Ípsilon

As melhores exposições em 2025

As melhores exposições de 2025. Escolhas de José Marmeleira e Luísa Soares de Oliveira


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Começo, Meio, Começo de Cinthia Marcelle | Museu de Serralves, Porto

Capa de Começo, Meio, Começo de Cinthia Marcelle | Museu de Serralves, Porto

Uma poderosa instalação na sala central do Museu de Serralves trouxe a Portugal a obra de Cinthia Marcelle, que chegou com o prestígio de uma menção honrosa na 57ª Bienal de Veneza (2017) pela obra apresentada no pavilhão do Brasil, seu país natal. No Porto, a instalação articulada sobre focos de luz intermitentes num ambiente vermelho e negro desequilibrava os parâmetros espaciotemporais do visitante, substituindo-os por uma temporalidade cíclica evocativa de culturas não-ocidentais. A peça, criada sob a égide do activista Nêgo Bispo, teve a colaboração dos arquitectos Anna Juni, Enk te Winkel e Gustavo Delonero. L.S.O.

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9

Juntos de Helena Almeida e Artur Rosa | CAV, Coimbra

Capa de Juntos de Helena Almeida e Artur Rosa | CAV, Coimbra

No Verão, o CAV brindou-nos com uma excelente exposição de dimensões modestas sobre o casal Helena Almeida (1934–2018) e Artur Rosa (1926-2020), que nunca tinham sido alvos de uma exposição conjunta: ela, uma das grandes figuras da arte contemporânea em Portugal, conhecida pelas suas auto-representações fotográficas que questionam os limites e a sobrevivência da pintura; ele, o olhar por detrás da câmara fotográfica que registava o fazer de Helena Almeida, mas também dono de uma obra de qualidade como arquitecto e artista motivado pela serialidade e pela abstracção. Obras inéditas e outras mais conhecidas permitiram perceber distâncias e pontos de contacto entre ambos. L.S.O.

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Rascunhos Teimosos ___ Ficções Ardentes de Fernando Marques Penteado | Culturgest, Lisboa

Capa de Rascunhos Teimosos ___ Ficções Ardentes de Fernando Marques Penteado | Culturgest, Lisboa

Nesta grande exposição antológica, Fernando Marques Penteado introduziu-nos no seu universo cultural onde, convocando o trabalho da ensaísta Susan Sontag, mostrou diferentes instalações onde anulava não apenas a diferença entre alta e baixa cultura como também entre arte contemporânea e artesanato, bom e mau gosto, vida quotidiana e produção artística. Muito bem montada e concebida, cada espaço era activado pelo visitante que ocupava esses quase cenários onde o bordado era a técnica eleita para a criação artística. L.S.O.

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7

Sombras Rosas Sombras de Maria Capelo | Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa

Capa de Sombras Rosas Sombras de Maria Capelo | Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa

Em Sombras Rosas Sombras, com curadoria de Nuno Faria, constatámos que a paleta de Maria Capelo abriu-se, expandiu-se. Também poderíamos dizer que se aprofundou, que ameaçou enxamear as telas, que animou as pinturas a um tal ponto que estas pareciam mover-se. Com a luz das suas cores, naquela clareira à volta da qual se revelam e dançavam delicados, finos e negros desenhos. Exposição que nos segredava algo destes tempos, afirmou o espantoso sortilégio da pintura e do desenho da artista. J.M.

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Avenida 211. Um espaço de artistas em Lisboa de Vários | MAC/CCB, Lisboa

Capa de Avenida 211. Um espaço de artistas em Lisboa de Vários | MAC/CCB, Lisboa

Com curadoria de Nuria Enguita e Marta Mestre, ofereceu-nos um olhar generoso sobre um edifício no centro de Lisboa transformado por um vasto e heterogéneo conjunto de artistas num encontro de obras e ideias, num lugar de exposições e conversas. Foi em 2006 que o Avenida 211 nasceu e em 2014 que desapareceu. Passados mais de dez anos, reencontrámo-lo nesta inesgotável exposição, com obras de criadores como Francisco Tropa, Daniel Barroca, Virgínia Mota, João Queiroz, Diogo Evangelista, António Poppe, João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Musa Paradisíaca e Catarina Dias. Com memórias e ecos que resistem numa outra, muito diferente, cidade. J.M.

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5

Habitar a Contradição de Carlos Bunga | Centro de Arte Moderna Gulbenkian, Lisboa

Capa de Habitar a Contradição de Carlos Bunga | Centro de Arte Moderna Gulbenkian, Lisboa

Não se tratou de outro regresso de Carlos Bunga a Lisboa e à cena artística portuguesa. Foi mais do que isso. Com o olhar do curador Rui Mateus Amaral, o artista, vencedor do Prémio EDP Novos Artistas em 2003, transfigurou a nave e o mezanino do CAM. Obras inéditas, uma impressionante e frágil instalação de cartão site-specific, com os seus recantos e abrigos, bem como obras da colecção, construíram uma exposição na qual ressoam os sentidos destas palavras: casa, infância, maternidade, escola, comunidade e tempo. J.M.

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4

Zanele Muholi de Zanele Muholi | Museu de Serralves, Porto

Capa de Zanele Muholi de Zanele Muholi | Museu de Serralves, Porto

Foi uma das exposições mais surpreendentes do ano, pela emoção e pelo rigor sensual que carregava. Mostrou o que a fotografia ainda pode dizer e fazer ao mundo, elevando-se sobre o carácter documental e visual. No centro, enquanto motivo sussurrado, quando não exclamado, estiveram as comunidades negras e LGBTQIA+ da África do Sul. Mas esta retrospectiva com mais de 200 fotografias, a maior de Zanele Muholi, dirigiu-se a todos nós enquanto repositórios de igualdade, resistência, solidariedade e humanidade. J.M.

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Acredito em Tudo de Rui Chafes | Galeria Filomena Soares, Lisboa

Capa de Acredito em Tudo de Rui Chafes | Galeria Filomena Soares, Lisboa

Uma surpreendente montagem mostrava 19 esculturas suspensas que punham em questão os habituais lugares-comuns referentes a esta disciplina: nada ali parecia pesado, imóvel ou condenado à permanência, tudo convocava a leveza, o voo, o movimento e o vento. Em Acredito em Tudo, Rui Chafes prosseguiu a sua indagação dos limites da escultura — sempre em ferro e pintada de preto, também em oposição à leveza formal de cada peça. O artista dizia-nos então que a presença do espectador era fundamental para activar cada peça, cada escultura. Ele, Chafes, adivinha-as em qualquer lugar do seu quotidiano, contava ao Ípsilon: cabe sempre ao escultor materializá-las. L.S.O.

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O que nos olha de Miriam Cahn | MAAT, Lisboa

Capa de O que nos olha de Miriam Cahn | MAAT, Lisboa

A grande artista suíça apresentou em Lisboa a sua primeira exposição individual em território português — uma pedrada no charco das conveniências e dos consensos, com uma obra que se revelou brutal, justa, interpelativa e reflexiva, sem nunca colocar de lado a opção pela pintura que, contra os ditames da arte na época da sua formação, sempre privilegiou em relação a outras disciplinas. Atenta à actualidade, às relações de poder vigentes na sociedade ocidental, Miriam Cahn (n. 1949) considera que a arte é não só um prazer, mas também um dever: o dever da sua vida. L.S.O.

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1

Time Stands Still. Fotografias, 1980-2023 de Jeff Wall | MAAT

Capa de Time Stands Still. Fotografias, 1980-2023 de Jeff Wall | MAAT

Uma das mais extensas e completas exposições de Jeff Wall nos últimos vinte anos, Time Stands Still. Fotografias, 1980-2023, reuniu 63 trabalhos, incluindo alguns dos mais emblemáticos e comentados do artista (como The Storyteller, de 1986) e outros mais recentes (caso de Band & crowd, de 2011). Pelo seu escopo, diversidade e qualidade, os trabalhos do artista canadiano proporcionaram uma viagem: a um universo e a um fazer que já podemos considerar históricos, mas, em simultâneo, também profundamente actuais, influentes e enigmáticos.

De um conjunto de interesses intelectuais e sensibilidades estéticas e artísticas, passando pela noção de cinematografia até ao significado do pictórico e da pintura, Time Stands Still não se limitou a espantar os espectadores com o realismo sedutor e inquietante das suas imagens. Proporcionou-lhes uma reflexão sobre o lugar da imagem fotográfica na história dos anos 1960 e 1970, sobre o que pode ser, contra a História, o amor pela grande arte, o significado da qualidade pictórica do cinema e as nossas percepções mais comuns da imagem fotográfica.

Sensível às interpelações da arte conceptual e do minimalismo, atento à crítica da imagem e à estética, Jeff Wall nunca deixou, intelectualmente, de se debruçar sobre as ideias e as obras dos seus pares. Acolheu e desenvolveu uma atitude reflexiva vinda da teoria, sensível, todavia, à monumentalidade humana que a imagem fotográfica ainda continua a exprimir e a preservar. Já não na forma de uma fotografia exclusivamente documental, mas confiando que o espectador continuará disposto a observar a arte como jogo livre, imprevisível, subtil.

A exposição, que ocupou, com a curadoria de Sérgio Mah, a totalidade da galeria do MAAT, não tinha uma narrativa particular ou um ritmo cronológico que guiasse os visitantes, mas antes atalhos, passagens e dobras por um caminho feito de momentos diferentes.

Jeff Wall evoca para a sua fotografia a presença e a escala que os pintores, com a sua arte, já haviam conseguido noutros séculos, mas assume a sua dependência do real, a sua relação continuada com o registo fotográfico. Os temas ou as diferentes abordagens formais e conceptuais declinavam-se ao longo do espaço do MAAT: viam-se paisagens, encontrava-se a rua, deparávamo-nos com o repetido isolamento do indivíduo, éramos surpreendidos pela representação de um gesto ou pela aparição de um rosto. Em fotografias coloridas em caixas de luz, a preto e branco ou impressas em papel fotográfico, o artista deixou-nos imagens que paravam o movimento e interrompiam o tempo.

Artista fascinado com a imobilidade concreta da imagem, Jeff Wall também nos permitiu compreender a importância do pensamento e da composição nos seus trabalhos, como estes ainda nos permitem aceder a uma certa experiência da beleza — beleza estranha ou que desponta do estranho —, pondo-nos diante de situações em que as pessoas (uma boa parte das quais Wall não conhece) se podem sentir como reais. Sem nunca ocultar a dependência da aparência imediata do mundo, mostra-nos a diferença ou a incerteza que a câmara, o instrumento, lhe e nos revelava.

Em Time Stands Still. Fotografias, 1980-2023 pudemos ver obras como The Jewish Cemitery (1980), The Drain (1989), Coastal Motifs (1989), The Flooded Grave (1998-2000), Tattoos and Shadows (2000), Fieldwork (2003), Portrait in Noto (2007) ou Approach (2014). Imagens, fotografias, obras que se ofereceram ao nosso estudo, ao nosso olhar colectivo e que não se fecharam ao mundo que nos aguardava lá fora. Da autoria de um artista que ainda confia na durabilidade da arte, que deseja que ela dure, que permaneça. E que encontra em cada espectador um intermediário com o real. Por mais estranho, ameaçador, plácido ou belo que esse real seja. J.M.

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