassá-lo”, disse o escritor ao Ípsilon. I.C.
Vaim de Jon Fosse | Trad. Liliete Martins, Cavalo de Ferro
Vaim é o nome de uma povoação fictícia e dá titulo ao mais recente romance do norueguês Jon Fosse. É também o primeiro livro publicado depois de o autor ter vencido o Nobel, em 2023, e aquele que se segue à ambiciosa e grandiosa Septologia. No princípio de Vaim, um homem anda à procura de botões. O romance constrói-se nessa errância em que a paisagem ganha protagonismo, a água impõe-se e um barco marca uma deriva feita de silêncio, repetição e suspensão, onde se explora a solidão, a consciência e a dificuldade de estar no mundo. Não há enredo tradicional, mas um movimento interior contínuo e repetitivo que a linguagem sublinha. É reconhecivelmente Fosse. I.L.
De Quatro de Miranda July | Trad. Telma Costa, Quetzal
A norte-americana Miranda July é cineasta, artista e escritora. Em De Quatro conta a história de uma artista californiana que vive com o marido e uma criança num bairro de classe média em Los Angeles. É um romance extremamente lúcido, um retrato (para além da vida doméstica) da sexualidade no feminino, das fantasias (realizadas ou não), irónico sobre o casamento e o envelhecimento, sobre o despertar da "meia-idade". Poucos livros tratam de maneira tão clara e despudorada os novos (e velhos) tipos de relações amorosas. Ousado como toda a literatura devia ser. J.R.D.
Lavores de Ana de Ana Cláudia Santos | Companhia das Letras
Entre os amores de Verão e as desilusões da vida adulta, esta é uma novela de descoberta. Uma educação sentimental sobre o que é crescer enquanto mulher em países do Sul, uma travessia entre idades, cidades, diferentes culturas e línguas. A narradora Ana, Anna, Annarella, Annarè, uma portuguesa à descoberta do mundo e de si própria em Nápoles, mas também mais tarde, aos 40 anos, em Lisboa, é tradutora de profissão, tal como Ana Cláudia Santos, que em Lavores de Ana tem a sua estreia na narrativa longa depois de ter publicado A Morsa – Contos de Inocência e de Violência (Edições Húmus) em 2022. “Ouvido”, “Língua”, “Mão”, “Sopro” e “Voz” são as cinco partes ou capítulos desta história, as cinco figuras que nos fazem oscilar entre entusiasmo e decepção, entre os impulsos do corpo e a lógica dos signos, entre desejo, memória e interpretação. “Tudo, nessa circulação, é temporal, nada escapa a uma idade ou a uma data ou a uma estação do ano”, escreveu Gustavo Rubim no Ípsilon com a sensação de estar a lidar com uma narradora proustiana. “O leitor está no meio, não de um, mas de vários trânsitos que acompanha como quem assiste a um filme: deixando-se levar”, acrescentou o crítico. Nascida em 1984, em Lisboa, Ana Cláudia Santos viveu em Nápoles e em Pisa, é doutorada em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa e dedicou-se ao estudo de Giambattista Vico. I.C.
Tudo sobre Deus de José Eduardo Agualusa | Quetzal
Um solitário poeta e geólogo angolano, Leopoldo G. Borges, que sabe que tudo o que aprendeu “sobre Deus cabe no buraco de uma agulha” e que “o resto é a agulha”, prepara-se para morrer e compra uma igreja abandonada no deserto do Namibe, para fazer dela a última morada. Através dos seus cadernos de poemas, diários e cartas de despedida percorremos os sonhos, tragédias e desilusões deste homem, da sua filha Gaia, e também de um país, antes e depois da independência. Agualusa, que nunca deixou de escrever poemas e diários ao longo dos anos, surpreende-nos com uma nova voz poética e um romance animista. Uma bonita homenagem a Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010) e a Mia Couto, com Jorge Luis Borges e as filosofias africanas a pairar por cima de todos eles. No ano em que se viu nas urgências de um hospital, dentro de uma máquina de ressonância magnética, e se confrontou com a ideia da morte, Tudo sobre Deus — que ganha outra dimensão ao ser lido em voz alta — é a sua reflexão sobre a finitude e a permanência. I.C.
Sobre o Cálculo do Volume I de Solvej Balle | Trad. Elisabete M. de Sousa, Relógio d’Água
De início, a familiaridade é imediata, sobretudo para quem viu o filme O Feitiço do Tempo. Mas à medida que o romance avança percebe-se que a ideia — alguém preso num dia — assume uma dimensão mais profunda e existencialista. A hipótese ficcional transforma-se num estudo da experiência humana que, neste primeiro de sete volumes anunciados pela escritora dinamarquesa, se centra nas (im)possibilidades de comunicação e da convivência amorosa. O recurso ao diário, sem considerandos ou caricaturas exteriores, também acentua a fragmentação de uma vida em busca de um novo sentido. L.R.D.
Herscht 07769 de László Krasznahorkai | Trad.: João Miguel Henriques, Cavalo de Ferro
Acompanha a deriva de um homem sitiado pelo pensamento num mundo que perdeu a ideia de centro. A mais recente narrativa do Nobel deste ano é densa e circular. Mais do que avançar ao longo de uma única frase de 400 páginas, Herscht 07769 escava até uma profundidade incómoda, que expõe o colectivo da história humana e o íntimo atingido pelo político. Entre a obsessão intelectual e o esgotamento moral da Europa contemporânea, este romance constrói uma crítica severa da razão moderna, escancarando a solidão extrema de quem continua a pensar quando tudo à volta já desistiu. I.L.
O que Podemos Saber de Ian McEwan | Trad. Maria do Carmo Figueira, Gradiva
O que dirão desta época de caos, desinformação e violência os nossos descendentes, os que sobreviveram ao apocalipse por nós criado? É esta a premissa devastadora deste romance. Em 2119, o planeta sofreu transformações abissais e a civilização recuou para níveis ínfimos graças às alterações climáticas, à guerra nuclear, à loucura dos homens. Thomas Metcalfe, o protagonista, é um dos poucos professores de humanidades que restam. Chama a si a missão de descobrir tudo sobre um poema desaparecido, escrito em 2014 por um famoso poeta, Francis Blundy, que terá sido lido durante um jantar em Outubro daquele ano e dedicado à sua mulher, Vivien. A demanda detectivesca transforma-se numa aventura — física, intelectual, filosófica. H.V.
O Fim dos Estados Unidos da América – Epopeia de Gonçalo M. Tavares | Ed. Relógio D'Água
Depois de ter publicado Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010), esta é a segunda epopeia de Gonçalo M. Tavares, apesar de serem dois livros bastante diferentes. Logo numa das páginas iniciais, o autor — já bastas vezes elogiado por vencedores do prémio Nobel e por outros nomes importantes da literatura mundial — avisa que este livro não é prosa nem poesia, que "esta epopeia é escrita com essa hesitante linguagem do meio / suspensa entre a prosa que narra e a poesia que assobia / sem género literário nem gémeo literário, nem assim nem assado / que deus nos guarde e o divino nos apoie".
Ao chamar-lhe epopeia, Gonçalo M. Tavares está, de modo bastante singular, a interrogar o género, a levá-lo para um qualquer "laboratório" literário onde o texto é dissecado e levado até ao limite, tocando o excesso e o delírio. Ao mesmo tempo, faz de O Fim dos Estados Unidos da América uma sátira e uma distopia. Escreve ele: "Não é tanto uma distopia porque é uma sátira: não é tanto sátira porque é uma distopia." Não se trata aqui de jogo de palavras com a função pirotécnica de um efeito estilístico, mas de uma tentativa inteligente de implodir e de misturar conceitos, de os interrogar. O mesmo se passa quando, logo a seguir, afirma que estas personagens por si criadas — algumas têm nomes que trazem muitas e significativas reminiscências clássicas, como Creonte, Laio, Jocasta ou Tirésias, o profeta cego — lhe lembram figuras de uma banda desenhada "greco-trágica, americana e yankee da cabeça às botas de cano alto; uma tragédia grega em que a imaginação faz o que quer."
A literatura tem destas coincidências: Gonçalo M. Tavares escreveu a "massa bruta-brutamontes" (a expressão é dele) desta epopeia em 2019 e no início de 2020. Escrevia, então, sobre uma peste nos Estados Unidos da América. O texto estava quase terminado quando surgiu a pandemia de covid-19. O escritor suspendeu a escrita e, como sempre faz com os seus livros, deixou-o durante anos a "criar dureza ao tempo". Há uma peste em O Fim dos Estados Unidos da América, mas o livro é essencialmente sobre a ideia de um país que se decompõe, de uma tragédia que ao mesmo tempo transforma — tudo isto sob a forma de uma dissecação cirúrgica, precisa, divertida, de um colapso civilizacional; sobre a queda de um império que se inventou a si próprio como uma narrativa e que a determinada altura todos os slogans sobre os quais se estruturou começam a perder capacidade de serem proferidos.
Para além das personagens com ressonâncias dos vários clássicos de diferentes épocas, Gonçalo M. Tavares recorre a figuras arquetípicas do imaginário norte-americano, que vão oscilando entre dois pólos simbolizados por Left Wing (o líder da extrema-esquerda) e Ted Trash (o líder fascista), pelo meio há o Al Capone e uns activistas de esquerda, hippies e nudistas, entre vários outros, dos quais sobressai La Rosa, uma bela jovem mexicana.
Em entrevista ao Ípsilon, Gonçalo M. Tavares disse que o livro operou uma mudança na sua linguagem. “Houve um encantamento, sinto que encontrei um mundo novo extraordinário na minha cabeça. E é extraordinário no meu percurso de descoberta. Senti que descobri qualquer coisa. É a criação de um novo mundo, a ideia de que o pensamento também se pode exprimir através do som, que o som tem importância na forma de pensar. Sinto mesmo que é como se fosse, para mim, uma outra língua. Não é uma língua que se limita a obedecer a regras. Esse formalismo não me interessa.”
O Fim dos Estados Unidos da América é um dos livros mais originais (e arriscamos ainda a palavra geniais) das últimas décadas da literatura portuguesa, sem "gémeo literário". J.R.D.
Não ficção
Desistir de Adam Phillips | Trad. Sara Veiga, Zigurate
Adam Phillips (n. 1954) é um notável intelectual público da actualidade. Psicanalista, crítico literário, ensaísta, tem uma vasta obra na qual conjuga o pensamento psicanalítico com o filosófico e o literário. Em Desistir, questiona a ideia cultural de que a virtude está na persistência. Recorrendo mais uma vez ao seu triângulo disciplinar — psicanálise, literatura e filosofia —, reflecte sobre como desistir de certos desejos ou objectivos pode revelar sentido e liberdade. Com uma escrita elegante, provocadora, combina rigor clínico e sensibilidade literária. O resultado, como sempre, é um ensaio sofisticado que toca no que tomamos por moral ou culturalmente como bom. I.L.
As Confissões de Jean-Jacques Rousseau | Trad. Manuel de Freitas, E-Primatur
Pai (tirano?) de todos os romantismos, avoengo de modernidades e o mais despudorado dos confessados. Jean-Jacques Rousseau inventou ou reformulou um género, o das memórias; foi o sublime artífice de uma sensibilidade que dele herdámos e que ainda não acabámos de gastar. As Confissões são um monumento de escrita, um genial composto de veracidade e imaginação materializado numa narrativa empolgante e inesperada, criadora de um cosmos individual. Sublinhe-se a qualidade desta nova tradução, a cargo de Manuel de Freitas. H.P.S.
Três Discursos sobre Eros de João Constâncio | Tinta-da-china
Este terá sido, porventura, o ensaio filosófico de João Constâncio mais tocado pelas artes — ou, melhor dizendo, pela literatura, pela poesia. Estudo de Fedro, dá-nos a ler um Platão ainda inspirado pela arte e pela imitação, um Platão que ainda não separou a poesia e a filosofia, o sensível e o inteligível. A partir das leituras de Fedro pelos filósofos Hegel e Heidegger, com as aparições de Thomas Mann e Luchino Visconti, esta preciosa obra é também uma deleitável apologia da beleza. J.M.
As Viagens da Arte de Jacques Rancière | Trad. Pedro Elói Duarte, Orfeu Negro
As Viagens da Arte juntou-se em 2025 à série de livros do filósofo francês publicados entre nós. Reunindo um conjunto diverso de ensaios, permitiu aos leitores descobrir e redescobrir a disposição polímata e sensível do autor numa viagem à música, à arte das vanguardas históricas, ao design e à arquitectura. Mostra as relações das artes com os gestos da vida quotidiana e insiste, subtilmente, na companhia de artistas e outros filósofos, nas ideias de belo, estética e comunidade. J.M.
Nós, Filhos de Eichmann de Günther Anders | Trad. Tiago Mesquita Carvalho, Antígona
Primeira edição portuguesa de uma obra do filósofo alemão Günther Anders (1902-1992), compõe-se de duas cartas dirigidas pelo autor ao filho mais velho do famigerado criminoso nazi. A primeira, escrita nos anos 60, no rescaldo do célebre julgamento de Jerusalém e da publicação da reportagem histórica da ex-mulher de Anders, Hannah Arendt; a segunda foi redigida na década de 1980, na etapa final da vida do autor. Como o título indica, aquelas missivas não se destinavam apenas aos descendentes biológicos de Adolf Eichmann, mas antes — e sobretudo — a todos aqueles que, por acção ou omissão, se mostram incapazes de renegar o seu legado. Um aviso aos conformistas. A.A.
As Cartas do Boom de Julio Cortázar, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez | Trad. João Rodrigues, D. Quixote
Um dos acontecimentos literários deste ano é a versão portuguesa de As Cartas do Boom. Dá-nos acesso às trocas de todo o tipo de impressões entre os fabulosos quatro do chamado boom da literatura latino-americana: Julio Cortázar, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez. Através de cartas trocadas entre eles, o livro revela a amizade, os debates sobre literatura, política e vida pessoal, mostrando os bastidores da criação literária e as tensões e cumplicidades que marcaram um dos mais emblemáticos movimentos culturais do período entre as décadas de 1960 e 1970. I.L.
O Louco de Deus no Fim do Mundo de Javier Cercas | Trad. Helena Pitta, Porto Editora
Nunca um escritor tinha sido convidado a acompanhar um Papa numa viagem apostólica. Aconteceu ao espanhol Javier Cercas, que se assume como ateu, anticlerical e "ímpio inveterado". O resultado dessa viagem com o Papa Francisco à Mongólia foi um livro magnífico em que o autor consegue relacionar, com brilho intelectual, as suas obsessões íntimas com a função do transcendente na vida humana, ao mesmo tempo que se adentra de maneira quase inesperada na complexidade da Igreja Católica. J.R.D.
Náufragos de Sophie Elmhirst | Trad. Sara Veiga, Zigurate
“E se vendêssemos a casa, comprássemos um iate e passássemos a viver nele?” Maurice e Maralyn não se ficaram pela ideia. Partiram de Inglaterra, em 1972, para uma primeira viagem até à Nova Zelândia. Atravessaram o Atlântico e, já no Pacífico, foram atingidos por uma baleia. O que se segue é uma extraordinária história de sobrevivência que Sophie Elmhirst recupera de cabo a rabo. Num relato sempre contido e enxuto, nunca floreado ou dramático, a escritora inglesa devolve-nos 118 dias (e os muitos que se seguiram) que nem a melhor ficção conseguiria imaginar. L.R.D.
Sexografias de Gabriela Wiener | Trad. Guilherme Pires, Antígona
Quer esteja a fazer uma reportagem em casa do polígamo Ricardo Badani e das suas seis esposas, a entrevistar o actor porno Nacho Vidal, a doar óvulos, a ir a uma festa de swingers ou a pôr-se à frente de uma webcam a obedecer aos pedidos de quem a vê num ecrã e paga, Gabriela Wiener (Lima, 1975) passeia-nos por estes “mundos do sexo como uma antropóloga curiosa que visita um planeta de extraterrestres: observadora, minuciosa, divertida, tradutora perspicaz do disparate da vida”, como bem definiu a jornalista e escritora Rosa Montero. Sexografias, originalmente publicado em 2008, reúne a versão final de reportagens, crónicas e perfis que Wiener escreveu para revistas de jornalismo literário como a Etiqueta Negra. Atingiu o estatuto de livro de culto e, passados quase 20 anos, o seu jornalismo gonzo continua capaz de quebrar tabus. A edição portuguesa segue a de 2024, revista e aumentada pela autora, e com prólogo da escritora Camila Sosa Villada. I.C.
Se Eu Quisesse, Enlouquecia – Biografia de Herberto Helder de João Pedro George | Contraponto
Até no contexto cultural mais pujante, em que uma personalidade tem direito a várias biografias, o conceito de definitiva só pode ser encarado como absurdo ou da esfera da promoção editorial. Em Portugal, onde a realidade é bem diferente, todas as reservas que se possa ter em relação à primeira biografia de Herberto Helder serão largamente superadas pela admirável viagem que nos propõe, pela novidade que apresenta e pelo trabalho ciclópico levado a cabo pelo biógrafo.
Na verdade, João Pedro George concretizou o que muitos julgavam impossível: biografar um poeta que se fez invisível, que “guardava ostensivamente reserva quanto à sua vida pessoal: não se deixava fotografar, não participava em beberetes nem em lançamentos, não ia a jantares nem a encontros de escritores, recusava entrevistas, prémios e homenagens”. E, no entanto, a sua vida foi rica em todos os aspectos e, por vezes, nem sempre poucas, essa invisibilidade não inibiu uma vontade de controlar o que sobre ele se dizia ou escrevia.
Para alguns, Se Eu Quisesse, Enlouquecia terá como consequência o estilhaçar de uma imagem de culto, mítica, que se foi construindo ao longo das últimas décadas. Em abalo, só as fotografias de Alfredo Cunha, publicadas no jornal Expresso cinco dias após a sua morte, se situam na mesma escala. E, no entanto, Herberto Helder deixou vários relatos pessoais, muitos amigos continuam a guardar memórias de uma personalidade única e de um poeta de excepção. Também a obra, não tendo forçosamente de ser lida à luz da biografia, não perde nada em ser contextualizada no seu tempo e no tempo do autor. Sabendo que Herberto Helder “era um grande leitor de biografias”, como lembra Aníbal Fernandes, já quase no fim deste percurso, terá certamente antecipado as que sobre ele se escreveriam.
Além das qualidades já reconhecidas em trabalhos anteriores, quer no campo da biografia (Fernando Pessoa, em O Super-Camões, ou Luiz Pacheco, em Puta Que os Pariu!), quer no da sociologia da literatura (O que É Um Escritor Maldito? ou O Cemitério do Elefante Branco), o trabalho de João Pedro George começa por cativar pela quantidade de informação que disponibiliza e articula, nomeadamente a vasta correspondência inédita. Como muitos da sua geração, Herberto Helder escrevia regularmente cartas para os mais variados destinatários e esse epistolário assume, em diversas passagens, a dimensão de páginas íntimas e de auto-interpretação, dando a conhecer um eu que se analisa, se reconhece e lança guias de leitura para a sua obra. Também um eu que, mais do que se elogiar, se vê na margem, do outro lado, fora de qualquer grupo.
A essa correspondência, a biografia acrescenta dois pilares fundamentais: as muitas pessoas ouvidas, mais de 70, entre familiares, amigos, amantes, admiradores ou estudiosos, com as suas visões complementares, contraditórias e contrastantes; e a exegese de uma obra literária consagrada, com alguns dos livros mais marcantes da poesia dos séculos XX e XXI, do inicial O Amor em Visita ao último (em vida) A Morte sem Mestre, passando por Os Passos em Volta, Cobra, a primeira poesia reunida ou A Faca não Corta o Fogo.
João Pedro George é um biógrafo exaustivo e minucioso, com uma enorme capacidade descritiva. Por vezes, na vontade de mostrar o homem e as suas contradições, de o tirar do pedestal em que foi colocado, esta monumental investigação acusa algum excesso. Se a sequência inicial surpreende pelo pormenor com que o dia da morte de Herberto Helder é reconstituído, outras passagens, igualmente detalhadas, nem sempre têm o mesmo efeito. Mas é sempre inebriante.
Se Eu Quisesse, Enlouquecia será, com todos os seus méritos, a biografia definitiva de Herberto Helder? Certamente que não, mas quem se lançar na próxima encontrará a fasquia muito elevada. L.R.D.
Poesia
Ouro de Duarte Drumond Braga | Flan de Tal
Este livro é um exemplo de uma inscrição deliberada numa linha temática previamente aceite. Neste caso, esse tópico garantido à partida revela um conseguimento invulgar. Ouro transforma o símbolo por excelência (e sobreutilização) numa utilização acutilante e totalmente distinta, que renova um elemento que poderia parecer inaproveitável, mas é aqui o eixo que tudo faz acontecer. Poesia do excesso e da meditação, de um dizer tão calibrado quanto radical. H.P.S.
Poética de Ana Cristina Cesar | Imprensa Nacional
Ana Cristina Cesar, depois de Arnaldo Antunes, Hilda Hilst, Paulo Leminski (e não é tudo): a colecção Plural, da INCM, é hoje valiosa para quem goste de poesia brasileira do século XX — ou queira descobri-la. Poética reúne livros, livrinhos, inéditos e dispersos desta poeta-cometa que aos 31 anos, em 1983, se suicidou. A irreprimível indecisão entre poesia e prosa, lirismo e teoria não só justifica plenamente o título do volume, como exprime bem uma época revisionista como foi a dos anos 70 e 80 do século passado. G.R.
Tetraphármakos de Alberto Pimenta | 7 Nós
A mais intemporal subversão, desde o fim ou começo dos tempos; a mais informada e lúcida desobediência. Esta escrita diz “não” (mas também o “sim” de Nietzsche) há séculos. Aqueles a que vai beber, à mesa com Diógenes, Epicuro (que empresta o título), Luciano, Giordano Bruno ou o Cavaleiro de Oliveira. Por isso é tão justa a fórmula dos editores, ao descrever esta caixa (biblioteca ou estojo de espingarda?) como um “quarteto fundamental da literatura insurgente portuguesa entre 1970 e 1977”: os livros O Labirintodonte, Ascensão de Dez Gostos à Boca, Os Entes e Os Contraentes e Corpos Estranhos, publicados originalmente em edição de autor. H.P.S.
Recurso e Pobreza de Tatiana Faia | Tinta-da-china
Com Recurso e Pobreza, Tatiana Faia prolonga e consolida a singularidade do seu percurso poético, assente na revisitação do universo clássico (e não só) e no uso do poema longo. Como em Um Quarto em Atenas ou Adriano, o poema convoca episódios, imagens, figuras, histórias e encontros do passado ou observados hoje, numa toada que indaga e investiga, revela e esconde. Com a evocação dos pais de Eros, em Recurso e Pobreza esse movimento define-se em torno do amor, do desejo, da melancolia e dos ataques à alegria de estar vivo. L.R.D.
Vida: Efeito-V de Carlito Azevedo | Tinta-da-china
“Gostaria de completar 100 anos na beira de um rio, com você./ Quando você anda sobre as pedras, quem pode ver o céu azul?” Assim começa o poema “Efeito rio” (p. 39) e a marca própria de Carlito Azevedo talvez se descreva como a do poeta para quem esta nunca seria uma pergunta retórica, em sentido corrente. O poema, pois, responde-lhe, entre memória e devaneio, à distância, mas com o quarto invadido por “você” nadando no rio. O célebre distanciamento brechtiano tem, para este poeta brasileiro nascido em 1961, o aspecto de uma lei a que ninguém pode obedecer. G.R.
Cousas de Folgar e Gentilezas de Vários autores | Org. Graça Videira Lopes | Assírio & Alvim
Da poesia que se fez em Portugal desde meados do século XV até ao fim da primeira década do século XVI, deu-nos conta, quase exclusivamente, Garcia de Resende na recolha que coligiu e a que deu o título Cancioneiro Geral, publicado em 1516. Cousas de Folgar e Gentilezas é uma selecção organizada a partir dessa obra, pouco conhecida dos leitores actuais, com numerosas composições poéticas que se relacionam com o quotidiano do país e da corte da época, sem deixar de fora "testemunhos curiosíssimos" da poesia erótica. J.R.D.
À Solta no Exército de Salvação de Frederico Pedreira | Assírio & Alvim
Um percurso fortemente individual, entre soturno e álacre, entre a meditação sombria e o divertimento informado. Uma poesia de ampla gama de modos e registos, esta de Frederico Pedreira, sábia nos ritmos, ágil no manuseio do léxico, diligente na manutenção do atrito, na lucidez com que recusa a sereia da harmonia. Este mundo do verso manifesta-se através de um corpo escrito audaz e idiossincrático, onde o mundo é o lugar da estranheza e a palavra o caminho de toda a aventura dos sentidos. H.P.S.
O Filho do Carpinteiro de A. E. Housman — Trad. Hugo Miguel Santos, Assírio & Alvim
O modernismo tem muitas moradas. Algumas exuberantes, explosivas; outras, como esta, reclamam um lugar de recato, à sombra de mestres plácidos, que não perdoam (não é acaso o eco pessoano). A. E. Housman, até na quase afectação das iniciais (consagradas também com Eliot, Cummings, Lawrence, ou H.D.), é um modernista de medula clássica. Um exemplo notável (e muito anterior a estrelatos como os de Borges) de como a mais exaltante forma de ser moderno é entranhar os clássicos. H.P.S.
Idade da Perda de Daniel Jonas | Assírio & Alvim
“Quando nos fingimos de morto, a vida acredita.” Este verso, no meio de um poema de amor esgotado, talvez dê o tom do livro de Daniel Jonas, o poeta culto por excelência das letras portuguesas actuais. Maneirismos assumidos, sintaxe à antiga, vocabulário rebuscado — tudo isso convive com um sentimento amargo do tempo actual, que se exprime de modo mais amplo no poema “Arte do Estado”, penúltimo do livro. A certa altura diz: “Valer a pena isto? Não vale. Mas o que há é isto.” Aparentemente desolador, é um poema escrito contra o cinismo. G.R.
Aquele Belo Rapaz - Poesia Completa de K. P. Kaváfis — Trad. José Luís Costa | Assírio & Alvim
E, por fim, a circum-navegação. “A obra não canónica de Kaváfis, os poemas anteriores a 1905 que não publicou ou os que deliberadamente deixou inéditos, são campos onde só em fase posterior nos sentiremos obrigados a tocar. Apenas depois de traduzir toda a obra canónica, só então”. Assim apresentavam Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, em 1994, a segunda incursão na obra do poeta grego, cujo trabalho de divulgação em Portugal havia começado pela mão de Jorge de Sena e das suas versões a partir do inglês, primeiro no jornal O Comércio do Porto, em 1953, e depois em livro, na Inova, em 1970, com reedições na Centelha, ASA e Maldoror.
A dupla Magalhães e Pratsinis, que se formara na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (professor e poeta, o primeiro, aluno grego fixado em Portugal, o segundo), tinha consciência do muito que havia por fazer. Já tinham publicado uma primeira aproximação, na Cotovia, em 1988, com 25 poemas, a que juntaram mais alguns (e alguma prosa) nessa edição de 1994, na Relógio d’Água, para chegar, em 2005, a uma edição mais alargada.
Ficava nessa altura disponível, em Portugal e a partir do original grego, a obra canónica de Kaváfis, que Joaquim Manuel Magalhães não hesitava em considerar, a par de T. S. Eliot, “o maior poeta da primeira metade do século XX”. Esse mesmo corpus seria ainda revisitado, em novas traduções de Manuel Resende (também do grego), num trabalho publicado, em 2017, pela Flop. Mas faltava o resto, que agora nos chega com esta poesia completa.
Aquele Belo Rapaz encerra a circum-navegação a K. P. Kaváfis, nascido, em 1863, nos círculos helénicos da Alexandria otomana, e falecido em 1933. E prolonga uma tradição literária com mais de 70 anos, sempre pautada pelo empenhamento de poetas/tradutores. José Luís Costa também assume essa dupla condição (publicou três livros de poesia), assinando aqui o seu trabalho de tradução de maior fôlego.
Eis, então, o retrato completo de um “poeta-historiador”, como o define o ensaísta Daniel Mendelsohn, autor de uma edição de referência de Kaváfis em língua inglesa, ou de “um poeta de celebração e de derrota”, como sugere Tatiana Faia no posfácio que encerra o volume. Um retrato completo porque inclui o que não foi publicado em vida — o Kaváfis não canónico.
A edição da sua poesia tem seguido o que o próprio poeta definiu. Entre as muitas curiosidades em torno da vida de Kaváfis (as línguas que falava, o gosto pela História, a influência em outros escritores, a presença no Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell) conta-se também a forma como dava a conhecer os versos que escrevia. É certo que, no espírito do tempo, publicou em revistas, mas o grosso do que divulgou foi enviado a amigos, a pessoas que lhe pediam para ler mais ou a quem considerava que podia interessar. Foram assim constituídos vários cadernos que definiram três ciclos de produção madura (1905-1915, 1916-1918 e 1919-1933).
Agora revelam-se, em Portugal, mais de cem poemas nunca publicados ou enviados, inacabados ou até repudiados. Muitos reportam-se ao seu período de formação, com incursões românticas e parnasianas; a busca de um estilo, entre o grego que se queria impor oficialmente (katharévoussa) e o que se falava na rua (demótico); e o trabalho com as variações métricas, num tempo em que, uma vez conquistada a independência, a Grécia e o seu universo de influência procuravam consolidar uma identidade, entre o passado e a modernidade.
Talvez com esta visão de conjunto se consiga responder à pergunta que o próprio Kaváfis deixou num dos poemas repudiados: “Para que fim ou proveito terá querido a sorte/ que eu, fraco entre os fracos, poeta nascesse?” A réplica da musa fica-se agora a saber: “Só as cordas da lira/ conhecem a verdade” (…) És oficiante do divino (…)/ És cofre cheio de incensos”. Ao ler Aquele Belo Rapaz, também o leitor de Kaváfis poderá encontrar a sua resposta. L.R.D.