Portugal foi a votos para eleger presidentes de Câmara nos 308 municípios. O PSD é o grande vencedor: conquista 136 câmaras (sozinho ou em coligação), mais oito do que o PS, que tem, ainda assim, um resultado melhor do que o conseguido nas últimas legislativas, em Maio.


PSD
PS
Chega
CDU
Outros

Mas se em algumas câmaras não há margem para dúvidas, há outras onde vencer as eleições não chega: é preciso sentar à mesa de negociações para conseguir uma maioria estável.


Maioria
Sem maioria

Entre as 308 câmaras, um quarto não tem uma maioria que permita ao partido, coligação ou movimento independente governar sem um ou mais vereadores da oposição.

Abre-se agora a segunda fase das eleições autárquicas. PSD e PS empatam nesta situação: ambos precisam de negociar em 27 municípios. E, de repente, partidos que não ganham passam a ter muito mais poder do que o que lhes foi conferido nas urnas.

É o caso do Chega. O partido ficou longe das 30 câmaras que ambicionava, mas a conquista de vereadores fez aumentar em cinco vezes o seu potencial de ser parceiro de governação face a 2021.

E depois das autárquicas?

Uma em cada quatro câmaras não tem maioria para governar. Chega e PS são os que mais podem ser chamados a negociar

Um em cada quatro municípios ficou sem maioria absoluta nestas autárquicas, um aumento de 50% face a 2021. Chega rompe com o bipartidarismo e pode negociar um apoio em 47 concelhos — mais dois do que o PS.

Nas eleições autárquicas de 2025, 75 municípios tiveram um vencedor claro, mas não conseguiram a maioria absoluta dos vereadores — há quatro anos, havia 50 autarquias nestas circunstâncias, o que aponta para um aumento de 50%. É, por isso, altura de esquecer as quezílias da campanha e chamar os vereadores eleitos para a mesa de negociações.

O PÚBLICO calculou todas as combinações possíveis de coligações informais que garantem maioria numa câmara. Excluiu das contas as “coligações negativas” (em que toda a oposição se une e fica em vantagem) e só considerou, para este cálculo, as negociações que matematicamente dariam uma maioria naquele concelho (por mais improvável que aquela aliança seja).

O retrato dos estilhaços da noite eleitoral mostra um país com mais câmaras sem maioria, mas com os três partidos praticamente empatados no que toca a coligações hipotéticas.

A influência do Chega concentra-se sobretudo na Área Metropolitana de Lisboa e no Algarve. Dos 47 municípios onde o partido pode ser decisivo, 10 estão no distrito de Lisboa (incluindo a capital), oito em Setúbal e seis no Algarve.

Quem precisa de quem?

Dos 75 municípios sem maioria absoluta, o PS venceu em 27 — e em 22 deles (81%) pode conseguir governar com o apoio dos vereadores do PSD (em qualquer das suas formas: sozinho ou em coligação com partidos como o CDS). Já o Chega, por sua vez, pode ser decisivo em 21 municípios onde o PS foi o mais votado, tornando-se uma alternativa quase tão importante quanto o próprio PSD. A CDU só pode dar maioria ao PS em 10 casos — quase metade do poder negocial do Chega.

A relação inverte-se quando é a direita a vencer. Nas 27 câmaras onde o PSD ganhou (sozinho ou com CDS-PP) mas não tem maioria, o partido pode negociar com o PS em 26 delas (96%) para garantir maioria — uma dependência quase total.

O Chega surge como alternativa viável em proporções muito diferentes para os dois grandes partidos. Nos 27 municípios onde o PS venceu, o Chega pode ser parceiro em 21 deles (78%) — quase tanto quanto o próprio PSD. Mas quando é o PSD a vencer, o Chega só é opção em 15 municípios (56%). Esta assimetria de 22 pontos percentuais mostra que o partido de André Ventura tem mais margem de negociação com a esquerda do que com a direita.

A CDU mantém-se relevante apenas no espaço político da esquerda: pode ser parceira em 10 dos 27 municípios onde o PS venceu (37%), mas quando é o PSD a ganhar, os comunistas quase desaparecem do mapa de negociações (4 municípios, 15%). Os movimentos independentes locais, por sua vez, pesam mais nas negociações da direita: são opção em 44% das vitórias do PSD, contra apenas 19% das vitórias do PS.

Feitas as contas, em 48 dos 75 municípios sem maioria (64%), PS e PSD podem governar em bloco central.

Tabela: Quem pode negociar com quem

Mas vamos a exemplos: em Sintra, Marco Almeida (PSD/IL/PAN) venceu sem maioria absoluta e garantiu avaliar todos os vereadores eleitos pela sua competência, incluindo o Chega. "Vejo que o Chega e o PS elegeram vereadores e, por isso, têm o testemunho dos sintrenses", afirmou.

O social-democrata rejeitou estabelecer "linhas vermelhas" partidárias. "A minha linha vermelha é com a incompetência", defendeu.

Já no caso de Viseu, o candidato do PS “roubou” a câmara ao PSD de Fernando Ruas, (PSD), que liderava o município há mais de uma década. Apesar da derrota do PSD, o PS não excluiu negociar com outros partidos, incluindo o Chega.

Posição que contrasta com a orientação nacional do partido. Em Setembro, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, aprovou um documento com 12 pontos que afasta acordos com autarcas que não partilhem, "sem ambiguidades", os "ideais humanistas" do PS, vinculando os eleitos a promover o acolhimento e integração de imigrantes.

No Porto, Pedro Duarte (PSD/CDS-PP/IL) assumiu a vontade de governar sem acordos no discurso de vitória. "Tendencialmente governarei sempre sozinho", declarou ao PÚBLICO antes das eleições. Ao longo da campanha, fez do diálogo "com todos" uma bandeira, mas nunca escondeu o seu desconforto com acordos de governação, que exigem "um grau de confiança, de respeitabilidade mútua." O Chega elegeu um vereador, quase triplicando os votos face a 2021.

"Isso é mais ou menos evidente que vai ser difícil, para não dizer impossível, com algumas forças", declarou Pedro Duarte, deixando claro que as "linhas vermelhas" devem incidir sobre "determinados tipos de princípios e políticas", e não sobre partidos.

Três, a escolha que o eleitor fez

Em todos os 75 municípios onde o presidente não elegeu vereadores suficientes para formar uma maioria, basta apenas um parceiro de coligação pós-eleitoral para a formar. No entanto, em 15 destes municípios, o vencedor tem três partidos, coligações ou movimentos de cidadãos por onde escolher.

É o caso da capital. Em Lisboa, Carlos Moedas venceu mas não tem a maioria dos vereadores. O autarca que encabeça a coligação PSD.CDS-PP pode conseguir uma maioria negociando com PS-L-BE-PAN, Chega ou CDU. Já em Almada, os socialistas têm CDU, PSD ou Chega no leque de opções.

Municípios onde o vencedor pode escolher entre três parceiros para garantir maioria

MunicípioVencedorOpções
LisboaPSD.CDS-PPPS-L-BE-PAN OU Chega OU CDU
CascaisPSD.CDS-PPPS OU Jonet OU Chega
AlmadaPSCDU OU PSD OU Chega
SetúbalSET-VPS OU Chega
ÉvoraPSPSD.CDS-PP OU CDU OU Chega
SilvesCDUPSD.CDS-PP OU PS OU Chega
OvarPSDPS OU AGIR! OU Chega
AzambujaPSPSD OU Chega OU CDU
AlenquerPSPSD.CDS-PP OU Chega OU TIAGOPEDRO
Mafra#HMLPSD OU PS OU Chega
MontijoMVCChega OU PS OU PSD.IL
Salvaterra de MagosJuntos+PS OU Chega OU PSD
AmaresPSDPS OU RAMI OU ASA
FundãoPSDPS OU CF OU Chega
Marinha GrandePS+MPM OU Chega OU CDU

Menos maiorias absolutas do que em 2021

O número de municípios sem maioria absoluta aumentou de 50 (16,3% do total) em 2021 para 75 (24,4%) em 2025. O PS perdeu 24 maiorias absolutas, passando de 124 para 100 municípios onde governa sozinho. Contudo, nos municípios sem maioria, os socialistas aumentaram o seu poder decisório: podem ser decisivos em 45 municípios em 2025, contra 26 em 2021 — um crescimento de 73%.

O PSD aumentou ligeiramente as suas maiorias absolutas — de 106 para 109 municípios —, com o crescimento a ocorrer tanto nas candidaturas solitárias (67 para 68) como nas coligações com o CDS-PP (38 para 40).

O Chega multiplicou por quase cinco a sua capacidade de influenciar acordos locais: de 10 municípios onde era decisivo em 2021 para 47 em 2025. Mas, das três câmaras conquistadas, só uma é com maioria.

A CDU, por sua vez, perdeu cinco maiorias absolutas (de 11 para seis) e também viu reduzir-se o seu poder decisório — passou de ser decisiva em 17 municípios em 2021 para 15 em 2025. O partido mantém a sua força negocial sobretudo na cintura de Lisboa (Seixal, Palmela, Sesimbra) e no Alentejo (Silves, Montemor-o-Novo, Sines).