It’s the economy, stupid!
Variação do PIB face ao período homólogo. Partido no poder tende a sofrer quando o crescimento económico desacelera antes da eleição.
Em qualquer eleição norte-americana, o estado da economia é sempre um dos pontos-chave na definição da intenção de voto.
A história recente mostra que as administrações incumbentes sofrem derrotas quando o produto interno bruto (PIB) abranda ou diminui antes de eleições – como é agora o caso.
Biden cavalgou a recuperação pós-covid – depois de a pandemia ter prejudicado Trump – mas viu o crescimento abrandar nos últimos dois anos.
A inflação também não é simpática para os democratas. Atingiu o pico máximo das últimas quatro décadas em 2022, rondando agora os 3%.
Trump culpa a Administração Biden, que se defende lembrando que teve de combater o impacto da pandemia e as ondas de choque da invasão russa da Ucrânia.
Lá, como cá, a habitação é uma das áreas em que mais se sentiu o aumento do custo de vida. Os preços das casas dispararam depois da pandemia e, apesar do recente abrandamento, continua em valores que não se viam desde a viragem do século.
Um dos slogans republicanos repescados por Donald Trump para a campanha é “Drill, baby, drill” , com garantias de que vai reforçar o investimento nos combustíveis fósseis e desconsiderar fontes de energia renovável.
O candidato republicano critica a atenção que Kamala Harris dá à matéria, embora a produção e o consumo deste tipo de energia também tenham aumentado durante o seu mandato.
Apesar de o recurso às energias renováveis aumentar de ano para ano, o seu peso na balança energética norte-americana ainda é reduzido.
O petróleo e o gás natural alimentam 75% do consumo do país, com as energias renováveis a representarem apenas 8,3%. Uma percentagem baixa, mas que em 2023 já foi superior à do carvão (8%).
Na corrida à Casa Branca de 2016, Trump prometeu voltar a apostar na produção energética com recurso a carvão, mas tal nunca se veio a verificar: o consumo tem vindo a descer desde o início do século e assim continuou durante o mandato de Trump.
Outro dos assuntos prioritários desta campanha eleitoral é a imigração. Os números oficiais, até 2020, pouco representam a realidade actual devido à vaga de entradas irregulares pós-pandemia.
O Governo norte-americano estima que tenham entrado desta forma 11 milhões de pessoas no país durante o mandato de Biden e Harris. Os números levaram os democratas a entrar num terreno de jogo que era dos republicanos, aproveitando medidas de Trump para bloquear pedidos de asilo e estancar a entrada de imigrantes.
Com uma retórica xenófoba cada vez mais forte, Donald Trump tem procurado cavalgar o tema, culpando os imigrantes pela subida do preço das casas e pelo aumento da insegurança. Ainda que os números da criminalidade violenta apontem para uma descida.
Por outro lado, o registo de crimes de ódio tem crescido consecutivamente. A tendência começou tímida, dois anos antes da corrida de Donald Trump à Casa Branca, mas agudizou-se com o republicano no poder.
Entre 2016 e 2020, o número de crimes de ódio reportados às forças de segurança aumentou quase 60%.
A clivagem política também é clara em matéria de interrupção voluntária da gravidez (IVG) – uma bandeira forte de Kamala Harris perante um Trump vacilante no tema.
Até 2021, os dados do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) mostravam uma tendência estável no número de mulheres entre os 15 e os 44 anos que interromperam a gravidez.
Perante uma sociedade americana maioritariamente pró-escolha, a candidata democrata espera que o tema sirva de tira-teimas para indecisos — especialmente entre o eleitorado feminino.
Desde a reversão da decisão Roe vs Wade, que abriu a porta à proibição do aborto em vários estados norte-americanos, o tema tem contribuído para grandes vitórias dos democratas.
Chegados aqui, a pergunta que o leitor poderá estar a fazer é: mas quem tem mais probabilidades de ganhar? E a única resposta possível neste momento é: pegue numa moeda e atire-a ao ar…
É que, em mil simulações probabilísticas feitas pelo FiveThirtyEight, um órgão de comunicação social que se especializou em produzir modelos de previsão das eleições, a probabilidade de um dos concorrentes vencer é quase a mesma do que atirar uma moeda ao ar.
Portanto, nem a estatística nos ajuda muito para saber quem pode vencer a corrida à Casa Branca. Resta-nos esperar pelo voto dos americanos.